
Cláudio Braga com a camisola do Hearts
DPPI via AFP
ENTREVISTA - Cláudio Braga passou do quarto escalão do futebol português à luta pelo título de campeão na Escócia com a camisola do Hearts. Aos 26 anos, o avançado natural de Vila Nova de Gaia prova que, com trabalho, tudo é possível
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A sua história dava um filme. Concorda?
-Sim, é verdade, dava um filme (risos). Antes de chegar aos seniores, estava nos sub-19 do Rio Ave e praticamente não jogava, mas depois foi criada a equipa B e alinhei em praticamente todos os jogos.
Não jogava porquê?
-Por opção do treinador. Nunca fui daquelas grandes promessas e de seleção, mas sempre fui um jogador com qualidade. Tentei trabalhar mais do que os outros, mas nunca tive aquela perceção dos treinadores que eu era o jogador com mais qualidade da equipa. Depois acabaram com a equipa B e fiquei sem clube. Fui para o Valadares, mas ainda muito inexperiente e jogava com os seniores. Na altura, achava que devia jogar, mas olhando para trás percebo o porquê de não jogar. A meio da época fui para o Fátima e, entretanto, veio a Covid-19 e fomos todos para casa.
Como surgiu o convite do Ideal, equipa açoriana?
-No Fátima, tinha jogado contra o Ideal e o treinador ligou-me a dizer que gostou muito de mim e que queria que eu fosse para os Açores. Era uma boa oportunidade, até porque eles pagavam mais do que eu recebia no Fátima. Eu era um miúdo e ia receber o salário mínimo nacional. Foi muito bom, até porque até ali quase não tinha recebido dinheiro a jogar futebol.
A experiência correu bem?
-Foi uma experiência incrível. Estive lá a viver sozinho um ano inteiro e convivia com o pessoal da equipa. Eram praticamente todos de fora dos Açores. Desportivamente, quase descíamos, mas, no último jogo, garantimos a permanência com um golo quase no último minuto. Foi uma história de telenovela. Joguei bastante no Ideal, tal como tinha acontecido no Fátima. Realizei uma boa época e, aliás, no jornal O JOGO, no Campeonato das Oportunidades, numa rubrica sobre os melhores jogadores, o meu nome estava lá.
Depois da boa época no Ideal, apareceram convites?
-Fiz uma boa época, mas não surgiu praticamente nenhuma proposta. Surgiu o Vila Meã, do Campeonato de Portugal, um clube que não tinha muitas ambições, e fui um bocado frustrado. No início da época, os meus empresários disseram-me que podia treinar à experiência na Noruega, sem saber quanto ia receber ou até se ia ter casa. Na minha cabeça não fazia sentido, mas eles continuaram a chatear-me, a dizer que ia ser bom para mim. Como pensei que em Portugal ia ser muito mais difícil dar-me a conhecer, arrisquei. Lá fui para a terceira divisão da Noruega, para o Moss, e, no primeiro ano, fomos campeões, fui o melhor marcador da equipa e subimos à segunda divisão. Foi uma experiência incrível. Pensei que era nessa altura que ia aparecer algum convite da I Liga, mas o Moss estava a pedir algum dinheiro por mim e a única equipa disposta a pagar era o Aalesund, que tinha descido da primeira para a segunda. Fui para lá e era uma equipa muito mais profissional, com nível de primeira divisão, com um estádio de dez mil pessoas e uma estrutura boa. Já o Moss era um clube muito mais familiar.
É nessa altura que surge o convite do Hearts?
-Em dezembro de 2024, o Hearts mostrou interesse e eu pensava que ia em janeiro, mas não aconteceu e a minha cabeça mexeu bastante, porque eu queria ir. Em abril, comecei a ter conversas com o Hearts e o clube teve reuniões com o Aaselund. Senti que já era quase seguro. Correu bem e o resto é a história que se começa a conhecer.
Confortável como ponta-de-lança, mas joga a extremo ou a 10
Pode haver quem ainda não o tenha visto jogar, mas Cláudio Braga aceita o repto de O JOGO e apresenta-se. "Vivo para o futebol. Tento dar 100%, sou um jogador intenso e posso criar algo a partir do nada, tentando desestabilizar o adversário. Acredito que tenho qualidade para fazer isso e para dar intensidade ao jogo. Enquanto não estiver morto, não páro de correr", deixa claro, revelando que é a ponta-de-lança que se sente "mais confortável", apesar de exibir-se igualmente bem como extremo ou na posição 10. "Gosto de jogar com outro avançado ao meu lado, mas não tenho problemas em jogar sozinho", garante Cláudio Braga.

