
Queda do antigo internacional português no poço de um elevador em Benguela, a 31 de maio de 2008, só no passado dia 14 começou a ser julgada. O filho não desiste nem esconde o sofrimento
A 31 de maio de 2008, o treinador Carlos Alhinho, histórico do futebol português que fora o primeiro futebolista a representar os três grandes, sai do seu quarto no sexto piso para fazer "check-out" do Hotel Mombaka, em Benguela, onde negociou contrato para orientar o 1.º de Maio local. A morte saiu com ele e poucos instantes depois encontrou-o, aos 59 anos, no fundo do poço de um elevador daquela unidade. A queda acidental é a teoria mais encarada e a morte de Alhinho ganhou amplitude internacional, lançando ondas de choque em Portugal, Cabo Verde e Angola, países aos quais dedicou as partes mais substantivas da sua vida e carreira. Nove anos e meio depois, o filho do saudoso jogador e treinador clama por justiça e só na passada quinta-feira se iniciou o julgamento do processo colocado ao Grupo César & Filhos, detentor do hotel em questão. O JOGO ouviu Carlos Alhinho, filho, também ex-jogador, que desde Cabo Verde falou na esperança de que a justiça traga as explicações e responsabilidades que faltam apurar.
Ao nosso jornal, Kaíka, nome de guerra de Carlos Alhinho, filho, nos tempos de jogador, começou por estranhar o "timing" do início do julgamento. "Começou no passado dia 14 e eu estou em Cabo Verde. Fui avisado 15 dias antes, numa altura próxima do Natal, quando é mais difícil viajar para Angola, pelo que o julgamento decorrerá na minha ausência, mas tenho um advogado a tratar das coisas por mim", revelou, para contar o suplício provocado por anos sem respostas: "Tentámos sempre o diálogo e não entrar logo com processos e queixas. Era assim que o meu pai lidava com problemas. Na altura da tragédia, falou-se logo no pagamento de indemnizações, mas estava nesse dia com o corpo do meu pai, que foi trasladado para Cabo Verde, onde está sepultado, e não era assim que queríamos resolver tudo. Era necessário apurar responsabilidades. Na altura fechou-se o hotel, mas foi para inglês ver. Depois, remodelaram-no e foi reaberto. Fui a Angola e estive 12 dias para ser recebido pelo Grupo César e Filhos e só depois de dar uma entrevista à "Rádio 5" fui finalmente recebido, mas não pelo presidente do grupo, Armindo César, que não se dignou a estar presente. Depois, voltei a Lisboa... e nunca mais me disseram fosse o que fosse. Não houve outra solução que não a de avançar com uma ação em tribunal."
MP angolano "parou" nove anos
A inação da justiça angolana mereceu críticas de Kaíka. "O Ministério Público de Angola nada fez face a um crime público. Pela natureza do sucedido, teria de agir. Aliás, não tirou conclusões nove anos e meio passados sobre a morte do meu pai", contou o antigo avançado, que reclamou: "O irónico é que foi passada a ideia de que tudo foi tratado e saldado, o que não é verdade. Angola era para nós uma terceira pátria e só peço da parte de Angola para com o meu pai o respeito que ele sempre nutriu por aquele país e pelo seu povo."
