
A equipa do Sport Clube do Porto
Leonel de Castro
Em parceria com o CRAV, para que "não se deixe o Norte morrer", o Sport Clube do Porto é campeão feminino, além de detentor de Taça e Supertaça de râguebi
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São 270 atletas federados, homens e mulheres, desde os seis anos aos seniores, mas a joia da coroa do râguebi do Sport Clube do Porto é a principal equipa feminina, que, na temporada passada, venceu Supertaça, Taça de Portugal e Campeonato Nacional. O primeiro troféu frente ao Sporting, por 34-10, em Anadia; o segundo, perante o mesmo rival, por 31-15, no Estádio Municipal Sérgio Conceição, em Coimbra, por 31-15; e o terceiro, a final do Campeonato, frente o Benfica, no Jamor, por 26-14.
"É verdade, dizer que é uma parceria com o CRAV (Clube de Rugby de Arcos de Valdevez) tem sentido. Embora a equipa só tenha três atletas do CRAV. Nós queremos juntar o Norte, não queremos que os clubes do Norte desapareçam e esta fusão permite a continuidade do CRAV", diz a O JOGO Nuno Gramaxo, recentes 65 anos, o responsável pela modalidade no Sport Clube do Porto - tradicional emblema da Invicta que continua a ter em Paulo Barros Vale o presidente -, considerando que estas conquistas são resultado de "muito trabalho, dedicação e esforço". E agora, interrompemos Gramaxo para explicar que estas meninas, com idades compreendidas entre os 16 e os 40 anos, saem de casa, algumas de Tondela, Vila Real, Coimbra, Albergaria, para além de Arcos de Valdevez, para vir dar ao Porto, seja ao Inatel, onde fazem os jogos em casa, seja ao Parque da Cidade, onde também treinam.
Quando a reportagem de O JOGO chegou a Ramalde, numa noite fria, ninguém diria que havia atletas que ali estavam com mais de 100 quilómetros a conduzir após um dia de trabalho, era tudo brincadeira - antes do treino começar, bem entendido -, animação, sorrisos, uma boa disposição contagiante. "Sabemos que há equipas que têm jogadoras semi-profissionais, algumas até vieram da Nova Zelândia, mas nós não temos uma que seja. Quanto ganham as nossas atletas? Zero, nenhuma ganha um cêntimo, só pagamos as gasolinas, nem alimentação. Isto é amor à camisola", sublinha Gramaxo, sobre um projeto que começou há 30 anos e que fez questão de contar. "Isto arrancou em 1995/96 no ISMAI, Universidade da Maia onde eu comecei a dar aulas e fiz uma equipa, que até foi campeã nacional, em igualdade com uma equipa de Lisboa. Com duas ou três dessas jogadoras, numa segunda geração do ISMAI, formou-se outra equipa e, dessas, algumas estão aqui hoje", revela, continuando: "Isto foi ISMAI, depois estivemos no Boavista, até que eles nos pediram 750 euros por mês pelo campo das 22h30 à meia-noite. Ficamos muito tristes com isso e, imagine, fomos treinar, à noite, para a Praca D. João I, em frente ao Rivoli. É mesmo isso, ali, em pedra. Estivemos ali cerca de dois meses e meio, foi lá que trabalhamos, até que apareceu uma pessoa do Sport, o professor José Dias, que nos questionou sobre a vontade de ir para lá e nós, claro que sim, e já lá vão 13 anos".
Esta é, percebe-se, uma história de sobrevivência, superação, paixão, dedicação, compromisso e entrega. Aliás, finalizada, a sessão de fotos para O JOGO, começou o treino e foi coisa séria.
