Família Costa move-se em função do andebol: "Lembro-me perfeitamente e, 30 anos depois..."

Família Costa
Mário Vasa
PARTE I - Ricardo, Cândida, Martim e Kiko Costa, pai, mãe e dois filhos, voltaram a encontrar-se com O JOGO, para a terceira parte. Os pais foram jogadores de excelência, internacionais A, mas Cândida, devido à maternidade, deixou de jogar cedo, aos 24 anos. Valeu a pena, Martim e Kiko estão entre os dez melhores do planeta.
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Em 1996, O JOGO juntou Ricardo Costa, então jovem jogador do FC Porto, e Cândida Mota, atleta do Colégio de Gaia, ambos internacionais A, ele ponta-direita, ela lateral-esquerda, e namorados. Eram o casal do andebol. Em 2020 esse trabalho teve uma segunda versão, com Ricardo, Cândida e os filhos, Martim e Kiko Costa a envergar a camisola dos dragões. Agora, em 2025, quase 2026, uma terceira edição, com o pai e os descendentes a vestir de verde e branco. Naturalmente, a mãe, sempre bem disposta, esteve presente. "Oh, já sei que me vai perguntar se estou orgulhosa dos meus filhos", atira logo a abrir. "Para qualquer pai ou mãe é um orgulho ver os filhos felizes. E com sucesso naquilo que estão a fazer. Mas também tenho orgulho do marido", lá respondeu.
"Lembro-me perfeitamente e, 30 anos depois, foi tudo demasiado rápido. A vida passa muito depressa e esses 30 anos foram a voar", constata Ricardo. "Mas algumas coisas que eu perspectivava quando tinha 18 anos, que era gostar de ter um filho da Cândida, uma coisa, naquela altura, um bocado longínqua, veio-se a concretizar. O desejo de ter um filho, um filho homem, era muito forte e eu digo sempre que, quando nasceu o Martim, foi o primeiro dia realmente muito feliz da minha vida. O outro, claro, foi o nascimento do Kiko", recorda o técnico, continuando a viajar no tempo: "A partir desse momento foi sempre andebol nas nossas cabeças, nas nossas veias, nos nossos corações. Movemo-nos sempre em função do andebol, fomos para Espanha, voltámos a pensar neles, viemos à procura de estabilidade para que eles pudessem crescer, foram para o Colégio de Carvalhos, onde nós achávamos que eles podiam ter um bom equilíbrio, para que pudéssemos estar perto da família e eles aí já tinham muita vivência da modalidade".
Espanha, com passagens por Algeciras, uma época, em 2005/06, e depois mais cinco num então forte Ademar León, será sempre uma de várias marcas da família Costa. "Foi muito importante em todos os aspetos, deu-nos outra perspectiva. E pronto, depois há o meu regresso ao FC Porto, a minha saída de lá, a adolescência dos dois. O Covid foi um momento marcante, mas, acima de tudo, foi uma oportunidade. Se há família que saiu mais forte disso fomos nós. Deu-nos a oportunidade de trabalhar muito a nível individual. Se o Martim bem se lembra, e já estava naquela altura dos 15/16 anos, em meio ano aumentou 12 quilos, ele trabalhava de manhã à tarde e à noite. Montámos um ginásio em casa, depois tínhamos a chave do pavilhão, eu era coordenador do andebol do Colégio dos Carvalhos e tínhamos a oportunidade, clandestinamente, de trazer até mais atletas para fazermos ali jogos três contra três e isso fez a diferença. Quando todo o mundo estava parado, nós estávamos a trabalhar e isso foi bom, porque. quando voltámos à prática, eles estavam uns patamares acima de todos os outros", garante.
Kiko só tem três à frente para ser o melhor do Mundo
Na reportagem de 2020, Kiko dizia querer ser o melhor de mundo, enquanto Martim assegurava ter vontade de ser jogador profissional e, um dia, saltar para o estrangeiro. De lá para cá estão no Sporting e o objetivo do profissionalismo concretizado. "Esse está cumprido, faltam outros objetivos que tenho na minha cabeça, mas é passo a passo, como tem sido até agora, continuar a crescer como jogador e fazer as coisas devagarinho, porque as temos feito muito bem assim. Ainda há muita coisa para alcançar, tanto no Sporting, como a nível individual, mas este está a ser um projeto muito feliz e divertido de fazer. Têm sido cinco anos brutais aqui no Sporting, conhecemos pessoas incríveis, companheiros de equipa espetaculares, mas ainda há muitas coisas que quero atingir tanto aqui, como na Seleção e para isso tenho que continuar a trabalhar", reconhece o lateral-esquerdo.
"Ser o melhor jogador do mundo é um objetivo que mantenho firme. Quantos estão à minha frente? Ainda tenho de ultrapassar alguns... Melhores do que eu são o Martim, o Mathias Gidsel [dinamarquês do alemão Fuchse Berlim] e o Dika Mem [francês do Barcelona]", afirma. "Se eu não dissesse o meu irmão, levava em casa, mas um dia vou ser o melhor do mundo", ri-se Kiko.
Momentos no Sporting que não sairão da memória
"Sinto-me muito bem no Sporting. Obviamente que eu não sei o dia de amanhã e claro que gostava de experimentar alguma coisa fora do país, mas acho que não é o momento agora, nem penso nisso. Estou muito bem aqui, jogamos e ganhamos contra os melhores do mundo aqui no João Rocha, vamos fora e lutamos olhos nos olhos contra todas as equipas, estou no topo, estou a jogar numa das melhores equipas que existe e, como disse, tenho bastantes objetivos aqui no Sporting, um deles atingir a final four da Liga dos Campeões. Não sei se vai ser a este ano, sabemos da dificuldade que é consegui-lo, mas tenho todas as condições para continuar a crescer e para jogar ao mais alto nível", volta Martim, com a mãe, entre os filhos e o marido, atenta: "Realmente é um percurso espetacular, tem sido muito bonito. Quando viemos para o Sporting, não vou esconder, uma coisa que me custou imenso foi ter mudado de cidade, porque já tinha estado em Espanha e voltar outra vez a sair da minha casa não estava nos planos, mas agora vejo que isso e trabalhar com o pai foi determinante para o percurso deles. Têm sido, realmente, quatro anos e meio espetaculares. Temos vivido aqui momentos que nunca mais sairão da nossa memória e é disso que, um dia mais tarde, quando olharmos para trás, vamos ter muitas saudades". Ricardo não está menos vigilante. "Está a faltar um bocadinho de memória à Cândida relativamente aos primeiros jogos, em que ela via o pavilhão vazio ou via pouca gente, isto logo no início, e dizia assim: "o que é que eu estou aqui a fazer?". Acho que ela estava longe de imaginar o que já vivemos aqui". Resposta pronta: "Nunca imaginei que íamos viver o que vivemos aqui nestes quatro anos e meio. Sinceramente, não".

