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Gerardo Santos / Global Imagens
Defende que a formação tem de ser melhor aproveitada e não vê Jesus a apostar na prata da casa. Sobre o futuro do técnico, frisa: "É o treinador que nos vai dizer se se revê no projeto"
Mudar o paradigma e reter os principais jogadores é a aposta forte de Francisco Benitez, que fala em "falta de consistência desportiva" nas águias.
Propõe a redução dos quadros a nível de jogadores. As contratações têm sido por atacado e sem objetivos definidos?
-Não tenho dúvidas, pela quantidade de jogadores que não vestiram o manto sagrado ou vestiram poucos minutos e vários até chegaram como a última coca-cola do deserto. O que transparecia era que o compromisso do Benfica não era ganhar mas arranjar bons negócios para vender, quase como uma loja de pneus, em que se compra pneus a baixo preço para vender caro. Era a lógica que existia e existe. Veja-se os 100 milhões de euros investidos, parte desses jogadores já foram embora e sem explicação. Ficamos sem perceber a estratégia.
Defende que falta gente do futebol na SAD...
-Teoricamente só há uma pessoa [n.d.r.: refere-se a Rui Costa] que percebe de futebol. Alguns dizem que não, mas julgo que sim.
Tem essas pessoas?
-Temos pessoas que têm créditos firmados e provas dadas, alguns ex-jogadores que até vivem para lá do futebol, mas que continuam ligados à modalidade. Não posso divulgar, mas dia 10 os nomes surgirão.
Comprar barato para vender caro não é uma inevitabilidade no futebol português?
-Se formar não precisa comprar para vender. Temos uma formação. E aí sim temos de dar honras e agradecer a Luís Filipe Vieira, que se empenhou na academia do Seixal. Mas a rentabilização deve ser desportiva e não económica. Vendemos os ovos para os outros comerem os galos quando os galos podiam ficar na nossa capoeira e darem-nos grandes alegrias e títulos. O Benfica nasceu para ganhar. Os benfiquistas alimentam-se de vitórias, não de negociatas.
Mas é fácil segurar os jovens, atendendo ao futebol atual?
-Não é fácil se estão num clube em que a perspetiva é vender jogadores. Agora, quando há um plano com o compromisso de vitória os jogadores não saem. Se só quisessem dinheiro iam para a Ásia ou o Médio Oriente, mas querem é sair para grandes clubes, porque entendem que o Benfica não é tão grande quanto esses clubes. O que o Benfica tem de fazer é inverter esta lógica. Tem de ganhar a hegemonia em Portugal e estar permanentemente nos grandes palcos europeus. Estes miúdos não vão querer sair a meio da viagem numa equipa vencedora.
É possível um Benfica a lutar pelo título e Europa?
-Claro que é possível. Agora, tem de ter um princípio, meio e fim. Mas não podemos querer lutar pela Champions porque sim. Chegar uma vez aos oitavos de final ou quartos não é projeto. Um projeto é ter consistência. Se estiver permanentemente nos quartos de final terá possibilidade de um dia chegar à final. Não há essa consistência no Benfica, falta consistência desportiva. O Benfica navega à vista, a estratégia muda em função das eleições, do treinador... Não há rumo.
A contratação de treinadores e jogadores será colegial ou do presidente Francisco Benitez?
-O objetivo não é ser um clube unipessoal. A decisão será sempre colegial. Teremos um diretor-desportivo, administradores para o futebol em maior número do que atualmente, o team-manager e o diretor de scouting, em quem praticamente se deixou de ouvir falar. Atualmente, praticamente tudo se resume ao treinador. Está tudo em cima dele, é ele que põe e dispõe e quando se vai embora ficamos com o menino nos braços.
Jorge Jesus termina contrato esta época. Qual a posição sobre o seu futuro?
-É o próprio treinador que nos vai dizer se se revê ou não no projeto. Qualquer treinador tem de assumir um compromisso connosco. O nosso projeto é aquele, revê-se ou não, aceita ou não?
Para Jorge Jesus continuar terá de rever-se no seu projeto, não o contrário?
-Obviamente. Jorge Jesus é que faz parte do Benfica, não é o Benfica que faz parte de Jorge Jesus.
Jorge Jesus tem apostado de forma suficiente na formação?
-Claro que não. Tudo o que seja ter menos do que dois ou três elementos permanentemente na equipa principal não é uma aposta na formação. E não estou a ser muito exigente.
"Não preciso de um intermediário a vender jogadores aos clubes"
Francisco Benitez quer travar a venda de jogadores e garante que, para isso suceda, "o Benfica não precisa de intermediários". "Os jogadores têm cláusulas de rescisão e têm de ser os outros clubes a virem ter connosco. Não preciso de ter um intermediário com uma pastinha a percorrer os grandes clubes a vender os jogadores. Temos gente na estrutura para fazer isso e, no limite, nem quero é que venham, porque quero manter os atletas", defende, recusando privilégios com agentes: "Venho da área do retalho e aí não temos relações privilegiadas com nenhum fornecedor, porque quando essas relações existem acaba-se sempre a perder dinheiro."
Centralizar só com bolo a crescer
Como analisa a centralização de direitos televisivos?
-O Benfica tem de sair a ganhar e para isso o bolo dos direitos tem de aumentar, pois é a dividir por mais. E aí a Liga não está a fazer o seu papel. Tem de haver uma revisão do quadro competitivo para a liga ser um produto apetecível lá fora e aí aumentar o bolo.
Como será a relação com a Liga, FPF e Governo?
-O Benfica tem de fazer mais e melhor. Não pode ser conivente com processos que o prejudicam, como o cartão do adepto. O Estado está a desresponsabilizar-se em termos de segurança. O que fez o Benfica? Colocar o Estado em tribunal? Diminuir os espaços na Luz para essa zona? Nada.
