Do Benfica saiu uma dupla inseparável: histórias, viagens e um susto com a covid-19

João Castro, adjunto de Mariano Ortega na Luz, acompanhou o técnico espanhol na Arábia Saudita e na Liga Asobal. Lisboeta de 39 anos fez dupla na Luz durante as três épocas em que o espanhol lá esteve. Juntos, passaram pela seleção da Arábia Saudita e formam agora a equipa técnica do Guadalajara.
Quando, em 2014/15, Mariano Ortega chegou à Luz para ocupar lugar de Jorge Rito e conheceu João Castro, que desempenhava as funções de adjunto, estava longe de imaginar que este passaria a ser o seu braço direito até aos dias de hoje. Ortega deixou o Benfica três anos depois, foi para Burgos, onde vive com a mulher e os três filhos (Daniel, 19 anos, que jogou nos iniciados do Benfica, Verónica de 14, e Álvaro de oito, que joga basquetebol), e treinou a equipa local, que competia no terceiro escalão. Quando foi convidado para comandar a seleção da Arábia Saudita, nos Jogos Asiáticos, chamou João Castro. Esta época continuam juntos, no Guadalajara, da Liga Asobal, que tem previsto o recomeço.
"Sou um adjunto oficial do Mariano Ortega? Pois, acho que se pode dizer isso. Já nos conhecemos bem e o entendimento é de olhos fechados", comenta Castro, lisboeta de 39 anos. "Estamos a viver em Guadalajara e a trabalhar juntos em mais uma nova etapa", diz Mariano Ortega.
"De Portugal conheço pouco, era treinar e jogar, mas gosto muito do país, sobretudo Lisboa. Foi uma experiência impressionante estar num grande clube como o Benfica. A minha família estava muito contente, foi uma pena", refere Ortega a O JOGO, refugiando-se na memória dos três anos no clube da águia: "No primeiro custou um pouco. Foi a adaptação, o conhecer os adversários. A maneira de jogar em Portugal era um pouco diferente daquilo a que estava habituado. No segundo ano mudámos muito a equipa e subimos bastantes jogadores da formação. Na Taça de Portugal, em Almada, ganhámos, na meia-final ao FC Porto e depois na final ao Sporting, no prolongamento, com aquele tiro incrível do Ronny [Elledy Semedo] dos 12 metros. Essa conquista foi o clique que nos faltava. No play-off do campeonato eliminámos o Madeira SAD e a seguir o FC Porto, em jogos muito equilibrados, e o FC Porto, recordo, vinha de sete campeonatos seguidos a ganhar. Foi importante para ter muitas "ganas" de continuar a luta. Depois, na final, e tal como aconteceu na Taça Challenge, a sorte foi para o ABC". No terceiro ano, Ortega recorda que "o Benfica ganhou a Supertaça ao ABC", mas reconhece "que a equipa não conseguiu melhorar o nível de jogo em relação à época anterior".
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João Castro, que atualmente está em Lisboa, corrobora as palavras do técnico: "Apostámos mais nos jogadores da formação, fomos campeões de juniores com jogadores de grande nível". Ortega enumera-os. "Eram atletas como Davide Carvalho, Tiago Ferro, Alexandre Cavalcanti, Paulo Moreno, Kiko [Francisco Pereira], e na baliza tínhamos Gustavo Capdeville e o Diogo Valério. Eram bons jogadores, mas foi muito na base da formação que trabalhámos".
A experiência na Arábia Saudita
Da Luz, Ortega voltou a casa e, "como estava parado", aceitou treinar o Burgos, do terceiro escalão do andebol espanhol, "mais para ajudar a equipa, aproveitando o facto de estar na minha terra", explica. Porém, no verão, a seleção da Arábia Saudita convidou-o e o espanhol partiu de novo, chamando Castro. "Contactei o João porque o conhecia bem e ele também trabalha com os guarda-redes. A seleção fisicamente não era muito forte. Jogámos com o Qatar, Japão e Iraque. Ficámos com os mesmos pontos, mas não nos apurámos pelo goal-average", conta o espanhol. Fomos para viver a experiência dos Jogos Asiáticos. São milhares de praticantes e 40 e tal modalidades,muito semelhante a uns Jogos Olímpicos, foi extremamente enriquecedor", afiança o português, prosseguindo: "A Arábia Saudita é um país muito complicado de trabalhar. Eles têm muito dinheiro, mas uma cultura muito diferente da nossa. Construir uma equipa fazer um bom trabalho foi muito difícil".
"Creio que tive covid mas não fiz o teste"
Estive doente com febre, dores de cabeça... Creio que tive os sintomas todos durante dez dias, mas não fiz o teste, ainda assim, julgo que tive covid-19", diz Mariano Ortega a O JOGO, deixando, de imediato, uma boa notícia: "Há mais de 15 dias que me sinto muito bem".
Num país onde o novo coronavírus tem sido particularmente dura (188,93 infetados e 19 613 mortos), Mariano comentou: "Tem sido um momento muito mau, sobretudo em Madrid e na Catalunha. Foram dias e dias a anunciar 600 ou 700 mortos. É muito duro, mas há que olhar em frente. Temos de trabalhar para o futuro e eu tento ter uma rotina diária, com horas de comer e dormir. Falo mais agora com familiares e amigos do que durante toda a vida. E vejo alguns jogos de andebol, alguns como trabalho e outros como adepto."
O prazer de treinar o incrível Hombados"
O terceiro projeto que juntou Ortega e Castro é em Guadalajara. "A competição em Espanha é muito igualada. Tirando o Barcelona, há quatro ou cinco equipas muito fortes, Ademar León, Bidasoa, Logronho, Cuenca e Granollers. Há muito equilíbrio, custou muito no início do campeonato. Depois de um par de jogos bons, subimos ao sétimo lugar da classificação, tendo nós o terceiro orçamento mais baixo da liga Asobal", reflete o antigo treinador do Benfica. "Agora estamos há mais um mês parados e vamos ver se a Liga acaba", diz ainda, sabendo que para já a intenção... existe. "
O clube quis mudar de projeto e investir em jogadores mais jovens e, como o Mariano já tem a fama de lançar atletas novos, como o Alex Dujshebaev [Vive Kielce] ou o Jorge Maqueda [Pick Szeged], que com ele subiram muito de rendimento e saíram do Aragón para o estrangeiro, escolheram-no", explica João Castro, que na nova aventura se entusiasma com uma verdadeira lenda viva do andebol espanhol: "Estou a gostar muito desta experiência. Desde a faculdade sempre me interessei pelos guarda-redes e aqui estou a ter a oportunidade de trabalhar com o Hombrados [campeão do mundo em 2005, tendo 241 internacionalizações e ganho quatro Ligas dos Campeões, a primeira pelo Teka de Santander, frente ao ABC], que tem 48 anos e ainda joga, mas joga mesmo. Ele vinha a fazer médias de 30 e tal por cento de eficácia. Aliás, no último jogo, antes da paragem, defendeu 53% dos remates contra o Sinfin, do Jorge Silva".
