Jogar, combater e morrer na Guerra do Ultramar

Jogar, combater e morrer na Guerra do Ultramar
Filipe Alexandre Dias

DESPORTO EM TEMPO DE GUERRA - O JOGO relata a passagem pela Guerra do Ultramar de alguns desportistas da elite nacional. Histórias onde entram Lemos, Seninho, Chico Gordo, Quim e Ramiro Pinheiro

O conflito colonial arrastou goleadores de grandes, heróis de clássicos, futuros craques, promessas que ficaram por cumprir e mais ainda. Quase todos trouxeram as suas feridas na alma. E houve um caso trágico, mesmo depois do cessar-fogo em Angola: um capitão, engenheiro, andebolista de elite encontrou a morte.

António Lobo Antunes dizia que na Baixa do Cassanje, onde a Guerra do Ultramar matava mesmo, quando havia futebol a ressoar roufenho por rádios no mato, não havia combate. Mas havia... Um pelotão português foi emboscado em Angola enquanto ouvia o relato de um Benfica-FC Porto. Seis soldados nunca mais escutariam nada. Foram abatidos e o que restou do pelotão teve de ser salvo por uma patrulha paraquedista.

Na Guiné-Bissau, onde os combates assumiam maior ferocidade pela facilidade com que as tropas do PAIGC entravam e saíam do território, um furriel foi encontrado abatido após afastar-se dos seus homens - isolara-se para ler um exemplar do jornal "Sporting". Excluindo casos de fatalidade, o futebol, as novas sobre desporto, eram um escape para acalmar o moral das tropas. O futebol, sobretudo, entrava pela guerra ultramarina, mas o conflito armado que Portugal alimentou a três frentes no estertor do Estado Novo (1961-1974), entrou também pelo futebol e não só, roubando, abreviando carreiras e, num caso relacionado com o andebol, levando mesmo a vida de um praticante bem conhecido ao tempo.

A luta em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau deixou uma ferida nunca verdadeiramente fechada na vida nacional. Morreram quase 9 mil soldados das forças armadas portuguesas e registaram-se 120 mil a 140 mil casos de stresse pós-traumático. E não, os desportistas, mesmo os que já andavam pelos arredores do primeiro plano, não passaram ao lado do horror. Mas nem tudo foi sangue. Alguns até em África jogaram e começaram ali por saber o que é ser campeão.

O JOGO lembra alguns exemplos de desportistas apanhados pela guerra.

O "trio-tropa" do FC Porto

No FC Porto, pelos alvores dos anos 1970, três angolanos estavam prestes a despir a camisola azul e branca para vestirem o camuflado no regresso ao seu continente de nascimento. Um deles era parente próximo do golo.

O rapaz moreno de sobrancelha carregada que aterrou em Lisboa em 1974 vinha confuso. Um taxista levou-lhe 2.500 escudos para o transportar até ao Porto, onde andou depois em sobressalto, com uma G3 no banco de trás quando o COPCON exercia controlos nas grandes cidades. O soldado prestes a deixar de o ser nunca mais atingiria a fama que levara consigo no regresso indesejado a África. Mais do que titular, Lemos já era um herói do FC Porto depois de aplicar nada menos do que um "poker" a um Benfica então inexpugnável. Os 4-0 de 1971 até incomodaram o pai do atacante. "Sacana do miúdo foi um descaradão. Lá em Angola, ele até chorava quando o Benfica perdia", dizia o pai Lemos.

A façanha imortalizou o dianteiro icónico dos dragões, mas nem isso o livrou de uma experiência que lhe deixou marcas profundas na alma, segundo o próprio reconhece. Sem facilidades por culpa de um comandante com quem se travara de razões e que o colocara no seu livrinho negro, Lemos amargou 15 meses na Guiné-Bissau. Conheceu o mato e os arredores da morte.

O FC Porto ainda atenuou o triste fado de Lemos, intercedendo junto do Ministério do Ultramar. O avançado foi deslocado para Bissau e poupado ao matagal onde a guerrilha estalava. Aproveitou para recuperar a forma a jogar na UDIB, a União Desportiva Internacional de Bissau. Regressou alterado com a experiência, não chegaria a integrar o FC Porto revolucionário de Pedroto e ficou com os inesquecíveis 4-0 como único título de uma carreira que a guerra feriu.

Nascidos em Angola e para lá reenviados, Seninho e Chico Gordo surgiram na pele de dragões na viragem dos anos 1960 para 1970. Seninho foi quem mais vingou. Nascido em Sá da Bandeira (atual Lubango), fez uma carreira lustrosa de azul e branco e, depois, na América. Mas África meteu-se pelo meio.

Dois anos e 59 dias. Foi este o tempo de Seninho na guerra em Angola. Era enfermeiro. Passou meses a fio isolado numa zona quente, perto da fronteira com a Zâmbia. Sobreviveu e durante a sua passagem pela província do Moxico, no Luso (hoje Luena), encontrou um pedaço de paz, ao jogar pelo FC Moxico. Manteve aí a forma, lançou raides bem mais salubres pela extrema-direita e foi campeão angolano em 1973 - o seu primeiro título à séria no futebol, tal a marginalidade dos azuis e brancos na metrópole até meados dos anos 1970. Depois, o resto foi história. Arsénio Rodrigues Jardim, para sempre o Seninho, foi figura grande dos dragões campeões em 1977/78, alinhou ao lado da "crème de la crème" no New York Cosmos com astros como Beckenbauer, Rivelino e Carlos Alberto e é gente grande do nosso futebol.

