
Energia e uma vida plena de desafios calibraram a resistência. Atento a cada detalhe, acompanha a equipa em todos os jogos
Leia também FC Porto com uma passagem de ano como há muito não se via
Números poderosos e absolutamente improváveis. Nunca serão suficientes os elogios ou brindes para um presidente de um clube com 94 anos, que conhece as mesmas funções há 48 anos. Também a Galiza nos oferece um personagem de alcance incomparável. Vicente Carril é um histórico da Costa da Morte, onde o futebol entra pelo oceano e as ondas inundam os campos. Onde o futebol ganha contornos aguerridos, o amadorismo é celebrado com picardias e pujantes rivalidades, alimentadas por tormentos e vidas feitas no mar, entrelaçadas com dor e sofrimento, intempéries refletidas no jogo, charcos identitários e paisagens de cortar a respiração.
Contempladoras de devoção e muita tragédia. Joga-se futebol por amor na Liga da Costa, seja um Corcubion-Cee, um Boimorto-Esteirana ou um Fisterra-Muxia. Afundam-se as pernas num campo alagado, banhado pelo Atlântico, e suportam-se as rajadas por uma desesperada resistência ao solo. Uma lenda viva, uma mente arejada, com uma atividade que mete inveja a muitos jovens.
Vicente Carril não larga o seu Camariñas, que fundou em 1977, enriquecendo-o com resiliência e altruísmo, nunca vencido por qualquer desânimo. Quando o mundo descobria Star Wars, fascínio da Sétima Arte, ou os corpos suavam nas primeiras atuações dos The Clash ou dos Sex Pistols. Carril já era um nome marcante na Costa da Morte, presidindo a uma Comissão de Festas, sendo secretário da Confraria dos Pescadores, Diretor do Instituto Social da Marinha ou presidente de um casino, não esquecendo que lhe couberam julgamentos de menor importância na sua comunidade, enquanto juiz da paz. Sondado para autarca não se enamorou por essa luta, integrou-se, sim, na liderança do seu Camariñas.
Em conversa com o JOGO, ainda é um exemplo de lucidez e sabedoria, não fraquejando na memória, percorrendo a vida, imensa e absurda de vivências. "Depois de estudar, comecei a trabalhar como ajudante de eletricista aos 18 anos. De seguida, encarregaram-me de vender o peixe na lota. A partir de 1955 já pertencia à confraria de pescadores e a partir de 1964 exercia também funções de secretário no Instituto Social da Marinha, dos concelhos de Camariñas e Camelle. Fiquei nesse trabalho até à minha reforma. Mas se há algo que nunca me faltou foi o futebol. De pequeno já jogava no campo da Insuela", narra Vicente Carril, desbravando etapas que antecederam a sua dedicação ao clube local. "Presidir requer muita força de vontade, empenho e trabalho, tanto pela semana como pelo fim de semana. Acabas por passar menos tempo com os familiares próximos, são os que mais sofrem com a tua ausência", conta, valorizando feitos, estímulos e aventuras de uma viagem com 48 anos. "Hoje é inevitável a lembrança dos títulos, das taças ganhas, de termos jogado na Regional Preferente e na Primeira Regional. Mas diria que o mais importante foi a fundação do clube e a construção do campo. O campo da Insuela não podia ser mais utilizado e, então, eu e um grupo de amigos decidimos avançar para que fosse erguido um novo campo", explica, num episódio catalisador para o nascimento do Camariñas FC. "Foi doado um terreno pelas irmãs Patiño, e isso somado aos esforços do nosso presidente da Câmara e do nosso pároco, conduziu à concretização das coisas. Em 1977 acabo nomeado presidente do clube e assim sigo até hoje", declara.
