
Francisca Veselko
ENTREVISTA, PARTE I - Aos 22 anos, Francisca Veselko concretizou o sonho de entrar no circuito mundial da World Surf League (WSL) desta época e, na breve passagem por Portugal, conversou com O JOGO sobre o feito
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Um sétimo lugar na icónica onda de Pipeline foi suficiente para Kika reforçar o quarto lugar do ranking nas Challenger Series e garantir vaga no Championship Tour (CT). No entanto, a WSL ainda demorou a fazer as contas da felicidade portuguesa, só confirmando a qualificação um dia depois da conclusão da etapa havaiana.
O seu apuramento não foi logo confirmado. O que aconteceu?
-Estávamos a achar um pouco estranho não ser oficial, devido aos resultados das outras atletas e à quantidade de pontos que já tinha atingido no ranking, mais de 24 mil, mas enquanto não fosse oficial por parte da World Surf League, não era. Achei que só ia conseguir em Newcastle [Austrália], mas depois a WSL postou nas redes sociais que estava qualificada. No Havai, já era fim de dia, estava em casa, de pijama, relaxada. Quando soube foi uma festa, tudo aos saltos e aos berros, nem conseguíamos acreditar. Foi uma maneira de saber diferente, mas o que interessa é que está garantido. Não podia estar mais feliz.
Como reagiu o seu treinador em particular?
-O Rodrigo Sousa está a viver este sonho tão intensamente como eu. Têm sido muitos anos de trabalho com ele, a sacrificar tudo para que fosse possível. Ter dado certo é um alívio. Estamos muito felizes por termos confiado no processo, por termos sido resilientes e super dedicados. Significa muito também por virmos de Portugal, que é um país pequeno, mas grande. É uma conquista mesmo honrosa. Agora é trabalhar mais ainda.
Em Pipe, virou a bateria da ronda dos 32 a seu favor a cerca de 30s do fim. Foi um momento crucial?
-Sem dúvida. Precisava mesmo muito de um resultado neste campeonato. Acabei por ter a estrelinha, mas diria que foi uma recompensa do universo, por todo o esforço que tenho vindo a fazer. Fui um mês e meio mais cedo para o Havai para treinar para esta etapa, enfrentar o medo da onda de Pipeline. Até acho que faltava menos tempo, veio a onda, vi que tinha oportunidade de fazer uma manobra e virar. Também não precisava de um score muito alto. Foi mesmo muito crucial.
A sua passagem acabou por implicar o afastamento da Teresa Bonvalot. Como se gerem estas situações?
-Somos muito amigas, conheço a Teresa há muitos anos, mas o surf é um desporto individual e está toda a gente a lutar para o seu sonho. Ela ainda tem uma última chance em Newcastle, é matematicamente possível e tem capacidades para conseguir.
Não tinha previsto vir a Portugal. Fica quanto tempo?
-Estou de partida para a Austrália no dia 17. Estava nos meus planos ir diretamente para Gold Coast, treinar, fazer pranchas novas e focar para a última etapa. Entretanto, a vida deu uma volta e achei muito importante vir cá, estar com a minha família, celebrar com os meus amigos e fazer um reset para o que aí vem.
Quais as perspetivas para esta última etapa das Challenger Series?
-Newcastle tornou-se especial para mim por ter ganho lá a minha primeira etapa das Challenger Series. Foi um momento muito feliz da minha vida e da minha carreira. Agora vou com menos pressão, mas a mentalidade e garra são as mesmas. Seria incrível ganhar lá pela segunda vez, na mesma praia.
"Somos uns privilegiados, temos muita variedade de ondas"
Portugal nunca teve representação no World Tour feminino, mas, na nova época, a iniciar-se a 1 de abril, em Bells Beach, a história vai escrever-se em dose dupla, graças aos apuramentos de Kika Veselko e Yolanda Hopkins. Teresa Bonvalot ainda se pode juntar às amigas, vivendo Portugal um momento alto. "Somos privilegiados, temos muita variedade de ondas e podemos treinar todo o tipo de condições. Os surfistas conseguem uma base muito sólida", considera Veselko, sem deixar de realçar que, apesar do país ser a Meca do surf na Europa, "cada pessoa teve que lutar mesmo muito pelos seus objetivos". "Estou orgulhosa do meu percurso, cheguei aqui por mim, sem grandes hypes. Sou mesmo eu, o meu treinador, a minha família e os meus patrocinadores que temos todo o mérito desta conquista", conclui.

