
O internacional português é, por estes dias, o "melhor alvo do mundo". De um mundo onde o Bem e o Mal dependem mais do preconceito com impacto mediático do que de factos.
Há muito que costumo comparar o Cinema com o Futebol para explicar as dinâmicas do segundo enquanto indústria do entretenimento. Há muito que o futebol envolve muitos milhares de milhões de euros mundo fora, que gera muitos milhões de empregos e que gera artistas nos relvados e nas televisões. O futebol tem um peso socioeconómico idêntico ao da indústria do cinema. Os jogos são como os filmes: puro espetáculo para quem compra bilhete ou paga conteúdos premium televisivos para o apreciar. Os futebolistas são estrelas do ecrã e do quotidiano dos adeptos, enquanto os treinadores respondem pela estratégia como o fazem os realizadores de cátedra de Hollywood, Bollywood, Cannes, Roma, Berlim ou Sundance.
E se sempre se escrutinaram, de forma muito popular, os vícios e virtudes privados das pessoas por detrás de nomes como Marylin Monroe, Errol Flyn, Robin Williams ou Philip Seymour Hoffman, atores cuja vida pessoal ultrapassou o interesse artístico na tela, também a vida privada dos jogadores está sob esse mesmo género de escrutínio popular. E é aqui que a porca torce o rabo...
"Tendo, por estes dias, em dar bem mais valor aos direitos cívicos que o mundo civilizado concedeu a Cristiano Ronaldo - ou a qualquer outro cidadão - do que aos advogados de Kathryn Mayorga"
Tendo, por estes dias, em dar bem mais valor aos direitos cívicos que o mundo civilizado concedeu a Cristiano Ronaldo - ou a qualquer outro cidadão - do que aos advogados de Kathryn Mayorga, cuja profissão, em 2009, era acompanhar os clientes vip num ambiente mais seletivo de discoteca, e que é a cidadã norte-americana que entendeu repisar um assunto "de cama" vivido entre ambos, do qual até já teria sido, digamos, ressarcida.
Como sobre os fundamentos do Estado de Direito não consigo dizer melhor do que o que vem escrito no blogue Blasfémias sobre este caso, cito Rui Albuquerque, o autor da prosa que podem ler neste link: "Primeiro: quem acusa, prova; segundo, quem é acusado tem de ter direito ao contraditório em, pelo menos, iguais circunstâncias de quem o acusa; terceiro, não pode haver crimes sem prescrição, isto é, em condições normais, o direito a agir criminalmente contra uma pessoa não pode ser eterno, sob pena de quem tem essa faculdade poder transformar a vida de qualquer um num inferno".
É que nisto de argumentos à medida de cada um, e olhando o país do lado de lá do Atlântico, posso sempre afirmar que mais depressa acredito no internacional português do que no "internacionalismo" galopante dos bons costumes do atual "american way of life", melhor dizendo, da nação que elegeu Donald Trump.
O paralelismo do cinema com o futebol é também argumentário da defesa da ex-relações públicas, que se socorre do movimento #metoo como inspirador da renovação da sua denúncia. A coisa parece bastante forçada, na medida em que este movimento surge no seio das estrelas femininas da sétima arte, que admitem ter-se sujeitado a práticas e/ou moléstias sexuais para subir na carreira. Ou seja, umas a contragosto, mas "tinha que ser para se ser estrela", outras verdadeiramente vítimas do machismo militante dos mais poderosos chefões da indústria de Hollywood. Não consta, porém, que Kathryn Mayorga quisesse calçar chuteiras num qualquer emblema galático...
1047490701137784832
Apenas o voyeurismo popular - este sim, um perigoso vício contemporâneo - quer saber quão sórdido pode ter sido o que, não há muitos anos, era um mero jogo sexual entre adultos. Há, claro, uma acusação tornada pública (não confundir com acusação pública) e com direito a procedimentos judiciais até à sua formalização pelas autoridades norte-americanas. Isto, na América, é hoje mais negócio do que necessariamente uma demanda por Justiça. O processo foi reaberto pela Polícia da Las Vegas. A procissão, para os fundamentalistas dos julgamentos mediáticos, vai no adro.
É triste que o Mundo se alimente destas novelas, que tem ingredientes de sobra para debates de todo o género, dos que fintam as regras da sanidade judicial. Era importante que o mesmo se mantivesse elevado e focado nos princípios da inocência até prova em contrário.
Faço esta reflexão num dia em que me passaram pelos olhos as linhas da escritora Maria do Rosário Pedreira no DN, onde nos conta como tentou convencer uma turma de alunos do 11.º anos de que a poesia não é um papão. Mas, como escreve, os interesses dos nossos homens do amanhã são outros: "Só quiseram saber quanto se ganhava com a poesia, se o trabalho que se tinha a encontrar rimas compensava e porque não passava eu a escrever em inglês, podendo assim vender livros em todo o mundo e receber mais dinheiro. Adeus, futuro".
Voltando à acusação de Kathryn Mayorga. Provas, até agora, só existe a assunção de ambos quanto ao ato sexual. Mas permito-me ajuizar que nos anais da História permanecerá a qualidade artística de Cristiano Ronaldo, a tal que tem feito dele, durante vários anos, o melhor futebolista do mundo. Kathryn Mayorga, na minha opinião, parece só querer renovar os anéis.
