
Créditos: ANTONIO COTRIM / EPA
Jorge Costa deixa um legado inesquecível no FC Porto. Um jogador temido mas respeitado por toda a comunidade do futebol. A morte convoca sempre elogios fáceis, mas no caso de Jorge Costa era simples perceber a empatia que foi criando com todos os que o rodeavam. Da Ervilha ao Dragão, nunca deixou ninguém indiferente.
Liderança, imponência, caráter, mística, amizade. Não faltam palavras para definir Jorge Costa, não só enquanto futebolista de eleição mas também como homem, marido e pai. Para o FC Porto, será sempre um dos eternos capitães, a quem coube a honra de levantar a segunda Liga dos Campeões ao lado do amigo Vítor Baía, quando em Gelsenkichen os dragões derrotaram o Mónaco e conquistaram a Europa. Foi um dos pontos altos de uma carreira vivida intensamente, com os melhores momentos a serem sentidos com a camisola do clube do coração, juntamente com a Taça UEFA e a Taça Intercontinental, bem como o título Mundial de sub-20 em Lisboa pela Seleção Nacional da categoria e os diversos troféus nacionais que tem no seu palmarés: oito campeonatos nacionais, cinco Taças de Portugal e cinco Supertaças Cândido de Oliveira.
Tudo começou no velhinho Campo da Ervilha, na Foz, onde deu os primeiros pontapés. Era avançado, jogava com o número 10 e num dos vários treinos contra equipas do FC Porto captou a atenção dos olheiros dos azuis e brancos, que corriam com o Leixões e Boavista pela sua contratação. Aceitou o desafio supremo e ainda júnior seguiu para o Campo da Constituição, onde rapidamente se tornou num central, fruto de uma compleição física que o destacava dos demais.
Muitos lhe vaticinavam um futuro risonho, mas chegar aos seniores não era para meninos, numa fase em que rodar era a ordem para a esmagadora maioria dos jovens saídos da formação. Foi emprestado ao Penafiel e ao Marítimo e recebeu ordem para voltar a casa para se assumir como líder ao longo de 10 épocas, onde foi um dos puros pentacampeões (ganhou os cinco títulos em campo). O trajeto foi, subitamente, interrompido quando Octávio Machado resolveu tirar-lhe a braçadeira após uma substituição mal digerida. Rumou ao Charlton, de Inglaterra, mas bastaram seis meses para regressar pela porta grande, não resistindo ao chamamento maior de voltar a vestir a camisola do FC Porto. José Mourinho já disse mais do que uma vez - ainda ontem o recordou - que o Bicho era mais do que o capitão. Arrumava o balneário para o treinador se dedicar apenas ao seu trabalho, depois do furacão abanar os companheiros em privado quando as coisas não estavam a correr bem. Por algum motivo o técnico nunca abdicou de um jogador que liderou o plantel em campo e fora dele nas conquistas históricas da Liga Europa e da Liga dos Campeões.
Mourinho deixou pesada herança, Jorge Costa ainda foi bastante ativo na turbulenta época seguinte, jogando e marcando no desempate por penáltis que deu ao clube a segunda Taça Intercontinental do seu historial. Chegou, entretanto, Co Adriaanse, que nunca lhe deu espaço e forçou-o a nova experiência no estrangeiro, no Standard Liège, onde terminou a carreira como quis (a jogar) mas não onde queria (no FC Porto).
À riquíssima carreira como futebolista, onde também conheceu momentos altos ao serviço da Seleção Nacional, seguiu-se um trajeto ainda mais duradouro como treinador. Passou, no total, por mais de duas dezenas de clubes, foi selecionador do Gabão e o último grande sucesso foi garantir a subida do Aves SAD à I Liga. Aí chegado, André Villas-Boas convidou-o para voltar ao Dragão, agora para desempenhar funções enquanto dirigente. Esteve sempre ao lado do presidente, desde a candidatura à eleição, vestindo de corpo e alma o novo fato que lhe estava preparado, como diretor do futebol profissional. Voz respeitada no balneário, senhor no trato e ídolo dos adeptos, Jorge Costa era a imagem da raça, da vontade e da mística do FC Porto, uma figura ímpar do clube, do futebol e do desporto nacional que deixa um legado inesquecível.

