
Rodrigo e Ricardo Ferreira
Leonel de Castro
Filhos de Rui Ferreira - treinador do Achnas - arrancaram diploma nos Estados Unidos, com avaliação de excelência, após licenciatura feita e carreira em clubes universitários
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Rui Ferreira deixou o seu legado na I Divisão com mais de duas centenas de jogos em clubes como Salgueiros, Gil Vicente, Vitória SC ou Belenenses, esperando ainda ter sucessores ao mais alto nível. Gémeos, de 25 anos, Rodrigo e Ricardo são os herdeiros do médio-defensivo, que virou treinador, tendo acabado de chegar ao Achnas, do Chipre. Os dois cumpriram um programa universitário nos Estados Unidos, que permitiu uma licenciatura em Administração e Gestão de Empresas, acompanhada de trajeto no futebol universitário, primeiro através de uma equipa de Oklahoma, depois na cidade de Rock Hill, na Carolina do Sul, perto de Charlotte. De regresso a casa, ao conforto do amor espinhense, matutaram carreira em Portugal ou novo capítulo envolto em sonho americano. Mediram ofertas, submeteram interesses e tiveram uma ligação em mente a um clube da USL, o segundo escalão, onde fervem expectativas na antecâmara da MLS. Nos últimos dias, Rodrigo e Ricardo, que treinaram algumas semanas no União de Lamas, deixaram cair nova viagem para longe, e aceitaram acabar a época no Alba (AF Aveiro), com a mesma garra e convicção que levou a diploma de licenciatura e desenvoltura social. As ambições desportivas que transcendem outros impulsos laborais. Reabre-se aqui o tempo na América.
"A oportunidade de ir surgiu pelo Romeu, adjunto do Rui Jorge, tinha lá um filho. Ele falou das condições, de como tudo era profissional e que, ainda, conciliavam os estudos. Fizeram-se os contactos, trataram-se de papeladas, e ainda fomos a um showcase em Lisboa com treinadores americanos. Foi a melhor opção tomada", garante Rodrigo, acelerando o retrato do alcance da experiência. "Foi incrível, deu para conhecer muita gente, a novidade foi sair de casa e ir para o outro lado do mundo. Se fosse sozinho, não ia ser tão feliz. Foi intenso entre viagens, treinos, aulas, com ginásio constante", descreve o trinco, metendo a bola no avançado Ricardo. Nestes gémeos não há rastilho de discórdia, jogaram juntos vários anos na formação do FC Porto, completaram essa etapa no Feirense e ainda foram seniores na Ovarense, antes do ousado embarque para os Estados Unidos.
"Falando em termos de futebol, ajuda sermos dois. A maioria dos golos que marco resultam de assistências do meu irmão, sabe onde vou estar e sabe onde meter a bola. Nem é preciso olhar", regista Ricardo, corroborado por Rodrigo. "Jogarmos juntos é uma mais-valia, há química e todos ficam a ganhar. Mas não é um pague um, leve dois!", brinca, acreditando que podem ter de tratar de vidas em separado.
Ricardo louva oito anos no FC Porto, que servem de "atestado de qualidade" para novas oportunidades. "Ficamos mais seguros e formados para o futuro. Saímos no momento certo, quando o Feirense acabou com o projeto sub-23 na altura do Covid".
Recuperando a posse, Rodrigo cimenta o raciocínio de jogo, relacionando dois polos de atração. "Podemos comparar onde estávamos a uma Liga 3, um campeonato intenso e físico, jogávamos duas vezes por semana com muito tempo útil de jogo, com paragens efetivas para hidratação, trocas, amarelos ou até quando a bola vai para longe", elogia, desfiando alicerces sólidos que deram conforto na experiência. No sentido oposto... a compreensão de algum esquecimento. "Os clubes em Portugal perderam o nosso rasto. Estávamos bem na Ovarense, ao concluirmos a formação, tínhamos algum moral. Nunca vamos saber se teríamos dado o salto. Numa perspetiva futura, foi o mais seguro de fazer". Rodrigo avalia a espera e disseca a ponderação. "Vamos ter de começar por algum lado. Temos de nos mostrar, em quatro anos muda muita coisa. Temos treinadores que nos conheceram que não fazem ideia de como estamos e, então, é só imaginar que nunca nos viu. Queremos a oportunidade de jogarmos ao mais alto nível. Pode ser a USL, o segundo escalão americano, ou cá uma Liga 3". Para conter a impaciência da espera, o Alba anima o animal competitivo.
Era como olhar para militares
Recebendo bola colada no pé, Ricardo assegura ser "hora de testar o valor". "Nos Estados Unidos é tudo mais físico, tranquilo e envolve outros salários. A MLS é um sonho! Também há menos pressão. Mas é bom jogar em casa e ter essa pressão de estádios cheios, de adeptos a falarem de ti. É algo que motiva", afiança, encorajado a bater de frente com rivais intensos. "Ganhei experiência contra americanos altos e fortes. Era como olhar para militares muito atléticos, foi bom para crescer. Tecnicamente também evoluí, na forma de pensar o jogo. Fomos ambos capitães, ganhando esse traquejo de controlar o grupo e ser influência para os mais novos".
