
Lenda de Marty também vence na bilheteira
Atrick McMullan / Getty Images
Filme com Timothée Chalamet é baseado num livro que aborda o percurso de um nome histórico do ténis de mesa, que conquistou 22 títulos entre 1946 e 2002
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Sara Rossein estava numa loja de artigos em segunda mão quando encontrou o livro "The Money Player: The Confessions of America"s Greatest Table Tennis Champion and Hustler" - "O jogador do dinheiro: as confissões do maior campeão de ténis de mesa americano", em tradução livre. Sara imaginou que a obra, uma autobiografia publicada em 1974, sobre um prodígio do ténis de mesa chamado Marty Reisman poderia interessar ao cineasta e marido Josh Safdie. Não podia estar mais certa. A história do jovem judeu, que começou a dar nas vistas na modalidade devido a um problema de saúde, conquistando tudo o que havia para conquistar, serviu de inspiração para o aclamado filme "Marty Supreme", elogiado pela crítica e com nove nomeações para os Óscares. Afinal, quem é Marty Mauser, cuja vida foi demasiado real para permanecer apenas nas páginas de um livro?
Numa cidade como Nova Iorque, onde quase tudo é transitório, desde os bairros à moda e pessoas, Marty Reisman - no filme Marty Mauser, interpretado por Timothée Chalamet - construiu uma carreira baseada na recusa da transitoriedade. Nascido em 1930, filho de imigrantes judeus, cresceu num ambiente de escassez financeira e encontrou no ténis de mesa uma saída improvável, depois de ter sofrido um colapso nervoso, ao aperceber-se de que a modalidade o acalmava. Com apenas 15 anos, Marty jogou contra um adulto, que descobriu mais tarde ser o chefe da Associação de Ténis de Mesa dos EUA. A partir desse momento, a vida de Reisman mudou por completo e foi apurando a técnica. Em algumas partidas, Marty terá chegado a jogar de olhos vendados, usando vários objetos em substituição da raquete, como frigideiras ou solas de sapatos. Tornou-se campeão nacional e venceu títulos mundiais, numa época em que o ténis de mesa era também política e diplomacia.
Em salas abafadas, nos anos 50 e 60, o som da bola era seco, repetido, quase hipnótico, como se cada toque fosse uma sílaba de uma língua secreta. Marty jogava sem medo, sem reverência, sem pedir licença ao relógio. Enquanto os outros treinavam com método, ele começou de uma forma pouco ética, antes de ser descoberto, em apostas a dinheiro, desafiando estranhos. No início, fingia ser menos dotado do que realmente era para aumentar o valor nas apostas nos adversários e arrecadar mais lucro. O desporto, para ele, não era disciplina. Era sobrevivência, espetáculo, destino.
Reisman foi mais do que um simples jogador de ténis de mesa. Foi um ícone excêntrico, cuja carreira estendeu-se por décadas. Mais do que pela técnica, surpreendeu pela longevidade. Atravessou gerações, recusou o declínio. Transformou cada jogo num duelo existencial. Competiu contra adversários de outras gerações, enfrentou a ascensão da modalidade na Ásia, adaptou-se a mudanças técnicas e táticas. Enquanto a maioria se retirava, Reisman continuava. Venceu 22 títulos importantes, entre 1946 e 2002, e conquistou um campeonato nacional aos 67 anos, tornando-se o mais velho a conquistar tal título numa modalidade com raquetas. Entre o homem real e a personagem - em Martin Supreme, esta reflete não apenas as façanhas, mas também os conflitos íntimos, como a obsessão pelo reconhecimento - existe uma linha ténue, mas, juntos, compõem um retrato raro: o de um atleta que transformou o jogo em destino e a persistência em identidade.
Família critica adaptação
Apesar de estar referenciado que "Marty Supreme" é uma obra de ficção e não uma adaptação detalhada da biografia de Marty Reisman, a família não gostou do que viu. O jornal "Daily Mail" publicou declarações da filha do antigo atleta, que morreu em 2012, aos 82 anos, vítima de problemas cardíacos. "Retrataram o meu pai injustamente como um criminoso e um pai ausente, além de insinuar relacionamentos extraconjugais. Ele não era assim. Fazia-me sentir muito especial enquanto eu crescia. Quero que as pessoas saibam disso" afirmou Debbie Reisman. Já Josh, neto do antigo atleta, apontou o dedo à produção por ter excluído a família do processo de criação: "Nunca fomos incluídos, porque sabem que há coisas no filme que jamais aprovaríamos. Humilharam a memória do meu avô por dinheiro".
Portugal foi representado
Durante a antestreia do filme em Paris, Timothée Chalamet, que interpreta Martin Mauser, foi surpreendido por uma oferta bem portuguesa. Uma fã aproveitou que o ator estava a dar autógrafos e a tirar fotografias para o chamar e oferecer uma caixa de pastéis de nata. Num primeiro momento, Timothée autografou a caixa, mas depressa percebeu que a iguaria era uma oferta, não escondendo a surpresa. "Ah, que bom! Obrigado. A sério? Vou experimentar. Adorei, obrigado", reagiu o ator de 30 anos, que pode estar perto de ganhar o primeiro Óscar da carreira.

