"O povo ficou indignado e o árbitro só pôde sair fardado como polícia"

António Valença, número 8 na imagem
António Valença, uma figura histórica do Fafe, recorda jogo frente ao Sporting e um penálti da polémica
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António Valença, de 76 anos, desarma qualquer outra autoridade que possa falar pelo Fafe. Iniciou-se aos 14 anos no clube, jogou pelos seniores, dos 17 aos 35, foi capitão durante épocas largas, inclusive ostentando a braçadeira nas duas meias-finais que o clube minhoto disputou em 76/77 e 78/79, com desfeita do FC Porto da primeira vez e do Sporting na segunda. Assumiu o leme pouco depois, treinou em diferentes fases, foi diretor, sendo ainda um quadro diretivo do clube. Fora do Fafe apenas a meninice e um breve hiato em que foi adjunto de Humberto Coelho no Braga e no Salgueiros.
Falar com Valença, o homem que treinou Rui Costa nos justiceiros, é um bálsamo para se puxar a história de trás para a frente, de fio a pavio, abraçar a identidade e paixão de uma terra que nunca foi fácil para ninguém. Esta época, tem sido solo de pesadelos para gigantes que caíram nas malhas de uma divina justiça: Moreirense, Arouca e Braga. Se a eliminatória com o FC Porto não teve história, com derrota nas Antas em 77, a eliminatória com o Sporting ainda faz correr tinta, elevar a indignação e uma revolta que não se cala, mesmo à distância de 47 anos. Os leões passaram em Fafe, mas apenas no prolongamento com um golo de penálti de Jordão. Um lance que foi apelidado na Imprensa como roubo do século, tendo o juiz de Coimbra, Santos Luís, vislumbrando uma falta de Costeado sobre Zandonaide que motivou longa discussão, transtornando as hostes locais até um final abrupto.
Com Fafe ninguém Fanfe, o relato de António Valença é uma marcha-atrás imperial de detalhes. "Perdemos ingloriamente para o Sporting de Manuel Fernandes e Jordão. Um penálti escandaloso, num salto entre Costeado e Zandonaide, levou-nos à derrota, quando já merecíamos o prémio de ir a Alvalade ao desempate. A equipa bateu-se bem, discutiu o jogo. Saímos de rastos com o que aconteceu. Esse tipo de Coimbra foi muito habilidoso, resolveu armar barraca. Foi uma coisa tão falada que ele desistiu de apitar", lembra, ilustrando o clima de alta tensão que se instalou. "O povo ficou indignado, ele portou-se muito mal, ninguém entendeu a decisão, o jogo parou vários minutos, porque ninguém aceitava aquilo. Com o alvoroço instalado, ele não tinha forma de sair do estádio, a única solução foi sair fardado como polícia, ele e os auxiliares. O clube emprestou kispos aos homens da GNR. O Fafe era dos clubes que metia mais gente no estádio. Gente apaixonada e que vivia muito clube, podiam aparecer sete mil pessoas." E sobre a fama do arreganho bairrista da terra, que dita expressão popular "Justiça de Fafe", Valença é perentório. "Somos acolhedores e tratamos de receber bem. Mas se tentam passar por cima de nós, a coisa fica feia", avisa.

