
Cardinal em entrevista
Pedro Granadeiro
ENTREVISTA, PARTE III - Cardinal, antigo futsalista, é um filho do Aleixo, onde cresceu cercado por vicissitudes adversas e dramas familiares. Rompeu todas as barreiras
Antigo pivô expõe a criança que se fez grande, que contrariou teses de um futuro delicado. Viu de perto horrores, mas libertou-se para ser um enorme campeão, conforme conta em entrevista a O JOGO.
Estamos perante um portista tão convicto que não escondeu a paixão jogando pelo Sporting...
-A paixão vem da barriga da minha mãe, uma família portista, de ir ao estádio das Antas com o meu pai para a arquibancada. Festejei com ele o pentacampeonato, celebrações nos Aliados. Ele também tinha sido jogador até aos juniores do FC Porto, jogou com o Oliveira, e passou pelo Marítimo. Através dele conheci o Gomes, que ficou meu padrinho afetivo. Ele e o Domingos foram os ídolos de criança. Depois o Jardel, o Deco, o Kostadinov, e toda essa malta que fez a mística do FC Porto: Baía, Jorge Costa, Paulinho Santos e João Pinto.
Apesar de todo esse amor vindo do berço, há aí uma infância carregada de adversidades.
-Os meus pais faleceram era eu muito novo, perdi a minha mãe com 12 e o meu pai com 18. Perdi outra referência, que era o meu irmão, em 2023, com 49 anos. Tive uma vida difícil, o meu irmão foi um segundo pai, e devo ainda mais à minha avó, que ficou comigo e cuidou de mim, quando os meus pais já estavam em caminhos errados. Morreram fruto da toxicodependência. Desde cedo fui obrigado a lidar com adversidades, sofri muito de pequeno, cresci revoltado, mas Deus iluminou-me por caminhos certos. Nasci num bairro problemático, no Aleixo, um centro de tráfico de droga no Porto. Sempre fui saudável e nunca bebi álcool. A minha avó pegou em mim no momento certo. Ainda tenho imagens surreais na minha cabeça, desde os 5 ou 6 anos, vi coisas que muita gente não vai acreditar, vi gente a morrer, outros a injetarem-se, vi facadas...
Além da avó, o futsal também representa um escape e um amparo?
- Começo no Miramar, com 11 ou 12 anos, os treinos eram no Garcia de Orta. Foi uma maneira de deixar de pensar noutras coisas, de estar menos tempo no bairro. Foi importante para mim, porque sem o futsal, não sei onde estaria. Deu para limpar a cabeça. Nunca deixei de ser feliz a brincar no bairro e tenho orgulho nas minhas origens, tenho pena que o Aleixo tenha sido demolido. Quando jogava fora e vinha de visita, passava sempre pelo bairro para jogar com os miúdos. Os pequenos já me viam como ídolo, porque jogava na Seleção e no Sporting. Eles percebiam que alguém que cresceu num bairro social tinha chegado lá! Nunca vou esquecer de onde vim, ficava feliz de os ver felizes. Penso na minha infância e nos amigos que também conseguiram construir um bom futuro.
Também que havia esse vínculo da família em cada jogo do Cardinal, fosse no Freixieiro ou Sporting.
-Cardinal começa por ser uma homenagem ao meu pai, sempre conhecido como Cardinal. Agora é o meu filho, um menino já na Dragon Force. Há uma relação familiar forte com a minha carreira, sempre tive os meus irmãos nos meus jogos, habituei-me a festejar com eles, a retribuir todo o carinho. Foram a finais à Luz, acompanharam jogos meus em Espanha.
Impulsos da paixão
Jogar no Sporting e estar na claque do FC Porto foi obra de poucos...
- Se fosse hoje, não teria ido. Vejo as coisas com outra maturidade. Não entendo que tenha sido um mau profissional, porque tive autorização do treinador. Marquei viagem, no dia que me preparo para viajar, o diretor avisa-me que o treinador deixou de dar autorização. Fiquei revoltado, ia faltar apenas a um treino. A situação piorou e rescindi contrato. Só voltei ao Sporting com Bruno de Carvalho.
Com a vitória em Dublin valeu a pena?
- Pelo FC Porto tudo vale a pena, estive em todas as finais europeias. Em Dublin não desfrutei como queria, porque tive acesso às notícias que circulavam. Consegui desfrutar a sério no final do jogo.
Que jogos do FC Porto não falhou, mesmo com essa carreira brilhante no futsal?
-Estive presente na final da UEFA com o Celtic, num momento histórico de adrenalina acima da média, com golo atrás de golo e um calor insuportável. Em Gelsenkirchen também... senti que íamos ganhar pela equipa que tínhamos. Mas mais marcante, mais que qualquer final, foi o do golo do Costinha em Old Trafford. Estava lá, adoentado, jogava pela Fundação Jorge Antunes, era o meu primeiro ano como profissional. Fui a todos os jogos fora nessa caminhada da Champions.
Algum outro momento irresistível, pois também foi visto na Luz...
- O golo do Kelvin foi outra loucura, talvez tenha sido esse o jogo da minha vida. Ser campeão na Luz, quando jogava no Sporting, era ano do Villas-Boas. Foi incrível! Foi antes de Dublin. Fui à Luz com os adereços do FC Porto, foi gravado e também me chamaram à atenção.
O cenário azul que o faria voltar
Contava com o arranque do futsal do FC Porto para dar lá uma perna?
-O maior sonho era ter jogado futsal no FC Porto. Sou sócio há 28 anos. Não se concretizou o projeto da equipa sénior, mas essa representação virá. Tantas vezes imaginava, sendo o profissional que era, aguerrido, cheio de raça, que dava tudo de mim no Sporting, como seria fazer isso no FC Porto!
Ainda ponderava jogar se decidissem avançar agora com séniores?
-Foi uma grande notícia para os amantes da modalidade e para os jovens da cidade, pela oportunidade de jogarem no clube do coração. Há muita gente de qualidade nos bairros sociais. Estar ligado ao FC Porto, amanhã, ou mais tarde, será sempre especial. Não posso dizer que perdi a esperança de jogar, porque se o FC Porto se inscreve, se me chamam, vou logo preparar-me. Estou bem fisicamente.
E imagina um FC Porto a chegar e a lutar com Sporting e Benfica?
-Precisam de investir, faz falta outro pavilhão. Juntar-se a um clube da 1.ª Divisão parece-me difícil, podem começar do zero ou comprar a licença de um Módicus, na 2.ª. E aí podem ambicionar subir logo. Entrando, tem de ser para ganhar. Não será fácil, visto que os melhores portugueses estão no Sporting e Benfica. Ter-se-ia que trabalhar bem as camadas jovens, trabalhar o potencial do jovem português.

