
Indomáveis e firmes no seu caminho, nunca caíram de divisão. 'Goiko' desfia vários eixos do orgulho. Conversa com Goikoetxea, celebrizado como "carniceiro de San Mamés", um dos nomes icónicos do Athletic, bicampeão na década de 80 e adversário do Sporting na UEFA em 85/86.
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Sporting e Athletic cruzam-se pela terceira vez na Europa, havendo uma eliminatória favorável aos leões em 1985/86 e uma aos bascos, na era Bielsa, que determinou acesso a uma final da UEFA em 11/12. Foi, então, um cenário de apoteose. Agora, num ambiente de Champions, volta a dança da vida ou morte, importância desmesurada em cena para os leões de San Mamés, que jogam a sua sobrevivência, ao passo que o Sporting luta por não perder vaga imediata nos "oitavos".
O Athletic vai contar com casa a abarrotar e um sentimento avassalador pelas suas cores, onde encaixa coração, paixão a mil pulmões, funcionando o jogo como perfeito megafone do orgulho, que envolve a cidade, a região, a cantera e a filosofia do clube. Entre muitos exemplos de fervor basco, sangue a ferver, veias a rebentar por uma causa, Andoni Goikoetxea, eterno Goiko, para uma vibração mais sonora "Butcher of San Mamés", carrasco de Maradona, estará entre os mais emblemáticos do que é catarse sentimental de jogar em San Mamés.
Uma história escrita com 321 jogos, 13 épocas a trajar pelo Athletic e um papel carregado de simbolismo no bicampeonato de 1983 e 1984, com extra de dobradinha em 83/84. O central era um dos nomes sonantes da equipa que perdeu em 1985 na colisão de alto risco para o Sporting.
Goikoetxea é lendário, também como histórico da seleção espanhola, titular no Europeu de 1984 e Mundial de 1986. Mas é a devoção ao Athletic que o acompanha até hoje, já nos seus 69 anos. "Vivi os melhores anos da história do clube. A época de 1983/84 é inesquecível, pois conseguimos agarrar todos os títulos, a Supertaça, o Campeonato e a Taça. Viver algo assim num clube distinto e uma equipa singular arrebata-te", recorda, curvando-se a uma história sem descidas nem estrangeiros. Entende-se a cultura de jogo, aberta a filhos da Euskal Herria, que emana dos valores enraizados. "Há uma filosofia que atravessa o tempo e temos um Athletic sempre capaz de competir com os melhores do mundo. Segue nessa linha, a honrar o passado e a jogar a Champions", relata, descrevendo a era dos oitentas e uma energia de um manto ao peito. "Era uma grande equipa e um plantel cheio de internacionais, como eu, Zubizarreta, Sarabia, Urquiaga, De Andrés ou Julio Salinas. E, acima de todos, havia um grande treinador que era Clemente. Exigia muito e conhecia todos em profundidade. Por isso apertava mais com uns, menos com outros. A nossa confiança nele era fortíssima, havia grande afeto", sustenta Andoni Goikoetxea, que assumiu os sub-21 espanhóis, quando Clemente liderava a Roja. "Era polémico, já no Athletic dizia o que pensava. Era preciso conhecê-lo, como treinador era fácil estalar polémica, mas tratava muito bem os jogadores", conta.
Goikoetexea agarra no esférico com a autoridade de capitão e embaixador do Athletic, saboreando as dores provocadas aos habituais mandões do futebol espanhol."
"Temos de ver que a Espanha é um pouco como Portugal. Há três equipas mais dominantes como o Real, Barcelona e Atlético. Olhávamos para um Real de Breitner e Stielike, o Barcelona tinha os melhores do Mundo. Schuster era brutal no meio-campo e Maradona foi o melhor que vi jogar na década de 80. Os restantes do Real e Barça eram internacionais por Espanha", sublinha.
Enfatizando a marca identitária que definiu o auge, Goiko ilustra um Athletic "que jogava com a sua filosofia, a união do grupo, a questão física", galvanizado por "um futebol basco que vivia anos incríveis. "A Real Sociedad tinha sido bicampeã e conseguimos colher esse relevo. Eram vitórias erguidas com muito orgulho, com identidade na academia e uma amizade travada de muito novos. Como hoje, se olharmos à equipa que ganhou em Bergamo, são quase todos sub-23", analisa o feroz central, situando-se perante referências e convicções, o futebol como herança de um sentimento.
"O Athletic conta a minha vida. Quando és criança e jogas no bairro, o que aspiras é jogar pelo Athletic. Tive a sorte de começar muito novo, com 18 anos. Fiz 13 temporadas. Para outros depois vem o tema económico, aspetos em que podes melhorar na tua vida. Mas há um espírito e uma filosofia que nunca vai mudar e isso marca qualquer canterano", explica, assinalando "Iribar e Rojo I" como nomes maiores do seu imaginário juvenil.
Trincão e Suárez impressionam
Em conversa com O JOGO, Goikoetxea discorre a troca de argumentos entre duas espécies de leões, famintos de consagração europeia e com história cruzada que remonta a 1985 e 2012. A derrota em Sevilha do Athletic traduz-se em orgulho ferido. "Este jogo é uma boa oportunidade, porque as derrotas esquecem-se com vitórias. Prevejo emoção perante um Sporting já qualificado. Seguir em frente repercute economicamente", observa, ciente que só um resultado reconforta." "O Athletic depende de si perante um adversário complicado. A equipa vai dar tudo o que tiver ao seu alcance", atirou, tocado pelo anúncio de armas contrárias. "Vi o jogo com o Paris SG e vi um Sporting forte. Trincão mostra muita qualidade e Suárez é um verdadeiro goleador. São dois jogadores que passaram pelo futebol espanhol, mais conhecidos. Mas estamos otimistas, o estádio vai estar lotado e todos vão dar a vida", projeta o basco.

