
Stepanenko, figura elementar do futebol ucraniano nas últimas décadas, avaliou a O JOGO a situação do país e os reflexos no futebol, ao cabo de quatro anos de agonia e morte
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Taras Stepanenko foi um dos jogadores fundamentais do futebol ucraniano nas últimas décadas, assinando 87 presenças na seleção, enquanto era médio e pilar do vitorioso projeto do Shakhtar Donetsk. Hoje, em fim de carreira, atuando na Turquia, aos 36 anos, o futebolista conta com esse distanciamento do país, que lhe confere maior segurança nos dias duros que teimam em assolar a Ucrânia, fruto da ocupação russa e dos ataques ordenados de Moscovo. "Não se resumem a quatro anos de guerra, tudo vem de 2014, nos últimos quatro passamos a lidar com uma invasão total. Agora vivemos um período muito crítico e difícil, um inverno que é muito pesado. Faz muito frio e a Rússia faz questão de destruir as nossas centrais elétricas. Eu estive em Kiev uma semana e vi a população sem nada, sem aquecimento, sem eletricidade e sem água. A eletricidade podes ter uma hora por dia, ou, se correr bem, quatro horas por dia. Sem suplementos de energia alternativa, não consegues aquecer, sequer, a comida", documenta, enfatizando "uma situação muito adversa", contrariada diariamente por um espírito inabalável. "Os ucranianos são fortes, lutam, ficam calmos e sabem como lidar com tudo. Não sei o que dizer da outra parte, de pessoas que destruíram vidas, casas, arrasaram tudo. O que pensam? Nada é aceitável. Posso afirmar que estamos no período mais difícil desde que a guerra começou".
O médio faz questão de desfiar a história, rebobinar a fita de um conflito, toda a cronologia conhecida, antes do avanço mais musculado e bárbaro, com um rasto atroz de sofrimento e devastação, com estimativas difíceis entre largos milhares de mortos.
"A Rússia começou isto muito antes, quando ocupou o Donbass e a Crimeia. É importante reter esse ponto. Há uma ocupação de terras nossas, mataram muitas pessoas, destruíram casas e negócios. Não sei quantas vezes a Ucrânia precisa de nascer outra vez para recuperar todas as perdas, se falarmos na parte económica", evidencia, entre desabafos e uma revolta que corrói o íntimo. "Mas o pior é que não recuperas vidas, e não morreram só soldados, morreram imensos civis. São quatro anos de mísseis, "rockets", bombas diariamente em diferentes partes da Ucrânia. Matam sem piedade. O mundo acompanha pelas notícias, mas nós, vivendo dentro do país, vemos isso todos os dias, muito perto. Sentimos que estamos a lutar contra quem não tem coração e não tem emoções. Não sei como conseguem dormir", lamenta Stepanenko, a defender as cores do Eyupspor.
Olha para o futuro ensombrado de dúvidas, forçando a esperança, mesmo quando tudo parece terrivelmente comprometido. "Espero que a guerra termine, que a Ucrânia a vença e que as pessoas obtenham a paz nas suas vidas. Mesmo sabendo que não vamos recuperar do que ela nos fez, das perdas que nos causou, da luta que implicou", sustenta o jogador, que venceu 10 ligas ucranianas pelo Shakhtar, reconhecendo que o futebol é uma parte pequena num drama de tanta gente, uma preocupação fugaz ou acessória.
"Estamos num momento crucial para salvar a independência da Ucrânia, temos de lutar por todos os lados. E vejo o desporto como mais uma luta, junto da política e da economia. Vendo o estado do futebol depois da guerra ter começado, vemos hoje o nível a subir novamente, algumas pessoas a investirem nos clubes, tentando atrair novos jogadores. Temos bons jogadores de fora a chegar e jovens ucranianos a saírem para bons campeonatos. Isso tornará a seleção mais forte, porque existe muita gente na Europa, em boas academias europeias. E a nossa liga está competitiva", explana Stepanenko, admitindo um "bom futuro em perspetiva". A esperança com o Mundial e as campanhas europeias dos gigantes ucranianos também adoça o retrato. "Já conseguimos disputar um Europeu em guerra, temos a oportunidade deste Mundial. Vemos bons jogadores a chegarem a melhores equipas. O bom exemplo do Benfica com Trubin e Sudakov. Tudo isto é importante para a Ucrânia, envia-nos mensagens para toda a parte, e continua a mostrar-se o que está a acontecer no nosso país, sejam entrevistas ou reportagens. Esperamos sempre que o nosso esforço seja reconhecido nos vários cantos da Europa, pois todos deviam ajudar a Ucrânia, somos uma barreira de todo o continente", expressa a O JOGO.
Desporto ucraniano esconde-se das bombas
Assinala-se hoje a passagem do quarto ano da invasão em larga escala da Ucrânia, atacada com enorme violência pela Rússia durante um período que equivale a um ciclo olímpico. O desporto, naturalmente, não escapou às devastadoras consequências de bombardeamentos e ocupação. Ao fim de 1 460 dias desde o início da guerra, outros números - que não impressionam mais do que os nomes a eles associados - revelam a brutalidade de um conflito que a Europa não vivia desde a II Guerra Mundial. Dados ucranianos apontam para quase 1 000 instalações desportivas danificadas ou totalmente destruídas e registam-se mais de 650 mortes de atletas e treinadores federados, muitos deles na frente da guerra. Ainda assim, nos Jogos Olímpicos de Inverno"2026, que terminaram anteontem, a Ucrânia fez-se representar pela maior comitiva desde a independência, em 1991.

Trubin, Sudakov e a dura logística
A luta dos principais clubes ucranianos para que o país não perca capacidade e poderio na Europa é outra imagem vincada de resiliência e resistência. "Temos as nossas equipas organizadas para competir lá fora, como o Shakhtar e o Dínamo Kiev. Já têm alguma experiência em organizar-se e tratar da logística para competirem na UEFA. Mas é uma vida difícil: viaja-se de autocarro ou comboio muitas vezes para outros países europeus. Pode-se viajar dez horas, depois ainda há o regresso. Não é fácil, apodera-se o cansaço dos jogadores e os resultados deixaram de ser tão bons na Europa. Mas é passo a passo: o Dínamo e o Shakhtar jogam bom futebol e tentam fazer o melhor", conta Stepanenko.
"O Shakhtar voltou a reforçar-se com muitos sul-americanos, como fizera no passado, e está a produzir novos talentos", confidencia, antecipando ainda a necessidade "de um investimento na formação". "Temos o Trubin e o Sudakov como referência, titulares numa grande equipa europeia como é o Benfica. Seria benéfico ver mais nas grandes ligas, porque temos jogadores fortes, com ótimas qualidades, taticamente inteligentes e organizados", realça.
A sugestão "horrível" da FIFA
Stepanenko, ainda se confessa incrédulo com as intenções da FIFA em quebrar a suspensão do futebol russo das provas internacionais. "Foi uma sugestão horrível e profundamente errada. Quem lançou esse tópico não percebe o que está a acontecer e talvez precise de visitar novamente a Ucrânia. Não faria mal ao presidente da FIFA visitar algumas cidades como Kharkiv, Sumy, Chernigiv, Zaporizhzhia, Dnipro, Mykolaiv e Kherson. Compreenderia como foram erradas essas declarações".

