"Joguei futebol quando era nova e eu não queria ser ninguém, não havia nenhuma referência"

Telma Monteiro
COP
Telma Monteiro e Margarida Silva refletem sobre mediatismo feminino no desporto
A ex-judoca olímpica Telma Monteiro e a atleta surdolímpica Margarida Silva refletiram esta quinta-feira sobre a menor visibilidade mediática das mulheres no desporto, em comparação com o reconhecimento dado aos homens na imprensa e redes sociais.
Para celebrar o Dia Internacional das Mulheres, no domingo, o Comité Olímpico de Portugal (COP) organizou um evento na sua sede, em Lisboa, onde apresentou um estudo e convidou as duas atletas para uma mesa-redonda sobre esse tema.
"Tive algumas experiências que me permitiram entender que as minhas vitórias não eram celebradas de forma tão efusiva, como se não fossem tão importantes. Acredito que isso influenciou na tentativa de ter patrocínios. Tinha conhecimento de contratos de atletas masculinos que não tinham melhores resultados do que eu e tinham ofertas melhores", exemplificou Telma Monteiro, na sua intervenção.
Medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio'2016, Telma Monteiro é a pessoa mais titulada do judo português, com também seis títulos europeus e quatro de vice-campeã mundial, entre outros, e realçou o trabalho "muito importante" que o futebol feminino tem desempenhado na promoção do mediatismo e visibilidade.
"Tem ganho espaço, mas ainda há um longo caminho a percorrer. O trabalho que foi feito no futebol feminino foi muito importante. Agora, as meninas querem ser a Kika Nazareth. Eu joguei futebol quando era nova e eu não queria ser ninguém, não havia nenhuma referência. Isso agora já acontece. Essa mudança pode acontecer, mas é preciso haver investimento e vontade", realçou Telma Monteiro, de 40 anos.

Na mesma mesa-redonda, Margarida Silva, que venceu as medalhas de ouro nos 800 e 5.000 metros e prata nos 1500 metros nos Jogos Surdolímpicos Tóquio'2025, vincou a "barreira" de, além de ser mulher, representar ainda o desporto adaptado.
"Até tive a visibilidade que não tivemos noutros Jogos Surdolímpicos, pois tivemos connosco representantes do Estado e foi algo que nunca aconteceu antes, mas é um evento que acontece de quatro em quatro anos e, depois, esquece-se. Então, fica muito aquém do que poderia ser a exploração da sua capacidade, até porque tem histórias que dão para vender e que poderiam ser utilizadas por marcas para promover as atletas", considerou a atleta, que quer ser um exemplo de inclusão.

Durante o evento, foi apresentado um estudo acerca da representação das atletas femininas no jornalismo desportivo, que o presidente do COP, Fernando Gomes, considerou que "aponta lacunas e identifica oportunidades concretas para alterar narrativas e práticas", de forma a poder agir com "maior foco e responsabilidade".
"As políticas que implementamos têm o único propósito de criar condições para que o talento floresça com justiça. Continuaremos a promover iniciativas, apoiar projetos e trabalhar com todos os parceiros para que as conclusões deste projeto não fiquem apenas no papel, mas que se revertam em resultados visíveis", frisou.
Também discursaram no evento a primeira secretária-geral mulher do COP, Diana Gomes, que apelou à afirmação do desporto como "um espaço que continuará a abrir caminho, a dar espaço ao mérito e que nenhuma mulher se sinta sozinha no lugar que pertence", e ainda o secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, que lembrou todas as medidas que efetuou rumo à igualdade de género e abordou um problema de semântica que coloca "barreiras" na cobertura mediática desportiva.
"Não consigo entender porque é que, quando falamos de modalidades, nós nunca referimos que é masculino, mas temos a necessidade de dizer que é feminino. São barreiras que estamos a colocar, em termos de semântica", indagou o governante.

