
Começou no Paços de Ferreira e, desde aí, tem trabalhado com atletas de elite de várias modalidades. Vítor Hugo Teixeira garante que a alimentação é parte fundamental do sucesso desportivo. E alerta para as falsas "histórias" que circulam sobre leite e ovos
Na próxima quinta e sexta-feira, o Centro de Congressos da Alfândega do Porto vai acolher o XV Congresso de Nutrição e Alimentação, promovido pela Associação Portuguesa dos Nutricionistas. Vítor Hugo Teixeira, especialista em nutrição desportiva, vai ser um dos oradores.
Sobre o que vai falar?
Vou tentar explicar porque é que as calorias não são todas iguais. E que, por isso, é importante que os atletas escolham os alimentos mais adequados, quer para melhorarem a composição corporal, quer para aumentarem o rendimento desportivo. Esta questão origina outra: para emagrecer deve-se cortar nos hidratos de carbono ou na gordura?
Há atletas a a reduzirem nos hidratos de carbono e a adotarem uma dieta mais rica em gorduras?
Encontramos alguns casos. É, no entanto, mais frequente em atletas de recreação ou em pessoas sedentárias que querem emagrecer. Contudo, as dietas mais pobres em hidratos não são mais eficientes do que as pobres em gordura para emagrecer desde que as pessoas cumpram o plano.
Os atletas precisam de hidratos de carbono...
São fundamentais. Eles precisam de energia para puderem render a alta intensidade. Mesmo que precisem de emagrecer, não podem reduzir o consumo de hidratos de carbono. Devem é saber quais os melhores e o momento certo para os ingerir.
O plano alimentar deve mudar consoante a modalidade?
Sim, consoante falamos de modalidades de endurance, de potência, de combate ou intervaladas de alta intensidade. Um futebolista deve ter uma dieta diferente de um maratonista. E dois futebolistas um regime diferente entre si.
Porque se interessou pela nutrição no desporto?
Porque quando comecei a trabalhar não havia muita informação. O Luís Horta, antigo diretor da autoridade antidopagem, tinha um livro publicado e pouco mais. Senti a necessidade de aprofundar o tema e decidi estudar a alimentação e as práticas de suplementação dos atletas portugueses. Sabia que somos o único país que tem descrita a ingestão nutricional de árbitros de futebol?
Mas isso é um sinal de que estamos evoluídos, não é?
Estamos, mas só na fotografia...
Que conclusões tirou dessa investigação?
A maior parte dos atletas atinge as necessidades nutricionais, ainda que com algum défice de vitaminas. O problema está em não adaptarem ao tipo de treino. A nutrição complementa o treino. Um atleta que não come a seguir ao treino, é um atleta que não completou o treino.
Li que há atletas que ingerem leite depois do treino. É curioso, tendo em conta a diabolização de que o leite está a ser alvo atualmente..
Depois do treino é importante ingerir proteína e o leite é uma das opções. As proteínas lácteas, seja do leite ou da proteína do soro, são boas escolhas. Quem defende que o leite é um alimento mau, só leu a parte do estudo que corrobora a sua tese. Um dos argumentos usados é o de que o leite aumenta a insulina e o IGF-1 e, por isso, aumenta o risco de cancro. Mas, para serem coerentes, têm de dizer que a proteína do soro de leite e a caseína têm um efeito igual ao superior. Por exemplo, a associação entre o risco de alguns tipos de cancro, diabetes e doença cardiovascular e o consumo de ovos é muito maior do que a associação com o leite. E, no entanto, assistimos ao consumo desenfreado de ovos. Injustamente, os ovos foram objeto de restrição durante décadas por supostamente aumentarem o colesterol. Apesar disso já ter sido desmistificado, não podemos passar para a situação oposta. Inventam-se muitas histórias sobre os alimentos e isso faz com que as pessoas tenham um regime alimentar rígido e monótono.
Que peso tem a alimentação no rendimento desportivo?
É enorme. Um atleta pode competir sem treinar algumas semanas, mas não sem comer. Existem cada vez mais provas de que a alimentação optimizada influencia o treino.
Os clubes de futebol já se preocupam com a nutrição dos seus jogadores?
Sim, a maioria dos clubes já tem nutricionistas.
Falámos do leite após o treino de futebol. E antes? Uma banana?
A banana é aconselhável durante ou após desde que muito madura. Para antes, maçã ou pêra. Depois do treino é importante ingerir proteínas e hidratos de carbono, e pode ser leite e pão, desde que nas quantidades indicadas, batidos ou ovo.
SAIBA QUE
Nutrimento: esta é uma palavra que entra no vocábulo de Vítor Hugo Teixeira, licenciado em Ciências da Nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), onde leciona há largos anos. "Temos um vínculo emocional à comida, todos gostamos da comida da mãe e, quando estamos fora do país, costumamos sentir falta da nossa comida." Por isso é que, no caso da equipa de futebol com que trabalha, se preocupa que todos os jogadores tenham essa "sensação de conforto". A questão da religião e das alergias também exige atenção na hora de definir os menus para o plantel, pois há adaptações a fazer, explicou ainda o nutricionista, mestre em Controlo de Qualidade e doutorado em Nutrição Humana.
