"Uma das mais pequenas nações do mundo conseguiu atingir o Mundial, é um sonho"

AFP
Seleção caribenha materializou o seu destino na Jamaica, alcançando algo difícil de imaginar quando tudo começou em 2011. A realidade fintou impossíveis. Gorré, que passou por Nacional, Estoril e Boavista, é um dos nomes sonantes da seleção que irá fazer história como país mais pequeno a fazer parte do lote de mundialistas.
Curaçau será certamente a maior atração do Mundial de 2026, a começar no seu esplendor caribenho, fulgor estreante e a proeza de ser o país mais pequeno e menos populoso a atingir a prova máxima. Os 150 mil habitantes vão rejubilar com a grandiosa consagração do futebol como espetáculo inigualável na profusão de culturas e sabores.
A paradisíaca ilha, que chegou a ter tutela neerlandesa, como Antilhas Holandesas, superou Cabo Verde na corrida pelo estatuto de sensação no Campeonato do Mundo, provocando uma avassaladora descarga de euforia entre os nativos e também na densa comunidade que se encontra nos Países Baixos. O paraíso estremeceu, até os animais endoideceram, o céu assumiu um impressionante jogo de cores e a terra, tocada pelos heróis da consagração, emanou um calor irrepetível. Curaçau ainda canta, o povo não esgota a dança...desde que foi arrancado o empate na Jamaica, decretada festa vitalícia até à viagem para o Mundial que junta três anfitriões: Estados Unidos, Canadá e México.
Na seleção treinada pelo experiente Dick Advocaat mandam os irmãos Bacuna, cintila o exótico Tahiti Chong, mas também segue como figura e peça indiscutível Kenji Gorré, atacante com desempenhos valiosos em Portugal, passando por Nacional, Estoril e Boavista, onde ganhou mais relevo. O extremo de 31 anos, que entretanto saiu do Bessa para jogar no Catar, e, agora, se encontra em Israel no Maccabi Haifa, ainda saboreia as emoções do feito, o derrube das probabilidades e a transcendência de um caminho até um excitante destino. "É um sonho transformado em realidade. Uma das mais pequenas nações do mundo conseguiu atingir o Mundial. Aquilo que era visto há uns anos como uma impossibilidade. Com Deus no comando e a nossa perseverança, nada é impossível! Tínhamos a crença, a mira e a fé, acreditámos que podíamos conseguir", confessa Gorré, 36 internacionalizações por Curaçau, desbravando todo o impacto de um espaço de eleição, bem como o contacto com as raízes, a partir de 2019. A capital, Willemstad, já sabe que vai parar nos jogos com Alemanha, Costa do Marfim e Equador, numa presença facilitada por uma competição alargada a 48 países, mas alcançada com mestria, recuando ao precário começo, que só aconteceu em 2011 com entrada nos palcos internacionais. As presenças na Gold Cup foram reforçando competências, também adquiridas com vários homens em destaque na Liga Holandesa. "Estávamos otimistas para o nosso duelo com a Jamaica, sabíamos que tínhamos de meter tudo dentro do campo. Ganhando jogos, passámos a acreditar mais, o sonho virar realidade foi algo que se aproximou. Nos Países Baixos começou também a reinar o pensamento de que podíamos chegar ao Mundial. Concretizou-se e foi incrível", saúda Gorré, retratando os aspetos mais substanciais e reveladores de memória que pede tela apropriada no salão de visitas.
"Representa tudo este momento! Quando começas a carreira, ou antes de jogares, os sonhos estão mais relacionados com a vida e, na cabeça de qualquer criança que goste de futebol, entra logo essa ideia de jogar um Mundial ou atingir os patamares mais elevados. São sonhos que, maioritariamente, não se transformam em realidade. De repente consegues atingir algo impensável. É extraordinário acontecer agora porque uma carreira passa depressa. Só agora começo mesmo a perceber que estou a viver algo real. Posso dizer alto a toda a gente que me qualifiquei para um Mundial e que o vou jogar", atira o avançado formado no Manchester United.
"Aposto num grande torneio. Estamos apurados o Mundial e isso coloca-nos perante outro nível. É tudo fantástico e mais o será quando começar, agora estamos perante um ambiente que produz esperança para a população. Somos o exemplo que tudo pode ser alcançado com determinação e fé. Mesmo uma ilha tão pequena pode subir tão alto e chegar ao topo do mundo. E não deixo de acreditar que podemos surpreender mais", garante, identificando a grande arma de Curaçau: "Temos muito talento na equipa, muita gente ainda subestimada, jovens cheio de fogo. Bater-nos custará muito. O grupo é difícil, mas vamos mostrar tudo o que valemos. Estamos desejosos de provar o nosso valor."
A Alemanha e o amigo Nmecha
Curaçau vai ter um Mundial de sonho, sejam quais forem os resultados. Gorré fervilhou ao imaginar jogos com Brasil, Portugal ou Países Baixos, mas já se confessa rendido à Mannschaft. "Estou muito excitado por apanhar a Alemanha, quatro vezes campeã do mundo. Tenho lá o meu grande amigo Felix Nmecha. Será incrível defrontar uma seleção tão histórica. Estou à espera de grandes jogos, pensando também na Costa do Marfim e no Equador. São muitas expectativas que se acumulam, vendo monstros no nosso caminho, como a grande Alemanha", argumenta o extremo, que carrega o orgulho de já ter defrontado a Argentina. O seu tempo na seleção ficou marcado cedo pela morte súbita do guarda-redes Jairzinho Peter.
A festa doce e o pai como treinador
Problema de saúde levou Dick Advocaat. Dean Gorré, pai de Kenji, assumiu Curaçau no jogo decisivo
Gorré não duvida do que está a viver, há uma consagração íntima que o deixa folgado e estimulado. "É o momento mais positivo da minha vida, sem dúvida alguma! Depois de jogar no Manchester United, da estreia na Premier League, atingir o Mundial nem dá para descrever. Foi uma celebração muito emotiva, tudo o que aconteceu no jogo na Jamaica tocou-me bastante, chorei, foi realmente algo de avassalador. Misturaram-se muitas emoções, muita coisa me passou pela cabeça. Só posso estar agradecido por esta grande oportunidade. Foi uma festa muito doce, muito rica, picante e cheia de açúcar. Não faltou animação, adorei tudo!", admite Gorré, contemplado ainda por uma festa em família, já que o pai, Dean Gorré, antigo jogador do Feyenoord, assumiu a equipa no jogo decisivo, por uma urgência que levou Dick Advocaat aos Países Baixos. "Foi outro sonho ser conduzido pelo meu pai no último jogo. Viver isto, chegar a um grande palco desta forma, ter o meu pai no banco, nos festejos, foi algo incrível. Sempre foi o meu treinador pessoal, fez-me crescer em todos os momentos. É outro aspeto que engrandece o que vivi."
Islândia e Cabo Verde atrás
Beneficiando de um fortíssimo alargamento de participantes, Curaçau ultrapassa a Islândia como mais pequeno país já presente numa fase final de um Mundial, no caso em 2018. E superado, dentro desse registo, foi também Cabo Verde, que havia selado apuramento mais cedo, destronando o estatuto europeu dos homens bafejados pelo fenómeno da Aurora Boreal.

