
Jean-Pierre Adams
Em coma há 39 anos por culpa de um erro numa operação, o ex-internacional francês que defendeu o Nimes, o Nice e o PSG sobrevive graças ao amor da mulher.
Improvável, desafiador e trágico. Assim foi e continua a ser o destino de Jean-Pierre Adams, o ex-central francês que fechou os olhos a 17 de março de 1982 e continua em coma desde então.
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O antigo craque de origem senegalesa foi vítima de um erro clínico e continua a respirar graças a assistência médica e à vontade inquebrável de Bernardette, a esposa que superou convenções para se casar com o jogador que se destacou no Nice, no Nimes e chegou ao PSG. Esta é a sua história.
Jean-Pierre nasceu em Dakar a 10 de março de 1948 e chegou ao Velho Continente pela mão da avó, uma mulher incansavelmente religiosa, numa peregrinação a Montargis. Na cidade conhecida como a "Veneza do Norte", Jean-Pierre foi adotado por um casal local e recebeu uma instrução ao tempo privilegiada para alguém com a sua origem, estudando num colégio católico. Apaixonado pela bola, o menino africano cedo se mostrou tenaz, dotado tecnicamente e conciliou os estudos com a prática de futebol em clubes amadores da região, enquanto trabalhava numa fábrica de borracha. O talento de Jean-Pierre era demasiado óbvio e o Nimes contratou-o em 1970, depois de o então avançado fazer furor no campeonato amador de França, que venceu por duas vezes ao serviço do Fontainbleau.
Foi em Nimes que o talento de Jean-Pierre se revelou ao mais alto nível e lhe foi descoberta a verdadeira vocação: a de defesa-central. Vice-campeão gaulês pelos crocodilos em 1971/72, o franco-senegalês conseguiu chegar aos bleus. Pela seleção de França, Adams formou com Marius Trésor a famosa dupla de centrais denominada "La Garde Noire". Já no Nice, Adams, manteve o nível e chegou em 1977 ao PSG - com os parisienses a na sua segunda encarnação e longe de serem a potência em que mais tarde se tornariam.
Antes, bem antes, porém, Jean-Pierre, um negro retinto, conquistou o seu maior título: conheceu numa festa uma jovem branca, de cabelo cor de fogo. Chamava-se Bernardette e com ela desafiou os preconceitos ainda existentes na sociedade francesa e a própria vontade da família da namorada. Numa França ainda a ressacar do movimento de maio e da crise estudantil do ano anterior que deixou Paris em polvorosa, Jean-Pierre e Bernardette casaram em 1969 e tiveram dois filhos, Laurent e Frédéric. Bernardette é, até hoje, o motivo para a vida de Jean-Pierre continuar.
Sem títulos de relevo, mas com notoriedade, o defensor ainda jogou pelo Mulhouse no segundo escalão e pendurou as botas de volta às origens, no futebol amador, ao serviço do Chalon, em 1981. Até que chegou o fatídico dia 17 de março de 1982.
Para tentar resolver um problema ligamentar num joelho, o ex-craque submeteu-se a uma operação no Hospital Édouard Herriot, em Lyon. Uma greve no "staff" hospitalar deixou aquela unidade com poucos recursos. Para a operação ao antigo futebolista foram escolhidos um cirurgião cansado e um anestesista inexperiente. Um erro deste último no procedimento provocou danos cerebrais severos ao paciente, deixando-o em coma.
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Em choque, o mundo do futebol solidarizou-se e a federação francesa conseguiu providenciar suporte financeiro à causa que Bernardette encetou junto da justiça. Após 12 longos anos na barra dos tribunais, o pessoal médico responsável pela condição de Jean-Pierre Adams foi multado e recebeu um mês de prisão com pena suspensa. A esposa que muitos - menos ela própria - mais consideravam viúva, conseguiu uma indemnização avultada, cuja soma nunca foi revelada.
Até hoje, Bernardette e o seu inquebrantável amor pelo marido partiram para a disputa de um jogo diário: o da espera pelo despertar. Depois de anos hospitalares, Bernardette conseguiu construir em casa as condições para ter Jean-Pierre a seu lado, numa cama adaptada. Dorme ao seu lado. Trata-o diariamente. Proíbe que lhe falem no termo eutanásia. Proíbe que sejam publicadas quaisquer imagens do estado atual do marido. Alimenta-o, veste-o e fala-lhe ao ouvido. O antigo defensor não move um músculo, não fala. Ouve e pouco mais. Muito pouco mais.
Mas Bernardette não perde a esperança. Na sua última entrevista, declarou: "É verdade que ele não tem melhorado, mas também não piora. Quem sabe? A ciência está sempre a evoluir e eu vou ficar à espera que possa fazer algo por Jean-Pierre."
