Enchente na noite de glória do V. Guimarães: "Deus não dorme e deu a mão ao Charles"

Miguel Pereira
Milhares de adeptos fizeram a festa com o plantel no centro da cidade-berço. Vitória frente ao eterno rival tem sabor "diferente". Entre fogo de artifício, buzinas e cânticos, milhares de adeptos não arredaram pé até à chegada da equipa ao berço com o troféu nas mãos. Abascal e Charles foram dois dos reis da festa.
A Taça da Liga chegou como costumam chegar as coisas raras: tarde, pesada de significado, erguida por mãos que tremiam mais de história do que de cansaço. Quando o apito final ecoou em Leiria, já bem depois da hora, não foi apenas um som que se ouviu, foi também a felicidade de uma cidade inteira, guardada há décadas numa respiração contida. As ruas de Guimarães vestiram-se de preto e branco, com as janelas das casas equipadas com cachecóis e bandeiras, à espera dos conquistadores e de um título que fugia há mais de uma década. E nem a chuva, que tornou o festejo mais abençoado, estragou os planos. "Fico muito feliz por ver estes adeptos assim. Não contava ganhar um troféu esta temporada, mas quando ganhámos ao Porto, disse que íamos à final. Quando calhou o Braga, disse que íamos ganhar", partilhou com O JOGO José Cardoso, vestido a rigor.
Repleto de milhares de adeptos de todas as gerações, o Toural esperou até depois das três da madrugada para receber os conquistadores, num autocarro personalizado e com a taça à vista. Rui Silva, sócio do Vitória há quase 26 anos, ainda não tinha palavras para a conquista, logo com o eterno rival: "Sinto-me a explodir. Já fomos a finais que não ganhámos, que foram duras, mas contra o Braga é sempre diferente." Mesmo num desafio repleto de emoções, o apoiante, garantiu, esteve sempre tranquilo. "Quando assinalaram o penálti, fiquei muito tranquilo. Pensei "o Charles vai defender". Deus não dorme e deu-lhe a mão. Assim que marcámos o segundo golo, acreditei que a taça já não fugia mais. O árbitro é que demorou muito tempo a acabar o jogo", recordou bem-disposto. Quanto ao herói, a escolha não teve dúvidas: "Charles. Merece toda a oportunidade depois disto e até uma estátua ao lado da do D. Afonso Henriques."
E foi precisamente o guarda-redes um dos reis da festa. Com Abascal, Nélson Oliveira, Samu e João Mendes logo na frente do autocarro, os jogadores acompanharam os adeptos nos cânticos e nos festejos, com fogo de artifício. O treinador Luís Pinto fez questão de deixar algumas palavras aos milhares que os aguardaram, fazendo um pedido: "Disse que podíamos conquistar coisas em que ninguém acreditava. Só peço que nos continuem a apoiar assim".
O "Papa" de Guimarães que adivinha resultados de finais
Vestido de forma eclesiástica para celebrar a conquista de mais um título 13 anos depois, José Cardoso voltou a apostar num visual que já tinha dado sorte: "Sempre que visto esta roupa, ganhamos. Sabia que íamos levantar o troféu, fé de papa e de vitoriano. Acertei o resultado da final da Taça de Portugal de 2013, desta vez foi a mesma coisa. Quando soube que íamos jogar com o Braga, acreditei mesmo que ia ser para nós".

Ex-conquistadores não esquecem o Vitória
Apesar de longe, antigos jogadores do Vitória de Guimarães fizeram questão de felicitar os minhotos pela conquista da Taça da Liga em Leiria. Nomes como Bruno Varela, Jota Silva, Tiago Silva, João Mendes, Borevkovic, Nuno Santos e Dani Silva deixaram mensagens nas redes sociais a destacar a conquista histórica do clube da cidade-berço.
Celebrar até de madrugada
Cerca de dez mil pessoas esperaram pela equipa minhota no Toural, em Guimarães, para poderem fazer a festa. A equipa chegou à cidade-berço já depois das três da manhã e os adeptos não arredaram pé, numa comunhão com o plantel que durou pela noite dentro. Ontem e hoje, o plantel está de folga.

Charles, o novo rei de Guimarães
Guarda-redes foi o grande protagonista da final minhota. Guardião começou a época a titular, perdeu o lugar para Castillo, mas provou ser uma certeza, mesmo no banco. Capitão foi uma muralha e parou tudo o que havia para parar.
A final da Taça da Liga não deixou de ter uma certa justiça poética para Charles. O guarda-redes, que cumpre a terceira temporada de rei ao peito, pode não ter sido sempre a primeira opção, mas foi agora o número um da conquista histórica da equipa dos minhotos. Aos 31 anos, o brasileiro foi protagonista de uma noite de sonho ao, a juntar às incríveis defesas durante o desafio, ter parado uma grande penalidade do Braga já no tempo de compensação.
Corria o ano de 2016 quando Charles chegou a Portugal para representar o Marítimo. Vestiu a camisola dos insulares durante seis temporadas e teve, depois, uma experiência no Vizela antes de assinar pelo Nicosia, do Chipre. Regressou a Portugal em 2023/24 para representar o Vitória de Guimarães, onde não tem sido sempre a primeira escolha. Nas duas primeiras temporadas foi suplente de Bruno Varela no campeonato e, esta época, tudo parecia mudar: o brasileiro foi nomeado um dos capitães do plantel e assumiu as redes nos primeiros desafios, até voltar para o banco depois de exibições mais apagadas, dando o lugar a Juan Castillo. Luís Pinto admitiu que a forma do brasileiro não era a melhor, enaltecendo, ainda assim, o espírito de Charles no apoio e no trabalho diário com o plantel.
Chegada a Taça da Liga, o guarda-redes não foi titular no jogo no Dragão, com o FC Porto, mas foi o dono da baliza diante do Sporting, nas meias-finais, protagonizando uma noite feliz, com defesas de encher o olho. A boa exibição voltou a merecer a confiança de Luís Pinto para as opções iniciais, numa aposta que foi ganha: com mãos de ferro, Charles foi o herói da final minhota em Leiria.

