
São Silvestre do Porto em 2018
Fábio Poço/Global Imagens
Jorge Teixeira perspetiva a 26.ª edição da S. Silvestre do Porto deste domingo, explica a aposta em portugueses, em detrimento de atletas africanos, e confessa que gostava... de alinhar
A organizar corridas há 25 anos, Jorge Teixeira, diretor geral da Runporto, falou a O JOGO das opções que foi tomando ao longo das épocas, revelando o desejo de um dia ir no pelotão de uma corrida sua.
A S. Silvestre continua a ser a mais famosa das suas corridas, a mais especial?
É a menina dos meus olhos, foi com ela que nasci como organizador e um dia cismei que haveria de realizar uma corrida de atletismo. Na época, só havia duas S. Silvestres em Portugal, a da Amadora, que ainda existe e, para mim, continua a ser a mãe de todas em Portugal; e a dos Olivais. E apareceu então a S. Silvestre do Porto, agora a maior do país.
Houve anos com domínio de africanos e agora aposta em portugueses. Porquê?
Durante alguns anos - e foram bastantes -, apostei em atletas africanos. Eram dez a 12 africanos de altíssimo gabarito. À medida que o nosso atletismo começou a emagrecer de valores, se trouxesse africanos os prémios não sobrariam para os portugueses e teria de ter mais dinheiro para compensá-los com cachês de presença, já que os prémios estariam praticamente todos entregues. Numa corrida com dez africanos, o português diria: "Vou ser o 11.º, não tenho hipótese nenhuma." Decidi privilegiar os portugueses, para tornar a S. Silvestre legitimamente nacional.
Mas compensa investir em atletas africanos nas nossas corridas?
Na meia e na maratona, sim, porque só se conseguem vender internacionalmente se tiverem uma marca e, lamentavelmente, não existem atletas brancos para a fazer. Este é o cenário que se vive aqui e em todo o lado. Hoje, os mínimos da maratona são 2h13. Acho que neste momento não existem portugueses para correr nesse tempo. Se fizesse uma Maratona do Porto só com portugueses ou atletas brancos, teria um evento para 2h14, 2h15, 2h20... não tinha qualquer assunto. E só por isso é que se justifica ter africanos. A nossa maratona apareceu em 49.º lugar do mundo num ranking muito bem elaborado. Não tivemos dinheiro para ir à procura de um [Eliud] Kipchoge, mas tivemos arte e engenho para convencer muitos atletas a correr em menos de 3h00, 3h10, 3h30...
E outras caras conhecidas?
Em tempos, convidava figuras públicas para a Corrida da Mulher, mas comecei a perceber que não era por isso que as senhoras se inscreviam. Dou muito mais importância ao nosso trabalho, à opinião pública e à opinião de quem participa, esses são os nossos clientes. Não tenho nada contra convidar figuras públicas, se vierem são bem recebidas, mas não faz o meu género.
Nunca desafiou Rui Moreira a correr?
Acho que ele tem mais em que pensar do que em estar a treinar para correr a S. Silvestre do Porto. Gosto de o ver junto de nós, na meta, na partida. É aí que ele deve estar, pese embora haja presidentes de câmara que participam. Mas imagine-se que o dr. Rui Moreira decidia ir correr! Ficava muito contente, como é evidente.
E o Jorge Teixeira faria boa figura se também corresse?
Nesta altura, com a idade que tenho, já não faria boa figura. Mas devo dizer que vem-me sempre a ideia de um dia alinhar numa corrida minha e estar lá no meio do pelotão, porque nunca senti isso. Nunca senti o que as pessoas sentem. Tenho pena. Quem sabe, um dia...
"São Silvestre no dia 31 é impossível"
Com o turismo e os espetáculos musicais da passagem de ano, a S. Silvestre passou a ter no último domingo do ano a sua data ideal.
Ter atualmente a corrida a 31 de dezembro, mesmo com início pelas 16h00 ou 17h00, é impossível?
Completamente impossível. Há 25 anos, a realidade da cidade não era assim. Hoje temos o turismo e é muito difícil coabitar com esta realidade, que é muito boa para a cidade. E a passagem de ano não é igual ao que era; não havia espetáculos de música com centenas de milhares de pessoas.
Portanto, uma data como a deste ano é o ideal?
De há uns anos para cá, optamos sempre pelo último domingo do ano. Já passou o Natal, as compras, e não há tanto movimento. É o dia ideal para organizar o evento.
"Já não conseguimos ter muito mais gente"
Pela quinta vez nos últimos seis anos, as inscrições para a S. Silvestre esgotaram cedo. Pensar em aumentar as vagas representaria dificuldades logísticas.
Não é possível fazer, no Porto, corridas com mais de 20 mil pessoas?
As ruas não são tão largas assim, demoram muito tempo a escoar e começamos a ficar assustados com a parte logística. Já não conseguimos ter muito mais gente. Corremos o risco de um dia termos o primeiro classificado a chegar à meta e ter gente nos Aliados que ainda não partiu. Demoramos cerca de 26 a 27 minutos a escoar a Avenida dos Aliados e o primeiro classificado chega aos 29 minutos... Uma S. Silvestre de Madrid tem cerca de 50 mil participantes, mas estamos a falar de realidades e de espaços completamente diferentes.