"O pai como ídolo, ou Falcao e Pirlo"
Com o ADN de médio, interligado a uma herança de conhecimentos do jogo, aprendizagem de comportamentos, Rodrigo é quem fica mais próximo de Rui Ferreira, despachando qualquer propensão mais dura. "Éramos muito novos e já não o vimos jogar no melhor período. Não diria que ele era caceteiro, era taticamente muito bom, tinha boa chegada. Eu tecnicamente posso ser mais refinado do que ele, mas não tão forte defensivamente. Isso foi o que chamou a atenção e o deixou vários anos na liga", anota, espremendo a folha de serviços. "O meu estilo é diferente, é mais pautar o jogo, com mais calma, levando a equipa para a frente e também com bolas longas. Defensivamente, estes quatro anos nos Estados Unidos fizeram-me crescer muito em relação aos sub-19. Estou completamente diferente, mantendo a qualidade de pegar no jogo, mas adicionando uma postura defensiva mais sólida", resume Rodrigo. Como ponta-de-lança, Ricardo agarra outras influências do pai. "Eu diria que fui buscar o carácter, o espírito de querer sempre mais e ganhar de todas as formas. Fico chateado quando não ganho, alguma teimosia também, no bom sentido. Não sou tanto de atributos defensivos, compenso com virtudes na área. Transformei-me num avançado mais musculado, que protege bem a bola e aguenta cargas. Gosto de jogar rápido, através de combinações e entradas entrelinhas. Gosto de estar na área à procura da minha oportunidade". À parte do progenitor, Ricardo aprofunda outro ídolo. "Nos tempos de FC Porto, o treinador chamava-me de Falcaozinho. Eu tinha o cabelo comprido e o número 9 e a alcunha pegou um pouco", admite Ricardo, de pontaria afinada na estreia pelo Alba, ao marcar no empate com o Lobão.
Rodrigo agarra o mesmo exercício. "A minha referência era o Pirlo. Agora é o Vitinha. Lembro-me dos jogos entre os sub-12 e sub-13, onde estava o Vitinha e o Fábio Vieira. Ele sempre foi diferenciado. É uma delícia vê-lo".

Apoio familiar foi decisivo
O instinto foi de saída, de estruturação de estudos, mas também em casa a aprovação foi plena dos progenitores. Rui Ferreira, que acabou de sair para treinador no Chipre, no Ethnikos Achnas, que nunca jogara fora do país, percorrendo carreira na liga, deu respaldo suficiente para que a mudança não fosse aventureira. "O nosso pai e a nossa mãe foram os primeiros a dizerem para aproveitarmos a oportunidade. Que a parte académica era essencial para nos dar segurança futura. Desde o início puxaram muito para que isso acontecesse, também em função do que era o feedback que eles conheciam do Romeu. Nós também já tínhamos a convicção de que os estudos eram importantes", evidencia Ricardo, ciente que o "curso escolhido acaba por abranger uma área vasta, que passa por gestão, empresas, parte administrativa, marketing, permitindo várias saídas, até para futebol e imobiliário", por exemplo. "O nosso pai tem uma academia em Silvalde, até pode dar para trabalharmos todos juntos".
Dos quatro anos entre Oklahoma e Carolina do Sul ficam memórias de dias estafantes e bem preenchidos. "A nossa rotina era acordar de manhã, pequeno-almoço, treinar de manhãzinha, ginásio, almoço e aulas. Tudo dentro do Campus. Onde também fazíamos os jogos oficiais com infraestruturas de topo para 3000 ou 4000 adeptos. Depois, há espaços à volta para pessoas se posicionarem de cadeirinha. Conheci estruturas e relvados ao nível da I Liga".
Uma MLS na berlinda
Dentro dos diferentes retratos sociais da América, atrações e interesses, Rodrigo avalia o que viveu e o que gostava de viver. "Olhando aos dois anos na Carolina do Sul, adorei viver em Charlotte. Não sendo uma cidade costeira, está a quatro horas do mar, é bonita e tranquila. É uma cidade considerada de referência para negócios. Toda a gente em redor de Charlotte é jovem, é conhecida como cidade-rainha. É bastante agradável, levei lá os meus pais e adoraram. Se tivesse que escolher um sítio que aproveitei para conhecer, diria Florida. Fui jogar duas vezes a Miami e percebi as diferenças, o calor. E vi um jogo dos Miami Heats", explica Rodrigo.
Ricardo envolve-se na ânsia de conhecer um destino luminoso. "O desejo é a MLS, seja pelos salários ou pelos ambientes. Temos um rapaz que jogou connosco no Feirense, o Vargas, que é estrela no Charlotte. Fomos ver jogos da equipa e gritar por ele, porque a nossa faculdade estava a 25 minutos da cidade. Era um estádio com 77 mil lugares e 50 mil ocupados, uma atmosfera incrível, foguetes, animações, aviões. Ainda vimos lá o Messi jogar, algo parado, mas sempre que tocava na bola era um show".

