
Luís Conceição e Jorge Braz
Luís Conceição e Jorge Braz lembram a evolução e acreditam que seleção feminina de futsal vai conquistar um título em breve
O futsal nacional feminino viveu, em 2025, um momento inédito de exposição mediática, com a excelente participação da Seleção Nacional no primeiro Mundial sob a chancela da FIFA. Numa prova que se disputou nas Filipinas, as lusas só caíram na final, frente ao Brasil. "Quando esse jogo terminou, foi um misto de sensações. Orgulho, mas, ao mesmo tempo, frustração, porque chegámos a uma final e queríamos muito ter tocado no céu", refere a O JOGO o selecionador Luís Conceição, confessando que as jogadoras só tiveram noção do impacto da campanha quando chegaram a Portugal. "Foi aí que perceberam a dimensão do que alcançámos. Ficámos com a sensação de que chegámos a muita gente que não acompanha a modalidade", recorda.
O desempenho no Mundial foi o culminar de um trajeto que começou em 2011, quando foi reativada a seleção feminina, pelas mãos do atual selecionador masculino, Jorge Braz. "Na altura, ia disputar-se um primeiro torneio mundial, organizado por Espanha. Fomos lá bater a algumas portas e, ainda com o presidente Gilberto Madaíl, realçámos a importância de ter uma equipa feminina. Eu e o Zé Luís corremos o país todo, porque só havia campeonatos distritais, para organizar um grupo. Fizemos cinco dias de estágio na Quinta dos Lombos e foi interessante, porque chegámos à final, curiosamente também contra o Brasil", explica Braz.
Luís Conceição foi escolhido para selecionador em 2014, "numa altura em que só existia a Seleção A". "Começou a ser delineado um plano estratégico para se mexer com o futsal feminino a nível nacional", recorda. "Pegámos ali numa geração que tinha sido campeã olímpica da juventude e fomos acompanhando vários escalões. A partir daí, criámos seleções que vão dos sub-15 aos sub-19", aponta ainda o treinador nacional feminino, vincando a forma como as jogadoras olham agora para a modalidade: "As coisas cresceram muito e as jogadoras passaram a olhar para o futsal não só como um hobby, mas também como uma oportunidade de crescimento e de serem profissionais".
Nos masculinos, Portugal já conquistou dois títulos europeus e um mundial. Nos femininos, os títulos têm estado perto, como provam as duas finais europeias e, recentemente, o vice-campeonato mundial. Mas a sorte vai mudar, confia Jorge Braz. "Já estivemos em três finais e queremos continuar a lá chegar. Uma delas vai cair para o nosso lado", antecipa. Luís Conceição espera que a sorte mude já em 2027, no Europeu da Croácia. "A responsabilidade não mudou com o Mundial. As outras seleções já nos viam como uma potência. E a ambição de ganhar é sempre a mesma quando se representa o nosso país", sublinha o selecionador da equipa feminina.
"Vai bater Cristiano Ronaldo e Ricardinho"
No feminino, ainda não houve nenhuma jogadora a ser considerada a melhor do mundo, ao contrário do masculino, no qual Ricardinho arrecadou o galardão seis vezes e Pany Varela uma. Mas há o caso de Ana Catarina, guarda-redes que foi considerada a melhor na posição em quatro ocasiões. "Se ganhar este ano, é o quinto prémio. Se vencer mais duas vezes, vai bater o Cristiano Ronaldo e o Ricardinho", elogia Luís Conceição, recordando outra futsalista lusa que merecia o galardão máximo: "Ana Azevedo, mesmo com 39 anos, provou que é uma das melhores. Talvez tenha sido um pouco prejudicada a este nível, porque preferiu ficar sempre no clube da terra dela".
Do salão até aos títulos
Com mais de 40 mil praticantes, cerca de seis mil no feminino, o futsal é atualmente a modalidade de pavilhão mais popular em Portugal. No entanto, houve um longo caminho para atingir esse estatuto. "Muitos jovens não conhecem a nossa história, que começou no futebol de salão e de cinco até à unificação disto tudo", conta Jorge Braz.
Já depois de um título europeu conquistado em futebol de salão, em 1990, deu-se a unificação das duas vertentes, e posterior integração do futsal na Federação Portuguesa de Futebol. Os títulos europeus de 2018 e 2022 e o mundial em 2021 ajudaram a modalidade a crescer, além da aposta dos principais clubes nacional na modalidade, como Benfica e Sporting, que também já conquistaram títulos internacionais. "Era importante que houvesse um reconhecimento social deste desporto. Claro que o crescimento global no masculino também se refletiu no feminino, criando impacto na sociedade", realçou.
Jorge Braz lembra que "o número de praticantes teve um crescimento nos meses seguintes às conquistas no masculino" e acredita que o mesmo pode acontecer no feminino, depois do recente Mundial. Por sua vez, Luís Conceição enumera alguns fatores que atraem as raparigas para a modalidade. "É jogado num recinto fechado, o que ajuda no inverno. O espaço de jogo é reduzido, dá-lhes mais oportunidades de tocar na bola e marcar golos", comenta.
Há um tri para conquistar
A Seleção Nacional masculina prepara o próximo Europeu, que se realiza na Letónia, Lituânia e Eslovénia. Os lusos estão inseridos no Grupo F, com Itália, Hungria e Polónia. A estreia está marcada para dia 23 de janeiro, frente aos italianos. Portugal é o atual bicampeão, estatuto que, para Jorge Braz, traz "a mesma responsabilidade". "Queremos fazer sempre mais e melhor, e temos de pensar que não chega o que foi feito até aqui", atira o selecionador, alertando para os outros candidatos: "Há sempre a Espanha, e não nos podemos esquecer que a Ucrânia foi medalha de bronze no último Mundial. A Itália também tem um bom grupo e a França está a um nível fantástico".
Esta competição chega depois de um dececionante Campeonato do Mundo em 2024, no qual a equipa das quinas caiu nos oitavos de final: "Não tenho problemas em referir que este foi o pior resultado desportivo desde que estou nas seleções nacionais. Mas, se olharmos de outra maneira, e para aquilo que queremos fazer, o mau alerta-nos mais", sublinha Jorge Braz, lembrando que, no Europeu, "uma pequena distração ou um dia menos bom pode ser fatal".