"Estes troféus resultam do esforço delas"
Isabel Leite é a treinadora das seniores, depois de ter passado pelos escalões de formação. "Isto é resultado de muita dedicação e esforço delas, a verdade é que estes troféus são mesmo devido ao esforço delas, porque nós treinamos três vezes por semana em horários um bocadinho desagradáveis, mas elas têm cumprido e com um compromisso cada vez maior", resume Belinha, 37 anos, natural de Oliveira de Azeméis, mas a viver no Porto desde os 18. "Tenho a sorte de ter um grupo fantástico e elas conseguiram entrar na mesma onda que eu, que sou muito competitiva, e de ter a visão de nós éramos capazes de vencer os títulos. Elas foram atrás, jogo após jogo elas estavam cada vez melhor e não foi preciso muito mais", explica a técnica, escusando-se a elogios próprios. "Eu estou aqui para gerir pessoas, essa é a parte mais difícil, mas elas cumprem e depois tudo se torna mais fácil. Eu sei que ainda estou no início e tenho muito a aprender, mas, graças a elas, tem sido um orgulho", insiste a professora de Educação Física que começou por jogar futebol, até descobrir o râguebi, "uma paixão", que surgiu na faculdade quando conheceu Nuno Gramaxo.
Capitã fala em "família"
"Como descobriu? Isso está no segredo dos deuses...", resposta pronta, gargalhada enorme, entre a ponte Luiz I e a da Arrábida, à pergunta sobre um salário que, brincámos também, rondaria os três mil euros por mês - já sabíamos que não há qualquer atleta remunerada no Sport. "A chave disto tudo é um conjunto de características e de valores que, no fundo, criam os laços de uma família. Eu diria que é a amizade e o facto de sermos resilientes em tudo o que temos de fazer para atingir os nossos objetivos", explica Daniela Correia, 38 anos, a capitã de equipa e também da Seleção Nacional. "É uma família mesmo, e isso pode comprovar-se com a variedade de idades que nós temos, desde o meu caso, que já jogo desde os 15 anos, até à jogadora que entrou mais recentemente, e depois a forma como nos relacionamos, tudo tem de ser feito com alegria e gosto, e isso facilita muito depois o chegar ao campo, aos jogos, e as coisas correrem bem", diz. "Nós focamo-nos em nós e tentamos não olhar para o adversário individualmente. Olhamos para as forças e treinamos, no dia do jogo é aplicar o que trabalhamos para combater essas forças. Estamos sempre em conjunto, e não individualmente, para evitar esses pensamentos", responde sobre o facto de terem opositoras, no mínimo, semi-profisionais."O que se sente ao fazer o triplete? Olhe, vou mesmo falar por mim, porque sou uma das pessoas que fundou o râguebi no Sport Clube do Porto, há 13 anos, com o professor Nuno Gramaxo, mas já estive noutros clubes (Sporting, por exemplo) e ganhei alguns títulos, nomeadamente estes a que nos estamos a referir. Mas ganhar no clube em que me sinto pertencente é inexplicável. É uma paixão enorme pelo clube e pela cidade que representamos. Não sou do Porto, sou da Murtosa, mas já estou no Porto desde os 20 anos e adoro, adoro a cidade e as gentes, e vencer junto de amigas é indescritível. Se me permite, quero aproveitar para agradecer ao nosso patrocinador porque, no primeiro ano em que está connosco, conseguimos o triplete", termina.
A diretora que vai voltar a vestir a camisola
"A Mariana está a esconder-se atrás de qualquer coisa que nós não sabemos o que é, porque ela faz falta no campo", afirma Daniela, carinhosamente tratada por Deolinda, sobre a agora diretora da equipa, que, não por acaso, ouvia a conversa, abraçada à amiga. "Ela percebeu que uma equipa que venceu e quer continuar a vencer precisa de uma pessoa nesta função, e abdicou da carreira enquanto jogadora para agora estar como diretora, mas acredito que ainda venha a vestir de novo a camisola para entrar em campo", estima a capitã. E agora, Mariana? "A Deolinda, a Deo, a minha amiga, é das primeiras, e no ano passado, quando foram precisos reforços, foi a primeira a chegar à minha beira, num cantinho, e a dizer-me que precisavam de mim. Disse-me que tinha de recomeçar a treinar para ajudar, eu já era diretora, mas foi preciso e quando é preciso nós estamos, quando é preciso eu estou", responde Mariana, das mais brincalhonas e empáticas desde o início, mostrando um à vontade desarmante, mas agora com a seriedade que as respostas pediam. "O que ela [Daniela] disse da família, do espírito, é tudo verdade. Eu também não sou do Porto, sou de Anadia, mas vim estudar para aqui e adoro o Porto. Ninguém anda aqui por dinheiro, isto é amor, e cria-se uma família, uma energia que só quem está aqui sente", finaliza.

