
Tomás Händel defrontou o Braga na Lga Europa
Miguel Pereira
ENTREVISTA, PARTE V - Händel, em entrevista a O JOGO, diz que gostava de ter representado um dos grandes e acredita numa chamada à Seleção Nacional
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Dada a carreira e pelo que já demonstrou, não acha que o futebol português o devia ter valorizado mais?
-[Pausa] É uma pergunta um bocadinho complicada. Se isso não aconteceu é porque não tinha de acontecer. Esteve muito perto, mas não fico com remorsos disso, porque não depende de mim. Sei das minhas qualidades, do meu valor, o quanto estava pronto para qualquer que fosse o passo. Se gostava de ter tido uma oportunidade de jogar num dos grandes em Portugal? Sim, claro. Sendo português, tendo jogado no Vitória, seria o caminho natural. Mas as coisas não aconteceram, faz parte. Pode ser que aconteça algum dia. Sei o meu valor e que estou num sítio onde realmente me quiseram, o que é importante.
Tem o sonho de jogar a Champions e representar a Seleção. O que acha que lhe falta para ser convocado?
- Falta termos menos jogadores bons [risos]. Felizmente, temos a sorte de ter muita qualidade em todas as posições. Sinceramente, acho que já estive mais perto quando estava no Vitória. Sei que quando decidi vir para o Estrela Vermelha, fugi um bocadinho da visibilidade da Seleção no sentido do campeonato. Mas decidi arriscar pelas competições europeias e por ser um clube enorme. Tendo sucesso no clube e nas competições europeias, estarei mais perto de ser chamado. É esperar.
Mas há quem jogue na Arábia Saudita e é chamado. Não está confiante?
-Estou, claro. Não faria parte do meu espírito competitivo não ter na minha cabeça que isso pode acontecer. Acredito em tudo. Para mim não há limites.
"Tenho de ir para o banco..."
No que sente que já evoluiu?
-Sinto que sou um jogador, como se diz no futebol, mais "box-to-box". Aqui é preciso. Eles contrataram-me porque sabiam que eu podia fazer a diferença em alguns momentos do jogo, a nível ofensivo, principalmente, de transporte de bola, de passe, de intensidade. Mas quando vim e vi que estava no meio de jogadores tão bons, sabia que iria ter de melhorar e contribuir noutro aspeto do jogo. E o facto de termos tão bons jogadores faz com que nós não tenhamos lugar garantido. Já tive, e às vezes tenho, que ir para o banco e anteriormente tinha passado pouco por isso. Felizmente, porque eu quero jogar sempre e não gosto quando não jogo. Vai-me um bocadinho buscar a parte de sacrifício, trabalho. Mesmo quando não estamos a jogar, temos de fazer o mesmo trabalho, a mesma consistência.
Quais são os objetivos desta época? Recentemente marcou um golaço...
-Foi sorte [risos]. Acho que até foi o meu primeiro golo de livre, mas foi bonito. Primeiro, quero ser campeão. Claro que no Vitória podíamos lutar por campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga, mas é complicado, principalmente pelo campeonato é complicado. Aqui, o Estrela Vermelha luta para ganhar todos os títulos. Na Liga Europa, tivemos azar no sorteio, mas acho que se passarmos o Lille podemos fazer uma coisa muito especial.
Atento à saúde mental e ao Vitória
Mesmo à distância, Tomás Händel acompanhou a final da Taça da Liga de forma fervorosa. "Estávamos em estágio na Turquia e eram já duas da manhã, mas estava no quarto a ver o jogo, não conseguia dormir. Quando marcaram o penálti do Braga e vi o jogador a correr para o marcar, também o assobiei [risos]", partilhou. Outro aspeto a que o médio dá muita atenção é à saúde mental: "Sou calmo, mas por dentro penso em muitas coisas, mesmo a jogar. Já tive ajuda, a questão da saúde mental é muito importante. Considero-me calmo, mas o futebol traz-nos muita ansiedade, não sabemos o que pode acontecer. A saúde é um tema fulcral, há muitos jogadores que às tantas passam por questões inacreditáveis de ansiedade, pânico, várias coisas. Há muita gente que talvez pense que somos jogadores, temos é que aguentar tudo. Não tem nada que ver. Acho que uma pessoa é mais forte, quanto mais vulnerável for".
Sérvios tentam o português
Tomás Händel assume-se como uma pessoa bastante caseira, mas, quando sai à rua, é reconhecido pelos adeptos, que o acarinham e até tentam falar português. "Gosto muito de estar em casa, descansar, recuperar, mas quando tenho oportunidade de sair à rua aqui em Belgrado, ir comer fora ou passear um bocadinho, sim, reconhecem-me, falam comigo, dizem que gostam de mim. Não sei se depois, durante o jogo, na bancada, me insultam muito ou não, mas isso faz parte do futebol, já estou habituado [risos]. Mas sim, são muito simpáticos, tentam falar português comigo, mas não conseguem, que é muito difícil, mas é bom sentir esse carinho deles. Eu falar sérvio também é muito complicado. Sei dizer três ou quatro palavras, e uma ou outra coisa relacionada com o futebol, mas é muito complicado".

