Nuno Campos recorda FC Porto: "As coisas não estavam tão mal como as pintaram"

Nuno Campos
ENTREVISTA, PARTE II - Plantel desadequado marcou a passagem fugaz pelo Dragão como adjunto de Paulo Fonseca. Nuno Campos acredita que, olhando para trás, os adeptos dos azuis e brancos ilibam a equipa técnica pelo fracasso em 2013/14 e elogia a decisão do treinador principal em voltar ao Paços logo a seguir.
Com apenas 30 anos, logo a seguir a acabar a carreira de jogador por motivos físicos, Nuno Campos iniciou-se como adjunto de Paulo Fonseca nos juniores do Estrela d Amadora, em 2005/06. A parceria viria a durar até ao fim de 2020/21, após a saída da Roma.
Como surgiu a possibilidade de trabalhar com o Paulo Fonseca?
-Conhecemo-nos numa festa de aniversário de um amigo comum e o facto de partilharmos muitas ideias foi engraçado. O Jorge Jesus tinha sido nosso treinador e acabámos por ser muito influenciados pelas ideias dele, pela forma como treinava, a atenção aos detalhes, a visão coletiva do jogo, diferente do que se pensa como jogador.
Foram subindo patamares de forma natural até à época inacreditável no Paços e à chegada ao FC Porto, que acabou por não ser bem sucedida...
-O que conseguimos no Paços é algo inimaginável para qualquer pessoa ligada ao fenómeno. Diria mesmo quase impossível de voltar a acontecer. No FC Porto, o plantel, como foi assumido mais tarde por toda a gente, não era o ideal para lutar pelo título. E nós também não tínhamos a experiência suficiente para fazer muito melhor, é verdade. Mas, apesar de tudo, quando saímos estávamos a seis pontos do primeiro lugar e estávamos na Liga Europa e nas meias-finais das duas Taças, mesmo enfrentando um contexto muito difícil de crítica. As coisas não estavam tão mal como as pintaram, e hoje não tenho a mínima dúvida de que as pessoas olham e dizem: "os menos culpados foram eles".
Como se gere a parte mental ao regressar a um patamar "inferior" [Paços, em 2014/15] depois de ter estado no topo?
-Foi uma decisão brilhante e o mérito é todo do Paulo. Eu estava mais renitente. Permitiu-nos voltar a respirar, recuperar a serenidade até para tomar decisões, e com isso ganhar outra vez embalagem, porque o conhecimento estava lá todo.
Ganharam depois a Taça no Braga, conquistaram sete títulos em nove possíveis no Shakhtar, vencendo Nápoles e Manchester City na Liga dos Campeões, e chegaram às meias-finais da Liga Europa na Roma. Porque se separaram depois?
-Quando saímos da Roma, ficámos um período fora do futebol e eu tive uma série de abordagens e pressões para ser treinador principal. Acabei por aceitar, porque seria natural aceitar um dia. Não era uma ambição pessoal, surgiu de forma natural. O Paulo apoiou, claro, porque é quase como um irmão um pouco mais velho e vai sempre apoiar qualquer decisão que eu tome.
Tondela foi o maior desafio
Objetivo da permanência não foi alcançado, apesar do inédito apuramento para a final da Taça de Portugal.
Na época de 2021/22, Nuno Campos estreou-se como treinador principal no Santa Clara, que se apurou para as meias-finais da Taça da Liga após bater o FC Porto, mas de onde saiu ao fim de apenas nove jogos. Nessa mesma temporada, levaria o Tondela à sua primeira presença na final da Taça de Portugal, ainda que tenha falhado o objetivo da permanência.
"No Santa Clara tinha uma conexão muito grande com o João Ferreira, diretor desportivo, que sai antes de mim. Fiquei desamparado e senti que não devia continuar, porque discordava de muita coisa com quem ficou. O Tondela foi o projeto mais difícil que já tive, porque tinha pouco tempo para conseguir os objetivos: consegui um, e a média de pontos que fiz dava para a permanência, se tivesse chegado mais cedo", salienta.
México ficou no coração
"Campeonato supercompetitivo com adeptos fantásticos. Quero voltar como treinador principal", promete Nuno Campos.
Em dezembro de 2023, depois de ano e meio afastado do futebol - o que fez a seguir a deixar o comando técnico do Tondela - Nuno Campos surpreendeu ao voltar às funções de adjunto, juntando-se ao treinador Renato Paiva à frente da equipa mexicana do Toluca. "Nesse período estive à espera que abrisse o curso de treinador de IV nível e aceitei o convite que me foi feito, por dois fatores: a relação excelente que tinha com o Renato, bem como o facto de me dar autonomia completa como o Paulo dava, e a vontade de trabalhar noutro continente", explica o técnico, que só tem coisas boas a dizer da experiência de um ano: "É um campeonato supercompetitivo, com seis ou sete equipas que podem ser campeãs, e com adeptos fantásticos. Quero voltar como treinador principal."
Flamengo tem outra dimensão
A passagem pelos Sub-20 do Flamengo, após convite do diretor desportivo José Boto, com quem tinha trabalhado no Shakhtar, durou pouco tempo, devido a motivos familiares, mas deixou marca em Nuno Campos. "É um clube gigante, num país onde os adeptos têm uma paixão espetacular pelo seu clube, respiram e vivem futebol 24 horas por dia. O Flamengo tem 40 milhões de adeptos, muitas vezes percebia que tinha mais pessoas a conhecerem-me do que se treinasse alguns clubes portugueses na I Liga. Isso também marca", frisa.
