"Se Cristiano Ronaldo vai chegar aos mil golos? Não acho que seja um objetivo"

Roberto Martínez e Cristiano Ronaldo
LUSA
Roberto Martínez, selecionador de Portugal, deu uma entrevista ao jornal espanhol Marca, que foi publicada esta terça-feira
Entre Portugal e Bélgica, teve uma série de 42 jogos sem perder em fases de qualificação: "É curioso. Tive muita dificuldade em adaptar-me ao trabalho de treinador da seleção. Vim de sete temporadas muito exigentes na Premier League, onde o treinador está sempre a pensar no próximo jogo. Como treinador de seleção é o contrário. O período de jogos é mais intenso do que num clube, mas depois há um espaço para reflexão, para olhar para trás e validar o trabalho. Por isso, impus uma exigência constante em todos os jogos. E é aí que acho que conseguimos isso, o que não é fácil. São quase cinco eliminatórias consecutivas entre Europeus e Mundiais."
Qual é o principal ponto forte da Seleção portuguesa? "A flexibilidade tática. Tentar diferentes aspetos táticos é fácil, mas executá-los bem é muito difícil. Isso tem a ver com a educação do futebolista português: eles são competitivos e adoram informação tática. Essa mistura permite usar diferentes formas de jogar, dependendo do que é necessário."
Trabalha com a geração de ouro do futebol português? "A melhor geração do futebol português é a de 66. Quando falamos em premiar uma geração, deve ser um grupo que conquiste um título, um aspeto que os diferencie. Temos jogadores excecionais com uma competitividade tremenda. O desafio é esse. Este balneário merece ser a melhor geração de sempre, mas isso não se dá. Isso tem de ser conquistado em campo."
Qual o valor da conquista da Liga das Nações? "Muito. A Liga das Nações tem vindo a melhorar até chegar a um ponto em que se tornou o torneio de seleções com o maior número de jogos (10). Além disso, é disputada ao longo de 10 meses, o que implica exigência e consistência. Na final four, Portugal venceu a Alemanha na Alemanha 25 anos depois e depois enfrentou a Espanha, a campeã europeia, pela primeira vez numa final. Não há jogos mais difíceis do que estes. Não tem o prestígio de um Europeu nem de um Mundial, mas o grau de dificuldade é muito elevado."
A chave para derrotar a Espanha: "A Espanha é uma equipa que exige muito, porque é preciso defendê-la em duas áreas muito diferentes: não se pode deixar que construa o jogo e, além disso, é preciso defender o ataque rápido ao espaço com Lamine e Nico. Tínhamos de estar no nosso melhor. Jogámos de igual para igual e fomos nós próprios. O que provavelmente nos deu a vitória foi que, do início ao fim, crescemos muito e chegámos muito fortes ao prolongamento. A entrada de Diogo Jota, Rafael Leão, Rúben Neves... ajudou-nos muito."
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Cristiano Ronaldo continua a ser indiscutível em Portugal, porquê? "A atitude. Há três pilares que analisamos constantemente: o talento, a experiência e a atitude que ele pode trazer para a Seleção. Essa exigência máxima que ele tem consigo mesmo para estar presente e ajudar é o que permite ao capitão da seleção estar sempre na lista dos convocados. Essa vontade de ser o melhor transmite-se em campo. É contagiante. 25 golos em 30 jogos a jogar como "9" demonstra que o que ele faz em campo gera muito para a seleção."
Cristiano Ronaldo nunca teve uma média de golos tão alta com outros treinadores: "A percentagem de que fala tem muito a ver com a mudança de posição dele. Estamos a falar de um jogador que começou por ser um extremo muito habilidoso e agora é mais um jogador de referência dentro da área. Nós vemos isso: Cristiano condiciona o adversário. Quando ele está em campo, abre-se outro espaço porque há dois jogadores que vão estar atentos à sua marcação."
Cristiano Ronaldo já marcou 955 golos. Chegará aos 1000? "Ele está num momento muito bom da sua carreira. E conseguiu isso porque vive o dia a dia. Quando fala dos seus objetivos, ele afasta-se muito do longo prazo: chegar aos 1000, jogar um determinado número de jogos... O seu segredo é ser o melhor hoje e aproveitar o dia a dia. Então, o número será uma consequência do dia em que ele decidir parar. Não acho que seja um objetivo."
Como é que a morte de Diogo Jota afetou a Seleção? "Foi uma tragédia a nível humano, social, que transcende o desporto. É gerida com naturalidade, respeitando que todos temos de passar pelo luto de uma forma diferente. No nosso caso, o balneário lidou com isso com um sentido de responsabilidade. O Diogo era uma fonte de positividade, sempre pronto para lutar. E um virtuoso: trazia intensidade, versatilidade, tinha golo... Era um jogador insubstituível. Ganhámos juntos a Liga das Nações e todos sabíamos que o sonho dele era ganhar o Mundial. Tivemos de aceitar isso. Ele deixou-nos a ideia de que na vida temos de aproveitar ao máximo e viver o presente. Essa mensagem é muito forte e já houve muitos sinais: no primeiro jogo na Arménia, marcámos aos 21 minutos, houve mais um minuto de aplausos aos 21 minutos e a Hungria marcou... Queríamos retirar o seu número, mas Rúben Neves, o seu amigo mais próximo, ficou com ele a pedido da família e, após 60 internacionalizações, marcou o seu primeiro golo. Levamos o Diogo como mais uma força. É aquela luz que nos faz lembrar que temos que dar tudo e aproveitar, porque há coisas que não podemos controlar. Ele era muito próximo e sempre teve essa preocupação em conectar-se com a comunidade. Tinha a sua escola de futebol na sua cidade natal. Foi um dos grandes embaixadores dos eSports de futebol. Dentro do balneário era muito humano. Tinha contacto com todos. Era adorado. Ele fazia-se querer, mas para ele o futebol era muito simples: era preciso dar tudo e acreditar sempre que era possível alcançar o sonho mais impossível. A sua carreira demonstra isso: o FC Porto, ir para o Atlético e não jogar, tornar-se uma lenda do Wolverhampton, ir para o Liverpool e ser, provavelmente, o único jogador que conseguiu abrir espaço entre Salah, Mané e Firmino... Ele tinha essa capacidade de tornar o impossível possível."

