
Cardinal
Pedro Granadeiro
ENTREVISTA, PARTE I - Craque do futsal foi cinco vezes campeão no Sporting e bicampeão europeu. Jogando em Alvalade, Cardinal celebrou como adepto a Liga Europa em Dublin, com Villas-Boas. Um portista sem filtros. Uma vida feita de golos, depois uma infância cheia de dificuldades. Futsal foi amor jogado nos limites, como também é a sua causa aos dragões. Uma paixão de estádio e outra em casa, com quatro filhos.
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Numa primeira entrevista após uma decisão difícil, pivô admite o fim da carreira, entregue ao portismo de toda a vida. Foi um dos maiores do futsal nacional, juntando ainda personalidade irreverente e carisma. Indomável e um goleador por onde passou.
Aos 40 anos, como é a vida do Cardinal sem futsal, parado desde a saída do Corinthians. Já é uma despedida?
-Realmente, é! Quero viver mais para a família, acompanhar o crescimento dos meus filhos, já perdi muito dos mais velhos. Por muita paixão que tenha, chegou o fim. Recebi convites que mexeram comigo financeiramente, mas a prioridade é outra. Estou a falar do Médio Oriente, de França, Alemanha. Mas a família acima de tudo, é hora de deixar de ser egoísta.
O Brasil foi uma aposta muito sonhada?
-Foi uma experiência emocionante e incrível. Tinha o sonho de jogar no Brasil e fui o primeiro europeu a fazê-lo. Apaixonei-me pelo clube e adeptos. Nunca vi nada igual, mas vi também uma desorganização inacreditável. Podia ser a maior potência mundial. Foram sete meses e meia dúzia de jogos, fruto de muitas lesões. Estava com 38 anos, a passar por uma depressão após a morte do meu irmão. Pensei que ia ser melhor, e valeu pela oportunidade. Cheguei na hora errada, mas adorei São Paulo e fui ver alguns jogos de futebol do Corinthians.
Esta saída de cena está a ser bem processada?
-Fui para o Brasil cumprir contrato de dois anos e acabar a carreira, mas estava longe dos filhos e percebi que a minha filha sofria com a distância. Hoje, só sinto falta do futsal quando vejo os jogos, e até evito alguns. Quando vejo, fico convicto de que podia jogar mais uns anos a alto nível.
Portista de bancada com carreira titulada no futsal do Sporting. Só entra uma paixão em campo?
-O FC Porto é dono do meu coração, mas passei sete anos no Sporting, onde fui muito feliz e conquistei imensos títulos, sendo bicampeão europeu. Como é lógico, o FC Porto é paixão e quero que ganhe sempre, vou ao Dragão sempre. Estando no Sporting, tinha de guardar algum respeito, mas nunca fui de esconder o clubismo. Não sei se é certo ou errado, sempre fui transparente. Tirando a situação de Dublin, fui sempre profissional. Ainda hoje tenho adeptos do Sporting que me mandam mensagens. Fui bem tratado e dei a vida pelo clube.
E olhando a este jogo, é um adepto entusiasmado com este FC Porto?
-Sou apaixonado por esta equipa. A verdadeira palavra é essa. Todos formam um, não há vedetas. O ano passado não foi bom para nós e só tivemos um miúdo a sobressair, que foi o Mora. Agora não temos um a sobressair, toda a equipa o faz, isso resume uma grande temporada. Se me dissessem na época passada que agora a equipa ia estar nesta posição, não acreditaria. Estou muito feliz, a vontade de ir aos jogos é maior e conseguimos voltar com um sorriso. O clube e a cidade estão a andar juntos.
Cheira a vitória ou teme esta aproximação do Sporting?
-Será um jogo equilibrado. O Sporting joga bem e tem tido estrelinha. Acredito que o FC Porto vai ganhar com a ajuda dos fervorosos adeptos, o vulcão do Dragão. Nós seremos decisivos em três pontos cruciais.
Como analisa os homens da frente de cada equipa?
-As grandes equipas querem jogadores assim, que marquem. Suárez está a atravessar um grande momento, é um bom jogador, gosto muito dele. O Samu tem feito muitos golos e tem melhorado outras características, que não tinha. A equipa técnica fez um ótimo trabalho. Hoje joga de costas, segura melhor, assiste mais. Só espero que o Samu leve a melhor. Os centrais do FC Porto fazem a diferença, dão muita confiança. Acho que são a maior garantia. No Sporting assusta-me o Suárez, é matador. E assusta-me uma equipa que não desiste, luta até ao fim.

