"Míster, estive a ver um vídeo seu no YouTube. Eh pá, tinha grande cabelo... e pé esquerdo"

José Pedro
ENTREVISTA, PARTE II - Futebolistas da seleção de Timor-Leste ficaram bem impressionados com as imagens dos tempos de jogador de José Pedro. Numa resposta bem humorada, José Pedro disse aos atletas para assistirem aos vídeos dele no YouTube... se quisessem aprender alguma coisa. "Há um bom espírito e uma boa envolvência", conta.
Os resultados ainda não são recompensadores, mas José Pedro garante que a sensação de estar a representar uma nação já lhe dá, só por si, um forte sentimento de realização pessoal.
O que o José Pedro pode ter a ganhar com esta passagem por Timor?
-Para já, o facto de treinar numa seleção nacional e de representar um país, o que para mim foi um dos grandes motivos que me levou a aceitar este convite. Mas não olho muito ao que posso ou não ganhar. Tenho é de tentar dar o melhor de mim que me for possível. Saí de um contexto completamente profissional e entro num contexto completamente amador, mas faz parte da minha personalidade tentar dar o melhor possível, fazer o melhor possível, ir ao encontro do que as pessoas também pretendem e, principalmente, este presidente, que foi muito claro. Por vezes, surgem oportunidades e nós aceitamos ou não. Estou cá e estou contente de ter aceitado esta oportunidade.
Os timorenses seguem aqui os jogos da seleção portuguesa, de FC Porto, Benfica e Sporting?
-Sim, principalmente desses clubes. E também da Seleção. Vi os dois últimos jogos de Portugal em Timor.
Nota que há um sentimento positivo em relação a Portugal?
-Sim, muito. Pela nossa história e por haver uma grande comunidade portuguesa. Os portugueses chegam para trabalhar e tentar ajudar a desenvolver o país. Há um grande impacto dos portugueses.
Sente-se bem-vindo e acarinhado?
-Sim, sim. Onde vou, digo "bom dia", por exemplo, e eles dizem "bom dia". Mas às vezes dizem apenas "dia", "tarde", "noite", sem dizerem o "bom", falam muito assim. Então, quando chegamos a uma loja ou mesmo na rua, e dizemos "bom dia", eles atiram logo: "Português? Ah!", com um sorriso.
Ninguém o reconheceu dos tempos de jogador?
-Alguns jogadores acho que sim. Viram um vídeo que há no YouTube dos meus melhores momentos e um deles até me disse: "Professor, estive a ver um vídeo seu no YouTube. Eh pá, tinha grande cabelo... e pé esquerdo". E eu na brincadeira respondi: "Se queres aprender alguma coisa, vê esses vídeos" [risos]. Há um bom espírito, uma boa envolvência. E para os próprios jogadores, o facto de eu ser português também criou um bom impacto neles.
Como descreveria o jogador timorense, de forma geral?
-São muito disponíveis, bons tecnicamente e velozes. Os extremos, rápidos, são o ponto forte, na minha opinião. Já vi os Sub-17, os Sub-23 e todas as equipas têm jogadores muito velozes na frente, extremos tecnicamente bons e velozes. Acho que isso é o principal, apesar das dificuldades são muito disponíveis para o treino, o que para o treinador também é muito bom.
Calor de sufocar e tremores de terra
Além dos resultados, outros dois pormenores têm feito sofrer o treinador português: o clima e os sismos.
Que tal se tem estado em Timor?
-Muito calor. Pelo menos nestes meses em que lá estive, o tempo é sempre praticamente igual. Entre 30 e 35 graus... mas isto durante 24 horas. Dentro de casa, tem que se estar com o ar condicionado ligado, porque faz mesmo muito calor. O que, por outro lado, até se torna agradável, uma vez que não há chuva nem frio. Outra questão é que, desde que lá estou, já senti dois tremores de terra. É uma zona sísmica, entre a Indonésia e a Austrália... Senti-os por duas vezes e, numa delas, até estava ao telefone com a família. Mas faz mesmo muito, muito calor. Temos de treinar a uma hora que seja adequada para evitar as temperaturas mais fortes. Então treinamos às 17h00 para acabar às 18h30, porque depois disso também não há luz.
Não há luz?
-É verdade. No estádio onde temos estado a treinar, ainda não há luz elétrica. Treinamos num campo que foi feito há pouco tempo e ainda está a ser terminado. É por isso que a luz não está ainda a funcionar. Portanto, para também conjugar com o calor, marquei os treinos para as 17h00, sem esquecer que há meia dúzia de jogadores que ainda trabalham. Só depois de saírem do trabalho é que vão para o treino.
São muitos os jogadores da seleção que têm outras profissões?
-O que fiz foi pegar nas três ou quatro convocatórias anteriores e selecionar os jogadores que estavam há mais tempo no grupo e que, diremos assim, já faziam parte da seleção. Isto pelo meu desconhecimento do campeonato, da própria liga e da estrutura da Federação. Só mais tarde, com a convocatória, é que percebi havia alguns que trabalham.
