"A família é bracarense e o meu pai é ferrenho, mas estava a torcer por mim"

Fafe eliminou o Braga nos "quartos" da Taça de Portugal
Lusa
Uma justiça que se cruza com um sonho, numa cidade que ferve por mais. João Oliveira, jogador do Fafe, foi visado por mensagens de vitorianos e bracarenses
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Provara a pele de herói contra o Arouca e repetiu contra o Braga. Absorveu o extraordinário momento coletivo, num heroísmo que conduziu o Fafe, da Liga 3, para um cenário de meias-finais da Taça de Portugal, afastando uma equipa com fortes pretensões na prova e dona de três troféus.
João Oliveira é um nome especial deste elenco, tendo deixado pelo caminho o conjunto da sua cidade e onde se formou como jogador. De sentimentos ao rubro pelo que foi vivido e pelo que ainda pode estar reservado, o médio, que acabou de cabeça ligada, processa o feito como "um dia inesquecível e importante para o clube". "Tivemos a crença que isto podia acontecer, porque já tínhamos tido jogos complicados com Arouca e Moreirense e tínhamos passado. Era possível, juntou-se a crença e uma estratégia bem montada pelo nosso técnico", elogiou João Oliveira, que já conhece a faceta de ser semifinalista numa equipa sensação da competição. Também está por dentro das dificuldades do formato a duas mãos, quando caiu por terra o sonho do Académico de Viseu, diante do FC Porto. "É a segunda vez que chego a esta fase, conheço a realidade. Sentimos a força das bancadas, que também já vinha de outros jogos. Estavam completamente lotadas, foi algo muito afirmativo para nós, que galvanizou o nosso desempenho e levou ao resultado final. Em cada lance, em cada duelo, vinha esse apoio. O fator casa foi determinante; aqui, as pessoas acreditam que o David consegue vergar o Golias", explicou o médio, abordando a eliminação do Braga enquanto filho da terra e do próprio clube. "Não posso dizer que afastei o clube do coração. A família é toda bracarense e o meu pai é ferrenho, mas estava a torcer por mim. Para ele foram só alegrias neste jogo, deu-me logo os parabéns. Eu gosto do Braga, mas nunca fui doente, apenas acompanho e torço por bons resultados", relatou o médio, brindado, naturalmente, com mensagens de amigos da cidade dos Arcebispos. "Também houve mensagens de outros que são do Vitória e que tiveram felicidade a dobrar. Mas, sim, uma boa fatia mandou mensagens mais tristes, porque viram o seu Braga cair. Sempre em tom de brincadeira, lá diziam "o que fizeste ao meu Braga"", conta.
Indiferente a ruídos, presságios ou rescaldos mais individuais, João Oliveira vibra com a exaltação de um todo, de uma cidade aquecida subitamente e revigorada no seu orgulho. "Jogos especiais, para mim, têm sempre o sentido coletivo. Este foi importante para a história do Fafe, para a cidade, para o nosso grupo. Já tinha sentido esse peso em Viseu", sustentou João Oliveira, de 34 anos, estudante de Ciências do Desporto. Com os jogadores contrários prostrados no fracasso, acalmou o ímpeto de um desejo. "Respeitei ao máximo o momento e azia do Braga. Não sei se alguém levou camisolas. Eu iria privilegiar a do João Moutinho, pela carreira e pela posição similar à minha. Admiro muito a sua postura e liderança", admitiu, também marcado por outro vulto dos campos, que trocou a magia com a bola por uma singular presença diretiva: Derlei. "É próximo, está diariamente connosco. Só posso dizer coisas boas dele e de todos, que nunca faltaram com nada. Percebem que o futebol é de altos e baixos, que é preciso montar algo estruturado para se conseguirem resultados. Há essa calma e um voto de confiança nos jogadores. Estou muito satisfeito a jogar por estas pessoas", atestou, validando o impacto do incentivo acenado aos atletas, em caso de proeza. "É sempre importante, não sabemos o montante, mas o incentivo monetário é um fator motivacional associado ao principal, que é o jogo em si. Fomos informados de um prémio mais avultado pelo grau de dificuldade."

Técnico será caso sério
Dono de visão muito própria, João Oliveira enaltece o jogo feito, do guião à execução prática. "Sabíamos do momento do Braga, que tinha perdido uma final para o rival. Nós temos qualidade acima do nosso escalão, individual e coletiva. Teríamos de ter paciência a defender no jogo de posse do Braga e provocar máximas dificuldades com a bola, aproveitando o apoio dos adeptos para os deixarmos mais retraídos. Fomos crescendo e ganhando confiança. Seguir em frente não podia passar só pela parte sem bola. Tivemos de arriscar e jogar o que sabemos", louvou o médio, pondo foco no jovem técnico Mário Ferreira. "Tem muito mérito. Desde que chegou tem um discurso assertivo. Define muito bem as estratégias. Vai ser um caso sério em Portugal, ou até no mundo. Há lideranças que passam bem sem gritar, mantém a postura e chega aos jogadores", tributou, garantindo não ter sido preciso muito para "conquistar o grupo". "Os resultados ajudam, mas está à vista que pode fazer excelente carreira. Pelos treinadores que tive, falo com essa experiência. O plano de jogo reflete-se no próprio jogo, sabe gerir toda a gente", enalteceu, afastando qualquer contenção da idade (31 anos) perante jogadores mais velhos. "Ele sabe estar, se tivesse a postura de ser mais novo e colocar os mais velhos à vontade, perdia um pouco da liderança; ele comunica bem e tenta saber aquilo que cada um acha. Ouve-nos, pergunta muitas coisas e o trato é cordial, sem demasiada confiança", juntou.
"História ainda pode ser épica"
João Oliveira preferia o Torreense antes de saber o que ditaria o sorteio. "Dá para sonhar, o pessoal ficou confiante, alguns eufóricos. Todos acham que pode ser possível ir ao Jamor e escrever uma história ainda mais bonita, torná-la épica!", afiançou, intratável na receita para novo sucesso. "Recai algum favoritismo para eles, que fizeram orçamento para subir à I Liga. Têm bons argumentos, mas temos os nossos. Vamos respeitar a estratégia e dar tudo uns pelos outros", sustentou, conhecedor deste tipo de decisão. "Com os grandes era algo impossível, estive numa meia-final contra o FC Porto, pelo Académico. Ainda houve empate em Viseu, mas no Dragão foi tudo diferente", lembrou.
Na cabeça está uma possível final que seria especial. "Seria o reencontro com o Rui Borges, o Ricardo Chaves e todo o staff. Falo esporadicamente com ele. E o Ricardo mandou-me mensagem. Acho que ele está com medo do Fafe! Antes do sorteio perguntou-me se queria defrontar o Sporting em Alvalade ou no Jamor. Agora tem a resposta!"

