
Tiago Zorro
Tiago Zorro recebeu "convite inesperado" para suceder a João Nuno e a etapa inicial teve "dores de crescimento"
Na véspera de Natal, O JOGO foi ao encontro de Tiago Zorro, treinador do Belenenses, equipa com mais pontos na Liga 3 (29) e líder da Série B. O técnico, de 44 anos, sucedeu, no final de setembro, a João Nuno, que seguiu para o Estrela da Amadora, e passa a quadra festiva com uma almofada de 11 pontos de avanço sobre o Caldas, quinto classificado e primeiro emblema abaixo dos quatro que passam à fase de subida. São já cinco jogos sem perder, com quatro triunfos pelo meio, e um treinador que reconhece estar animado, mas nunca "relaxado".
O Belenenses vai passar o Natal com 11 pontos de avanço para o quinto classificado. Será uma quadra relativamente tranquila?
-É um Natal tranquilo, dentro daquilo que era o objetivo para a primeira fase. Apesar de tranquilos, não estamos em situação de relaxamento. Porém, acreditamos que fizemos bem o nosso trabalho até à data.
Na época passada, o clube fez 27 pontos na primeira fase e, agora, em 14 jogos, já tem 29. É uma almofada pontual que sugere bons indícios de apuramento para a etapa de promoção...
-Sabemos que, acima de tudo, são duas fases distintas. Na fase final começa um campeonato novo, e é difícil comparar 2024/25 com 2025/26, porque os contextos não são iguais. Não entro por aí. Não olhamos para o passado, mas sim para o futuro e para uma pontuação muito boa, num campeonato competitivo.
São cinco jogos sem perder, com quatro vitórias pelo meio. A equipa passa o ano na melhor fase desde a sua chegada?
-Penso que sim, que é a nossa melhor fase. Levou algum tempo a implementar as nossas ideias, esta equipa técnica entrou à sexta jornada e tudo leva o seu tempo. Hoje, olhamos para a equipa e identificamo-nos muito mais com as nossas ideias. Todavia, também sabemos que as coisas mudam semana após semana.
O João Nuno foi quem iniciou a temporada no Belenenses e, quando este saiu para o Estrela da Amadora, o Tiago recebeu o convite. Se em setembro lhe dissessem que ia passar a quadra festiva como treinador do Belenenses, e líder da Série B, acreditaria?
-Acharia pouco provável, e não estava à espera de receber um convite tão cedo. Voltei do Brasil no final de julho, quando deixei o Ferroviário, e em setembro regressámos ao trabalho no Belenenses. Era praticamente impossível recusar o convite do Belenenses, que tentámos agarrar com unhas e dentes.
Foi, então, fácil chegar a acordo.
-Foi fácil, sim. Temos um desejo bastante grande de ver o clube nos patamares profissionais, foi muito fácil, como já tinha referido, e foi, também, um desejo mútuo que isto acontecesse.
Nos primeiros quatro jogos para a Liga 3, perdeu dois e ganhou dois. Entretanto, não perdeu mais. Foram dores de crescimento iniciais?
-Queremos acreditar que sim. Temos uma ideia diferente, que nem é melhor nem pior que a do João Nuno, somente é diferente. Os jogadores estavam com o João há muito tempo, sentimos que existiam ligações fortes de uma época de quase sucesso. A temporada atual tinha arrancado bem e o grupo sentiu a saída do líder. Os primeiros jogos foram difíceis, embora pudessem ter sido diferentes para quem os viu. A segunda derrota [U. Santarém] foi um mau jogo e não estivemos ao nosso nível.
Disputou a fase de subida do Campeonato de Portugal e da Liga 3 quando estava no Atlético. Que trabalho é preciso fazer quando termina uma fase regular e se passa para a etapa de promoção?
-Na segunda fase são as melhores equipas que se defrontam e há confrontos diretos todas as semanas. É verdade que os números dizem que na zona sul as equipas que têm uma melhor primeira fase, nem sempre conseguem corresponder na segunda, mas vamos tentar mudar isso, se atingirmos esse objetivo.
O Belenenses perdeu a subida na época passada, no play-off diante do Paços de Ferreira. Sente que esse "morrer na praia" ainda possa estar marcado em jogadores que transitaram de 2024/25?
-São coisas que não saem da cabeça e cabe-nos tentar mudar isso. O grupo tem revelado ser comprometido e responsável. Preferimos agarrar-nos a isso e ao que têm feito ao longo deste ano.
Aos 44 anos, voltou à Liga 3. Tem no currículo um Campeonato de Portugal e duas subidas de divisão. Acha que um desafio nos patamares profissionais surgirá naturalmente?
-Se vai surgir naturalmente, não sei. O que sei é que estou focado no Belenenses e no grande objetivo da época que todos desejam, que é a subida. Obviamente já tenho algum trabalho feito, mas não é isso que me tira o sono. Estou num grande clube.
Que mensagem de Natal quer deixar ao universo belenense?
-Desejo um feliz Natal a toda a família azul. Agradeço todo o apoio que me têm dado ao longo destes meses e espero que em janeiro voltemos com o mesmo compromisso, dedicação e atitude. Que 2026 seja o ano que todos desejamos.
Na Série D do Brasil em nível alto e com estádios cheios
A passagem de ano de 2025 trouxe para Tiago Zorro um desafio diferente. Recebeu o convite para treinar o Ferroviário, da Série D do Brasil, e em janeiro de 2025 estreava-se no primeiro clube que orientou fora de Portugal. "Em julho rompi o tendão de Aquiles a tirar o curso UEFA. Estive três ou quatr meses em recuperação e, no final deste período, recebi o convite do Ferroviário, através de um grupo de portugueses que acabaram por adquirir o clube em novembro deste ano", conta. Questionado sobre as diferenças e semelhanças entre a Série D do Brasil e o Campeonato de Portugal (ambos são o quarto escalão de cada país), Zorro pende para os canarinhos. "O nível no Brasil é superior. Falamos de jogadores que podiam jogar na I e II Ligas. Financeiramente, também é diferente e os jogadores da Série D não viriam para a Liga 3 ou CdP. Além disso, jogámos para estádios cheios, alguns com 35 mil pessoas".

