"Consigo jogar num dilúvio, com 45 graus, em relvados com 20 centímetros ou numa equipa em que ninguém fala inglês"

Mauro Jerónimo
ENTREVISTA, PARTE II - Experiências no estrangeiro deram bagagem para triunfar, mesmo nos contextos mais adversos. Mauro Jerónimo pretende cimentar-se como treinador de I Liga para tentar depois subir um patamar, seja na Europa ou na Ásia, onde é um nome reconhecido. Sonho da Liga dos Campeões já foi cumprido.
Extremo habilidoso, Mauro Jerónimo trocou o Santa Clara pelo Vitória de Setúbal ainda com idade de júnior. Uma grave lesão acabaria por lhe ceifar o sonho de ser jogador profissional, abrindo, no entanto, outras possibilidades: a universidade e a perspetiva de ser treinador.
Como se iniciou no mundo do treino?
-A minha primeira experiência foi nos juniores do Vitória de Setúbal, como adjunto do Quim, mítico central do clube. Estava lá o Ricardo Horta. Parei de jogar com 21 anos, porque sofri uma rotura dos ligamentos cruzados; ainda tentei voltar, mas percebi que o meu nível já não ia dar para fazer carreira. Aos 23 anos entrei no Instituto Politécnico de Setúbal e mais tarde fui para as escolas do Benfica e depois para o Pinhalnovense, como adjunto do Francisco Barão, antigo jogador do Sporting. Foi um amor à primeira vista, mas depois tive de ir ver na prática se tinha jeito ou não!
Tem entretanto uma passagem por Chipre e depois chega à China...
-Chipre foi através de um agente. Precisavam de treinadores numa academia e eu aceitei, estava à procura de expandir as minhas capacidades, tentar novas experiências. A China foi através do projeto do Figo, também numa academia. Comecei lá, fui conhecendo pessoas, mostrando o meu trabalho e depois recebi o convite do Fujian, onde tive a primeira experiência como treinador principal profissional. Foram dois anos de grande crescimento, até em termos pessoais. Tive de utilizar o staff local, do qual 99 por cento não falava inglês. Passado um ano já conseguia falar o básico para ter uma conversa em chinês.
Onde se vê a chegar como treinador?
-Nesta fase, quero tentar cimentar-me numa I Liga e continuar a progredir para campeonatos mais competitivos, seja na Europa ou na Ásia. Um dos meus objetivos era treinar na Liga dos Campeões - e agora já estive na asiática - e mais tarde num Mundial ou Europeu. Estas experiências no estrangeiro deixaram-me muito bem preparado para enfrentar qualquer cenário: consigo jogar debaixo de um dilúvio, com 45 graus, em relvados com 20 centímetros ou numa equipa em que ninguém fala inglês.
Tem encontrado muitos jogadores com o seu perfil?
-A minha principal caraterística como jogador era a técnica e a capacidade de drible. Hoje já não vejo muitos jogadores assim, de não ter medo de ir para cima, jogar com os dois pés... O futebol mudou um bocadinho, há menos jogadores com essas características.
Ganhar, mas com prazer
Mauro Jerónimo privilegia um futebol com elevada nota artística e garante que todos os jogadores agradecem essa postura
Os elevados registos goleadores das equipas de Mauro Jerónimo não são obra do acaso: o Nam Dinh marcou 18 golos nos cinco jogos sob o comando do treinador português (melhor marca nos últimos 20 anos). "O objetivo no futebol é ganhar, mas eu sou muito obcecado com a forma de ganhar. O futebol para mim é uma arte de expressão, de criatividade. Gosto de ganhar, mas com prazer: gosto que as minhas equipas vão para o campo entreter as pessoas que estão na bancada. O dono do nosso clube é multimilionário e a única razão por que está no futebol é para celebrar golos, e até tenho isto escrito no quadro: a minha filosofia é o "mais um"", revela, garantindo total aceitação por parte dos jogadores: "Eles adoram, rezam para que os treinadores sejam todos assim! Nunca senti nem um por cento de resistência".
Mourinho influenciou uma geração
Mauro Jerónimo tem duas grandes influências como treinadores: um português e um estrangeiro. "A primeira é o Mourinho. Penso que o é para a maioria dos treinadores portugueses. Foi quem passou da teoria para o campo com sucesso, como liderava, como ganhou tudo. As vitórias vêm com trabalho, podes ganhar à sorte de vez em quando mas não a longo prazo. E pela forma de jogar, o Guardiola: a criatividade, o nunca estagnar, todos os anos tira um coelho da cartola sem alterar a filosofia", indica.
Vietnamitas desafiam fisiologia
A capacidade de resistência dos futebolistas surpreendeu Mauro Jerónimo, bem como a qualidade técnica e mentalidade.
Quando chegou ao Vietname, Mauro Jerónimo encontrou uma realidade que o deixou impressionado. "O futebol vietnamita é muito agressivo, muito rápido, de muita transição. Os vietnamitas são jogadores muito velozes, com mobilidade muito grande sem bola e tecnicamente bons, e conseguem manter a intensidade de jogo por 90 minutos mesmo debaixo de condições climatéricas muito difíceis, com 45 graus - e aqui são oito meses de verão. Foi uma grande surpresa para mim, até porque vai um bocadinho contra as leis da fisiologia", salienta o treinador açoriano.
A "mentalidade forte" dos atletas locais acaba por ajudar também a disfarçar as deficiências em termos táticos e de entendimento do jogo. "A chegada de treinadores estrangeiros, e jogadores também, está a contribuir para mudar isso", indica.
Adjunto? Só com Guardiola
Passaram 11 anos desde que Mauro Jerónimo teve a última experiência como adjunto. Hoje, já não se vê a voltar a essa função... a não ser que surgisse um convite muito especial. "Se fosse o Guardiola a convidar-me, podia mudar de ideias! Já tenho a minha forma organizada de trabalhar, sei bem o que quero e vejo-me confortável nesta posição porque tenho ideias bem vincadas", assegura, admitindo ter o sonho de treinar na I Liga portuguesa: "Mas não me tira o sono. A Premier League, sim."
"Vietname é um dos melhores países para se viver"
Mauro Jerónimo chegou ao Vietname em 2019, após duas épocas a trabalhar na China, e rapidamente se apaixonou pelo país. "É possivelmente um dos melhores países para se viver. Está no topo no que respeita à segurança, na relação custo/qualidade de vida, é um país lindíssimo, tem montanha, tem praia, fica perto da Tailândia, das Filipinas. E as pessoas são simpáticas, respeitadoras, tentam sempre ajudar, apesar do inglês não ser perfeito. Vim com um ano de contrato e acabei por ficar até agora", salienta, assumindo a impossibilidade de dominar o idioma local. "É muito difícil. O vietnamita tem seis tons, a mesma palavra pode significar seis coisas diferentes dependendo da forma como é dita."
