Rui Águas: "Se gostava de jogar? Nem por isso!"

Rui Águas: "Se gostava de jogar? Nem por isso!"
Ana Proença || Fotos: Orlando Almeida

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A conversa com Rui Águas correu fluida durante mais de uma hora no bar do Solplay Hotel, em Linda-a-Velha, onde o Benfica estagiou no decorrer de várias épocas, antes de se mudar definitivamente para o Seixal. O clube das águias foi, inevitavelmente, um dos temas abordados. Como outros: o casamento, os filhos, a carreira, o falar baixo, a timidez, os afetos e, claro, a experiência em Cabo Verde, que lhe proporcionou "momentos inesquecíveis". "Eu? Um grande dançarino de mornas? Nem por isso. Procuro acompanhar a minha mulher."

Rui Águas anunciou a 1 de janeiro a demissão do cargo de selecionador de Cabo Verde, que exerceu durante um ano e meio. No comunicado que divulgou, o antigo avançado, atualmente com 55 anos, não referiu, de forma explícita, os salários em atraso que desde há meses vinham a acumular-se, mas é público ter sido essa a razão do abandono. Rui Águas levou a seleção cabo-verdiana à fase final da Taça das Nações Africanas (CAN) 2015 e deixou-a bem lançada na qualificação para a edição do próximo ano, ao mesmo tempo que garantiu o acesso dos "tubarões azuis" à fase de grupos do apuramento para o Mundial"18. Por agora, o treinador tem estado em Lisboa "de volta dos livros" e a escrever o prefácio para um livro sobre coaching do ex-treinador de basquetebol Jorge Araújo. O futuro deve passar novamente pelo estrangeiro.

Transmite a imagem de uma pessoa muito introvertida. É mesmo assim?

Sim. Sou tímido. E curiosamente sou casado há muitos anos com uma cabo-verdiana, a Leonor, que é completamente diferente de mim. Essa diferença nunca foi um problema. As pessoas completam-se.

Conhecemo-nos pessoalmente no último verão através do psicólogo Jorge Sequeira, amigo em comum e ex-candidato presidencial, num restaurante cabo-verdiano em Lisboa. A estadia em Cabo Verde enriqueceu-o no aspeto gastronómico?

Não. Na verdade, acho que como pratos mais tradicionais aqui do que lá, porque aqui procuro-os e lá acabava por comer em sítios mais normais. A Leonor também faz uma boa cachupa, tem jeito para cozinhar e isso também é importante num casamento [risos]. Não houve alterações nesse aspeto com esta minha turné a Cabo Verde.

Como conheceu a sua mulher?

Fomos colegas de turma no ISEF [agora FMH - Faculdade de Motricidade Humana]. Casei com 22 anos. Tende-se a pensar que os jogadores casam cedo porque têm possibilidades para isso. No nosso caso, foi uma inconsciência, porque nós não tínhamos cheta. Avançámos sem rede, nem um ano tínhamos de namoro, eu jogava no Sesimbra, da III Divisão, mas ganhava poucochinho, e estudava ao mesmo tempo. Ela jogava basquetebol e estudava.

Acabaram o curso?

Nem eu nem ela. Ela engravidou a meio de um ano letivo, o bebé nasceu e, depois, eu estava já no Portimonense e acabámos por não concluir a faculdade. O primeiro ano de casados foi o mais difícil. Atualmente penso que vivemos a fase de maior plenitude do nosso casamento.

Os filhos já são grandes...

São adultos, mas muito chegados a nós: o Martim tem 22 anos e joga futebol no Vitória de Sernache; o André tem 31 e é publicitário; e a Mariana, de 28 anos, é jornalista.

Só Martim seguiu as pisadas do pai e do avô.

Isto de ter um pai que alcançou alguma coisa numa determinada atividade é chato. Tem um peso grande. Eu carreguei o peso do meu pai e o Martim está agora a carregar o meu. Passamos a vida a ouvir que somos filhos daquela pessoa e isso, na realidade, é mau.

Porque coloca-lhe pressão?

Pressão, inveja...

Acham que as conquistas do seu filho são apenas fruto de ser seu filho?

Não tanto por aí, mas está sempre algo latente.

O Martim lida bem com isso?

Acho que sim. Eu ultrapassei e acabei por triunfar de alguma maneira. Faz parte da luta, é mais uma coisa que se tem de ultrapassar. Neste caso, não ser alguém é uma vantagem

Costuma aconselhar o seu filho sobre futebol?

Sempre que posso, mas faço-o calmamente, num clima positivo. Não sou nada de pressionar. Agradeço ao meu pai também não ter o feito comigo.

