"9-0? Foi a maior vitória da minha carreira, mas no fim quase que sentes que perdeste"

Mauro Jerónimo
D.R.
Mauro Jerónimo está há dois meses no bicampeão em título do Vietname e já viveu a situação mais insólita da carreira na Champions 2 da Ásia. O Nam Dinh estava obrigado a vencer por dez golos de diferença na última jornada da fase de grupos e acabou por não se apurar. O foco vira-se agora para a reputada Shopee Cup.
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A iniciar o décimo ano consecutivo a trabalhar no futebol asiático, Mauro Jerónimo enfrenta o maior desafio de uma carreira já com vários capítulos, apesar de ter apenas 38 anos. O Nam Dinh é bicampeão em título e resolveu apostar no treinador natural dos Açores para tentar endireitar o barco após o terrível início de temporada.
Soma cinco vitórias, um empate e apenas uma derrota em sete jogos, entre as quais um triunfo por 9-0 que... ainda assim não chegou!
-É daqueles jogos que só acontece uma vez na vida. O adversário era fraco, mas na primeira volta só tínhamos ganho 1-0 em Hong Kong. Tínhamos os mesmos pontos do Ratchaburi, tínhamos de ganhar por dez e esperar que eles perdessem por dois no jogo deles. A hipótese de passarmos era muito pequena, mas tentámos uma coisa diferente para fazer mais golos, jogámos num 2x2x6, e a verdade é que correu quase tudo de forma perfeita, marcámos logo um golo com um minuto e meio de jogo e isso deu-nos um 'boost'.
Acabou por falhar o apuramento para a fase a eliminar da Champions 2 por um golo...
-É uma grande frustração. Foi a maior vitória da minha carreira e da história do clube, mas no fim quase que sentes que perdeste! Termos começado a marcar golos tão cedo criou uma aura de milagre, de crença na equipa de que era possível. Se o Gamba Osaka tivesse feito mais um golo ao Ratchaburi [ganhou 2-0], tínhamos passado.
O que o levou a aceitar o convite do Nam Dinh? Quais os objetivos que lhe foram apresentados?
-O Nam Dinh é o clube com maior massa associativa do Vietname, mas sempre foi um clube humilde, nunca teve grandes investimentos até aos últimos anos, o que permitiu agora ser bicampeão. O início desta época foi chocante - estava logo acima da linha de água quando eu cheguei, e ao mesmo tempo a disputar a Champions 2 e o Campeonato de Clubes do Sudeste da Ásia, a Shopee Cup. Foi uma surpresa quando recebi a proposta, o facto de arriscarem num treinador com a minha idade, que ainda não tinha tido uma experiência como treinador principal numa I Liga. A pressão é grande, porque neste clube o objetivo é sempre ganhar todas as competições. É uma responsabilidade maior nesta fase da minha vida e motiva-me imenso.
Está no Vietname desde 2019, com experiência como coordenador técnico, treinador de sub-19, treinador na II Liga e agora no bicampeão em título. Como surgiu a hipótese de ir para aí?
-Surgiu um convite através do Philippe Troussier, um treinador francês de grande currículo que na altura era o CEO do Chongqing Lifan, da I liga chinesa. Ele veio ver um jogo do Fujian, a equipa chinesa que eu estava a treinar, e gostou do meu trabalho. Entretanto veio para o Vietname como diretor do projeto do PVF, um clube que tinha das maiores infraestruturas da Ásia e trabalhava em cooperação com a Federação vietnamita para desenvolver jogadores jovens para poderem chegar à seleção A nos próximos seis, sete anos, e trouxe-me como assistente dele, para pegar nos sub-19. Depois acabei por treinar a equipa principal durante três anos e meio.
Qual o projeto mais aliciante que já aceitou?
-É este, sem dúvida. É um clube que disputa uma Champions, a Shopee Cup, que é uma espécie de Liga Europa para os países do Sudeste da Ásia, e que luta para ganhar tudo internamente, num país com 100 milhões de habitantes e onde as pessoas são loucas por futebol. Tenho um plantel com 15 estrangeiros, jogadores de grande currículo, como o Chadrac Akolo, um avançado muito bom, que jogou no Estugarda e foi capitão da seleção da República Democrática do Congo, ou o Percy Tau, internacional sul-africano que jogou na Premier League [Brighton].