Destino semelhante e ao mesmo tempo diverso teve Bernardo Francisco da Silva, que respondia por Chico Gordo como nome de guerra. Despontou ao lado de Seninho, ao chegar de Angola para se incorporar nas camadas jovens portistas. Tal como o companheiro azul e branco, foi mobilizado para Angola quando o FC Porto já o cedera ao Tirsense.

Ao lado de Seninho, Chico Gordo conquistou o título de campeão angolano em 1972/73 pelo FC Moxico, mas o regresso a Portugal, em 1974, reservou-lhe voos mais baixos. O avançado ingressou no Lusitânia de Lourosa e até teve uma passagem lustrosa pelo Braga, a que se seguiram duas épocas no Vitória de Setúbal e o final no Beira-Mar, em 1982/83. Chico Gordo fixou-se no concelho do Seixal, na Cruz de Pau, e faleceu tragicamente num acidente de trabalho a 22 de novembro de 2000.

O Cruyff foi de Luanda antes de ser de Marvila

Os anos 1970 foram ricos em folclore futebolístico. Foi tempo de desafio, de jogadores-malandros apanhados numa mudança súbita de costumes trazida pela liberdade. Foram os últimos anos de ouro da rádio, que alimentava o imaginário numa fase em que futebol na televisão era hábito reservado para o futuro. Um dos jogadores-ícone que nunca chegou ao primeiro plano foi Quim Monteiro, ou antes, para quem se lembra, o Cruyff de Marvila, seguramente o mais famoso jogador do Oriental na última passagem pelo primeiro escalão do tradicional clube lisboeta. Veloz, hábil e canhotíssimo, o barreirense arrancou a fama no pelado do Carlos Salema.

Produto da CUF, tinha passado depois para a Académica, onde despontavam figuras como Quinito e o malogrado Néne. Mas África, Angola, o serviço militar, a ameaça constante da guerra, mesmo quando combatida à distância, foram um adversário para o qual nem o pé esquerdo mágico de Quim encontrou finta antes de encontrar notoriedade a oriente da capital.

Apesar da mobilização, o dianteiro passou duas épocas felizes de verde e branco luandino, onde antes passara uma figura ilustre do Sporting e da Académica de Coimbra: Oliveira Duarte. Pelo Sporting de Luanda, Quim e a sua canhota ganharam fama - eram regulares as vitórias com que castigava nos Coqueiros o Benfica local. Os dérbis coloniais e outros desafios duraram até 1972. A passagem militar por África acabou por não prejudicar o trajeto desportivo de Quim, que em 1972 encontrou-se com o destino a subir a Azinhaga dos Alfinetes, até ao pelado ruço do Carlos Salema.

Ali, o extremo-esquerdo foi a figura-maior de uma equipa grená que voltou à I Divisão em 1973. O rosto cortado a canivete dava-lhe parecenças com o craque holandês Johan Cruyff e o barreirense passou a ser conhecido pelo Cruyff de Marvila. O tribunal de bancada do COL, composto por gente mascarrada, operária, puramente bairrista, não admitia faltas sobre o seu adorado ponta canhoto e o clima rapidamente se tornava hostil - jogar em casa do Oriental podia ser um suplício para os adversários. Após três épocas que o celebrizaram na zona ribeirinha de Lisboa, Quim passou para o Estoril e terminou no Sacavenense, onde pendurou as chuteiras em 1984. África é-lhe hoje a memória de uma vida cheia.

Um capitão campeão assassinado em Luanda

Ramiro Pinheiro era um homem admirado. Engenheiro civil e andebolista da elite nacional de então, era figura destacada do andebol do Sporting que dominava o panorama nacional dos anos 1960/70. Foi o tempo dos "Sete Magníficos", que venceram sete títulos nacionais em oito anos. Jogava ao lado do irmão mais novo Alfredo Pinheiro, também ele praticante de renome, e tinha ainda como companheiros nomes incontornáveis do desporto nacional, como Bessone Basto e Manuel Brito.

Assistente no Instituto Superior Técnico de Lisboa, foi mobilizado para Angola. Era capitão miliciano e continuava de leão ao peito, jogando pelo Sporting de Luanda, mas os tempos eram de fúria na capital angolana. Após o cessar-fogo entre Portugal e as forças de libertação, foi assinado o Acordo de Alvor e formou-se um governo de transição, que integrou o exército português e os movimentos independentistas MPLA, UNITA e FNLA. Contudo, o rancor caminhava pelas ruas de Luanda. Era palpável a tensão entre a população branca, que tentava manter-se num território que tinha como seu, e a franja negra consumida por ressentimento pós-colonial. A situação tornava-se rapidamente explosiva ao mínimo riscar de fósforo.

Numa segunda-feira, 3 de fevereiro de 1975, junto ao Mercado de São Paulo, um motorista branco atropelou uma criança negra. O acidente resvalou para uma discussão acesa, mostraram-se armas e o motorista, apavorado, barricou-se num edifício, enquanto cá fora se formava um pelotão de linchamento.

Dois dias antes, Ramiro Pinheiro tinha ajudado o Sporting de Luanda a vencer o FC Luanda por 17-15. Conhecido pelo seu temperamento dialogante e conciliador, foi chamado para acalmar os ânimos, juntamente com um alferes português e militares da FNLA. Chegado ao local, pediu calma a um grupo de jovens de veia revoltosa, supostamente ligado ao MPLA. O bando abriu fogo. Morreram quatro civis, dois militares portugueses e um sargento da FNLA. Entre os mortos, estava Ramiro Pinheiro. Tinha 29 anos, uma esposa e dois filhos, que consigo estavam em Angola.

O desporto português também ficou com as suas feridas de África.