Tendemos sempre para as comparações: o Martim é tão bom cabeceador como o pai e o avô?

Ele joga a médio, embora seja um jogador ofensivo, por isso tem uma menor participação ao nível do jogo aéreo, mas tem aptidão, salta muito bem. Está numa fase de crescimento e amadurecimento.

O Rui tem um lugar na história do Benfica e do futebol português. Como gosta que o recordem e o definam enquanto jogador?

Por muitos golos que o meu pai tenha feito, aquilo que mais guardo e que muita gente também refere, em relação a ele, são os valores. Há muitos jogadores bons, mas acho que é o carácter que os diferencia. As pessoas focam normalmente três aspetos da minha carreira: a polémica da minha transferência para o FC Porto, a fratura do pé e os dois golos que marquei numa meia-final da Liga dos Campeões, frente ao Steaua Bucareste, que levou o Benfica, depois de muitos anos, à final. Acredito que sejam estas recordações a perdurar.

Mas dos três momentos que refere, só um parece positivo...

Pois! [risos]. Bem, depende de quem vê...

Orgulha-se da carreira que fez como futebolista?

Sim. Tive um percurso um pouco atípico em relação à maioria dos futebolistas, que se tornam profissionais muito cedo. Eu tive a oportunidade de estudar e de passar por campeonatos que também são difíceis e nos permitem dar mais valor ao que conquistamos. A irregularidade do meu trajeto tem pontos comuns com a atualidade, como treinador, e espero que tenha um final idêntico. Comecei como treinador relativamente cedo, mas tenho feito um percurso de amadurecimento. Tenho tido a possibilidade de ocupar diferentes cargos. Nesta altura, já acho que posso ir mais longe, sinto isso, estou muito contente com o que fiz recentemente.

Tem vontade de voltar a trabalhar em Portugal, mas num patamar superior. É isso?

Sim, mas não me parece que agora exista essa possibilidade. O cenário atual é continuar fora do país, o que também fortalece.

Ainda sofre pelo Benfica?

Menos. Sofro mais porque os meus filhos sofrem do que propriamente por mim. As pessoas vão vivendo, observando, já não sou como fui.

Era doente?

Não cheguei à doença, mas era adepto. De qualquer forma, enquanto comentador, acho que consegui sempre ser sério e objetivo.

No comunicado que fez a 1 de janeiro a anunciar a sua demissão, refere ter vivido como selecionador de Cabo Verde "momentos únicos", que nunca vai esquecer. Pode referir alguns?

É tão difícil. Cabo Verde é um país musical: tudo é dança, canção e batuque. As pessoas adoram a sua seleção, como nós aqui não adoramos. Os cabo-verdianos são doidos pela seleção e pelo seu país. Existe uma sintonia e um amor enormes em redor da equipa. A imagem dos adeptos está sempre muito presente na hora de entrar em campo, são eles que inspiram a equipa.

De que forma os adeptos se expressam?

Fora do campo agradeciam-me humildemente, uma coisa sempre muito ternurenta. No campo era uma festa. No final dos jogos, passeávamos numa carrinha pequena, tipo daquelas dos colégios, com todos em cima uns dos outros, pelas ruas onde estavam as pessoas a festejar. Os próprios jogadores pediam para nos juntarmos àquelas celebrações tão puras. Toda a gente se mistura em festa. Não tem escrição...

Nessas alturas de festa, torna-se mais expansivo?

Nem por isso. A timidez impede-me. Uma pessoa tímida é sempre tímida. Tenho pena de não ser diferente, mas sou como sou... Acho que é uma defesa. Sou uma pessoa controlada, ao mesmo tempo nervosa e afetiva. As pessoas às vezes dizem que sou frio, mas não é verdade. Sinto as coisas com uma grande intensidade, mas tenho dificuldade em expressar. Quando altero o meu tom de voz, é normalmente com o objetivo de causar impacto, o que é importante quando falo para os jogadores. Se falo sempre com o mesmo tom, pareço um pai ou uma mãe a quem já não se liga muito. Ao fazer variações, desperto a atenção.

Pratica alguma atividade física atualmente?

Corrida.

Li algures que não tinha saudades de jogar futebol.

É verdade.

Mas suponho que gostava de jogar quando era profissional...

Nem por isso. Para além de ter esgotado, era muito nervoso e preocupado, responsável de mais, se calhar. Então a carreira de futebolista foi uma coisa pesada para mim.

Tem tocado muito o telefone desde que anunciou a sua demissão?

Tem tocado o bastante. Se tocasse muito, acabava por ser confuso. Nesta altura, ir para um clube é algo a que daria prioridade. Vamos ver o que acontece.