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Um ex-FC Porto na Alemanha: "Receio só vai piorar a nossa vida"

André Silva, avançado do Eintracht Frankfurt AFP

ENTREVISTA (Parte 1) - O Eintracht Frankfurt já treina e André Silva explica a O JOGO todo o processo. O vírus ainda complica, mas o ideal é manter a tranquilidade e treinar como se nada fosse. Senão é muito mais difícil...

É um dos melhores jogadores portugueses no estrangeiro e foi travado pelo vírus na melhor fase da época, depois de um ano com muitas lesões que até lhe custou a presença na final da Liga das Nações. André Silva manteve-se na Alemanha durante o confinamento social e regressou aos treinos de campo há quase duas semanas, muito antes do que as equipas portuguesas (exceção ao Nacional) o pensam fazer. É, essencialmente, essa experiência que descreve, mas também fala da época, do FC Porto e da Seleção Nacional.

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Regressou aos treinos de campo há cerca de duas semanas. Como têm sido essas sessões?

-O regresso começou por ser um pouco complicado, como acredito que esteja a ser a vida de toda a gente. Houve muitas alterações, regras novas. O clube teve que se organizar muito rapidamente e nós que nos adaptar. Começaram por fazer pequenos grupos de treino. Quatro no máximo. Fomos distribuídos por diversos balneários. Temos a felicidade de ter essas condições. No meu balneário só estou eu e mais dois jogadores, mas estou muitas vezes sozinho, porque as horas de treino também são diferentes.

E o tipo de trabalho também será muito diferente do habitual...

-São mais técnicos. Remates na maior parte das vezes. Também fazemos preparação física e corremos com afastamento. Fazemos ainda trabalho de ginásio, mas não no ginásio. Fecharam e nós não somos autorizados a ir lá. Mas eles deram a volta a isso, colocaram alguns pesos livres em diferentes espaços .

Rematar é um tipo de trabalho que os avançados gostam...

-Acabamos por fazer mais finalização, o que é do meu agrado, porque sou ponta de lança e quanto mais melhor. É preciso é ter a noção de que não podemos exagerar, porque como acabamos por fazer demais, podemos fazer estragos e nesta altura não convém.

Voltando às medidas de contenção, que novas regras foram aplicadas no trabalho?

-É um bocado diferente do que estamos habituados. Estamos constantemente a lavar as mãos e a passá-las pelo gel. Já tivemos diferentes reuniões para nos explicarem o que devia ou não ser feito. Não podemos estar a menos de 2 metros uns dos outros, medem-nos a temperatura antes de entrarmos no centro de treino e questionam-nos por algum sintoma, febre, alguma dor ou coisa do género.

Nunca sentiu receio em ir trabalhar?

-No início estava com um bocado de receio, porque o vírus era desconhecido e o desconhecido mete medo. Ainda por cima, naquele momento estávamos a jogar e a situação a piorar. Estava preocupado comigo e com os meus. Mas à medida que o tempo foi passando, as regras mudaram, as medidas também e tentam ter todos os cuidados para não colocarmos em risco a nossa saúde, porque isso é o mais importante. Faz bem ter sempre na cabeça que temos que levar a nossa vida para a frente e sem receio, porque o receio só vai piorar a nossa vida, aumentar o stress e dificultar que façamos as coisas bem. Temos de nos adaptar às circunstâncias. Sinto-me melhor nesta altura. Antes tinha receio mais pela minha família e pelas pessoas com quem me preocupo. Mas como estou isolado e não tenho como passar nada a ninguém, não sinto tanto receio. Treino à vontade a pensar em fazer o melhor, para quando isto acabar , estar no meu máximo.

É natural que o futebol vá mudar no futuro. A primeira mudança terá a ver com o público...

-Acredito que o futebol irá mudar, em questões económicas e não só. Em tudo. O futebol sem adeptos não é o mesmo e nós tivemos oportunidade de perceber isso no último jogo que fizemos. É um sentimento triste. Falta claramente qualquer coisa, neste caso os fãs que adoram o futebol. Acredito que no futuro iremos jogar sem público. Será difícil, mas nós estamos habituados a adaptar-nos e temos que o fazer porque os clubes são uma empresa e também não será fácil para eles.

André Morais