
Annika Malacinski
O combinado nórdico é a única modalidade que não inclui uma competição feminina nos Jogos Olímpicos de inverno. Annika Malacinski, que pratica esse desporto nos Estados Unidos, considera tratar-se de uma vergonha, sonhando com uma eventual inclusão em 2030
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O combinado nórdico, que combina provas de esqui cross-country e salto de esqui, é o único desporto dos Jogos Olímpicos de inverno Milão-Cortina'2026 sem mulheres a competir, numa polémica que tem um rosto na luta pela desigualdade de género: Annika Malacinski.
A esquiadora de 24 anos, que pratica esta modalidade nos Estados Unidos, fez de tudo para que o combinado nórdico ganhasse representação feminina nos Jogos de inverno de 2026, mas sem sucesso. Agora com a mira apontada a 2030, encontra-se na mesma em Itália para apoiar o seu irmão Niklas na vertente masculina, mas revolta-se contra o Comité Olímpico Internacional (COI) pela sua recusa em alterar os regulamentos.
"O combinado nórdico olímpico só é acessível para os homens. Agora, finalmente, as mulheres estão a ter essa agenda e estamos a pressionar pela mudança. Mas há estes homens velhos brancos e poderosos que podem simplesmente dizer 'não' na nossa cara", criticou, em entrevista à Globo Esporte, prosseguindo: "Eu não sei se consigo descrever em palavras o quão doloroso é isto. Eu e o meu irmão fazemos exatamente o mesmo desporto. Ele está nas Olimpíadas a realizar o sonho dele, e a única razão de eu não poder estar lá também é porque eu sou uma mulher. E, honestamente, dizer isto em pleno 2026 é nojento. A cada dia que as Olimpíadas ficam mais perto, dói ainda mais. Acho que nunca vou conseguir explicar o sentimento, porque no fim do dia é só injusto".
Malacinski explicou ainda que a justificação do COI para não ter votado a introdução de uma categoria feminina no combinado nórdico olímpico de 2026 é que isso dependia do cumprimento de uma lista de pré-requisitos, incluindo uma maior representatividade de nações no pódio, um aumento do número de atletas a participar em provas ao nível global e um acréscimo na popularidade deste desporto.
"O COI reconhece os desafios que a modalidade do combinado nórdico enfrenta, tanto com homens como com mulheres. Por essa razão a modalidade será reavaliada após os Jogos Milão-Cortina'2026. Após essa avaliação, o COI tomará a decisão de inclusão do combinado nórdico, para homens e mulheres, no programa Olímpico dos Jogos de inverno dos Alpes Franceses de 2030. Como as mulheres ainda não fazem parte do programa do combinado nórdico, e como os eventos masculinos também estão sob revisão, a nossa decisão foi de manter a competição masculina por mais uma edição e fazer uma pesquisa detalhada após os resultados de Milão-Cortina'2026", esclareceu o COI, após contacto do Globo Esporte.
Malacinski assumiu ainda que já não vê os Jogos da mesma forma do que em criança, voltando a apontar o dedo ao COI, apesar de continuar a sonhar com uma estreia olímpica em 2030.
"A forma com que eu tive que lidar com o COI nos últimos quatro anos fez com que isso mudasse. Quando a decisão de não nos deixar competir em 2026 saiu, foi um grande choque. Eu chorei umas oito horas consecutivas. O COI teve as razões deles, mas foi como se eu tivesse levado um chapada na cara. Eles querem que a gente evolua com desporto. Mas como podemos evoluir com o desporto se ele não está nos Jogos Olímpicos? Por exemplo, quando uma menina nova chega ao combinado nórdico, qual é o motivo dela continuar e não ir para o salto, por exemplo? Porque o salto está nas Olimpíadas. Eu falo sempre nisso, mas eu realmente acho que eles nos estão a condenar ao fracasso. E não há forma de passarmos mais um ciclo olímpico sem equidade. Então, eles estão a prejudicar o desporto como um todo", rematou.

