A mais dura lição da história: Portugal derrotado pela França no Europeu de andebol

Eva Manhart / Jure Erzen / kolektiff
Uma Seleção Nacional irreconhecível, para muito pior, bateu com violência e de frente com uma França de qualidade. Derrota portuguesa por 46-38
Três factos para começar: a França é a seleção mais titulada da história da modalidade - seis campeonatos do Mundo, quatro da Europa, de que é campeã em título, e três medalhas de ouro olímpicas -; este foi o jogo em que Portugal mais golos sofreu, não só na era de Paulo Jorge Pereira, que começou em 2016, como em todo o registo da equipa das Quinas pelo menos desde o Campeonato da Europa de 1994 - 46, contra 44, também da França (44-38), no Torneio de Estrasburgo, de preparação para o Mundial do ano passado; 40, da Dinamarca (40-27), no Mundial passado; e da Suécia (40-33), no Main Round do Europeu da Alemanha"24; e, em terceiro, as contas para o objetivo a que a Seleção Nacional se propôs, o quinto lugar, ou seja, a melhor classificação de sempre em Europeus (sexto, em 2020), ainda é possível.
Há, também, um outro dado relevante: este foi o encontro com mais golos (84) de toda a história da prova continental.
Péssima entrada, Portugal irreconhecível
O relato do pior jogo dos Heróis do Mar desde que o selecionador Paulo Jorge Pereira os assumiu, e batizou, deu-se cinco dias depois da melhor, ou, isso garantidamente, de uma das melhores atuações, quando venceram a Dinamarca, em casa dos escandinavos, por 29-31, no último encontro da fase inicial deste Campeonato da Europa.
A Seleção Nacional fez uma primeira parte horrível, em que parecia ter como meta acumular erros e não golos - totalizou 14 perdas de bola! -, não teve baliza, com Pedro Tonicher a fazer a única defesa desse período, cerca dos 20", a um remate de Melvyn Richardson, numa jogada de contra-ataque, e, no ataque, esteve sem ideias. Mas, pior do que tudo isto, os atletas não foram os guerreiros a que nos têm habituado. Aliás, aos 20"34"", no segundo time out - já havia pedido um aos 9-4 -, Paulo Jorge Pereira deixou tudo bem evidente: "Não estamos a ser nós, não estamos a lutar, estes não somos nós! Não importa perder por 50, mas temos de ser nós outra vez", avisou as tropas, isto numa altura em que o marcador assinalava 21-10. Ou seja, antes ainda da máxima vantagem dos gauleses (27-13), diferença de 14 golos, que voltou a verificar-se já na segunda parte, aos 33-19.
Pouco depois do desconto de tempo que assinalámos, o conjunto nacional passou a jogar em 7x6, fórmula atacante que repetiria no segundo tempo, mas sem qualquer efeito notório. O dia não era mesmo para os portugueses, que só esbateram diferenças porque, com o desafio ganho ao intervalo (28-15), os azuis regressaram a campo igualmente sérios, mas a jogar, digamos, a 80 km/h e não nos 120 km/h a que andaram até então.
Melhorias são enganosas
É verdade que Portugal baixou consideravelmente a diferença no marcador e, do máximo de 14 golos, perdeu "apenas" por oito (46-38), um parcial que não se verificava desde os 16-8, a meio da primeiro tempo.
Mas isso foi muito mais reflexo de uns atletas franceses mais relaxados do que de uns portugueses subitamente transfigurados para melhor. Ou seja, desengane-se quem pensar que a equipa subiu de rendimento. Não, apenas soube aproveitar algum facilitismo normal numa equipa que há muito tinha os dois pontos na mão.
Sinais de uma má primeira parte
Com apenas quatro remates falhados, a França bateu o recorde de golos ao intervalo (28) num jogo do Campeonato da Europa. Para esse registo contribuíram os guarda-redes portugueses, uma das mais evidentes debilidades da Seleção Nacional, pois nesses 30 minutos somaram uma defesa! Nenhuma equipa de alto nível pode ter estes números dos seus guardiões, atletas de um posto específico cada vez mais determinante no andebol. Antigamente dizia-se que eram 50% de uma equipa. Com o jogo cada vez mais veloz e um número de remates cada vez mais elevado... Outro sinal da primeira parte, Martim e Kiko Costa tinham um golo cada. Martim acabou com um, mas Kiko com quatro e continua a ser o melhor do Europeu, com 43 golos.
A figura | Salvador Salvador: golos, passes e ação defensiva
Outro dos "velhos conhecidos", mas ainda novo, com apenas 24 anos e dois clubes na carreira: Samora Correia e Sporting. Essencialmente utilizado em ações defensivas, conseguiu um roubo de bola e um bloco. Mas, no ataque, fez cinco golos em seis remates e seis assistências.
"Não tivemos ideias claras"
Selecionador nacional assumiu fraca eficácia. Treinador de Portugal, que viu a equipa que comanda a perder por 12 golos, continua a acreditar no quinto lugar do Europeu, ainda que saiba que agora "é mais difícil".
"A França foi muito eficaz e nós muito pouco eficazes na defesa e no ataque. Não conseguimos ter as ideias claras na forma de abordar aquele sistema defensivo. Quisemos fazer tudo muito depressa, como já aconteceu em outros jogos", resumiu o selecionador nacional, Paulo Jorge Pereira. "O sete contra seis permite ter uma recuperação defensiva melhor, porque só temos de trocar um jogador. E, mesmo que possamos não estar a fazer um ataque extraordinário, que não foi o caso, conseguimos resolver o problema da transição defensiva", analisou também, considerando evidentes as melhorias.
"Demos uma imagem completamente diferente na segunda parte do que é Portugal e do que nos tem habituado. Ao intervalo falámos de algumas soluções táticas, mas sobretudo do orgulho que temos de ter e da autoconfiança necessária para disputar jogos com equipas como a França, uma das mais tituladas do Mundo", disse, continuando a acreditar: "É mais difícil, mas assumimos na mesma o objetivo. Vamos ver as contas e o que vai acontecer nas outras seleções".

Iturriza: "O que podia correr mal, correu"
Victor Iturriza, que falhou o desafio com a Alemanha por castigo, abordou a pesada derrota perante a França. "Infelizmente não tivemos um bom dia e o que tinha para correr mal, correu. Na primeira parte não conseguimos fazer o nosso jogo no ataque e, na defesa, concedemos muitos golos aos franceses. Contra uma equipa como esta custa caro", lembrou. "Ficámos logo fora do jogo], ou praticamente fora, na primeira parte, a perder por 13 golos", reconheceu, declarando que "não foi o jogo que esperávamos fazer". "É muito difícil chegar às meias-finais neste grupo. Todas as equipas estão muito perto umas das outras, temos de fazer o nosso trabalho e tentar fazer bons jogos com Noruega e Espanha", terminou o antigo pivô do FC Porto, agora no Kuwait.