Preenchido por décadas de labor, nunca perdendo inquietação e paixão, Vicente Carril é um eterno apaixonado, que não descola do prazer de acompanhar a equipa pelos palcos da Costa da Morte. Aos 94 anos tem essa missão omnipresente. "Sigo com energia e implicado em tudo o que diz respeito ao clube, reconhecendo que algo resulta mais complicado pelos avanços da tecnologia. Ajudo em tudo o que possa e assisto a todos os jogos, tanto quando somos locais como visitantes. E não deixo de tomar decisões. Já tive no clube o meu filho e hoje tenho o meu neto. Ambos guarda-redes", particulariza, decompondo aquelas que são características únicas da liga da Costa da Morte, onde a beleza envolvente desafia o perigo. O sucesso faz-se de nervo. "A gente que representa cada povo mergulha ardentemente na sua equipa, cada jogo mostra rivalidade com a terra vizinha. Por isso há sempre grande afluência de adeptos, que apoiam incondicionalmente o seu clube, nos bons e nos maus momentos. É um campeonato distinto por causa das pessoas", atesta um orgulhoso presidente do Camariñas.
"Noutros trabalhos sentia a responsabilidade das decisões. O futebol é algo de que gosto muito, entretém-me, e as decisões, melhores ou piores, não influenciam tanto economicamente as pessoas, porque não somos profissionais", aclara, livre de dívidas ou cobranças mais pessoais sobre o seu legado. Os 94 anos foram comemorados com a quinta Liga da Costa, saldo de 2024/25. "Fico feliz por cada um desses títulos, não esquecendo as taças, como também jogar na Regional Preferente e na Primeira Regional. Algo que não consegui foi ganhar a Liga Regional Preferente e levar o clube à III Divisão. Mas também nunca pensei muito nisso pelos gastos que implicaria", acrescenta.

"Camariñas é Vicente, não é substituível"
Juan Cabrejo é o técnico do Camariñas e um nome forte do futebol da Costa da Morte, recuperado por Vicente Carril para treinar a equipa. Foi um lateral profissional, que cumpriu vários jogos na II Divisão de Espanha, passando por Compostela, Elche e Eibar. Reencontrou a sua base e perpetua o encanto por um líder com magia, nostalgia e alegria. "O meu começo foi no Camariñas, ainda muito jovem e sem idade para jogar nos juvenis. Vicente falsificou a minha ficha para eu poder jogar", lembra. "Em idade juvenil comecei a jogar com os seniores e ficaram na minha memória duas conquistas seguidas da Copa da Costa. Acabei contratado pelo Compostela. Fiz uma vida fora de casa e voltei faz quatro anos. Ajudei a criar uma escola de futebol e Vicente pediu-me para treinar a equipa principal. Não podia dizer-lhe que não", confessa Cabrejo, cúmplice do homem que lidera o Camarinãs desde 1976. "É um gosto enorme estar ao seu lado. Apesar da sua idade, está pendente de todos os detalhes, não há dia que não te chame, por estar sempre com preocupações na cabeça. Quer que tudo funcione muito bem, é um exemplo de compromisso com o clube e os seus atletas", destaca, imprimindo força na veneração. "Camariñas é Vicente Carril. Não há pessoa que queira tanto um clube como ele. Obviamente, não é substituível e vai estar connosco enquanto tiver as suas forças. Todos estamos a contar que vão ser ainda mais alguns anos. Os 94 anos dizem muito da sua ambição de viver e do seu amor ao clube. É algo que torna a sua vida melhor, vai seguir assim mais tempo", evidencia. "Ele é histórico na Galiza, em Espanha e por todo o mundo. Não há ninguém que possa presidir a um clube durante 48 anos. Merece as honras maiores, é uma figura única e muito querida", acrescenta Cabrejo, pontuando na conversa um contexto da atenção social que Vicente Carril nunca deixou de empregar no seu comando com 48 anos. "Estamos a falar de um povo piscatório, onde os jogadores iam pescar para depois treinarem e jogarem. Vicente estava pendente do que necessitassem, ajudando-os em tudo. Um pai de muitos, um pai de várias gerações. Um jogador tem sempre a esperança de chegar longe, mas sendo de um local tão pequeno percebes o difícil que é sair da nossa zona. Com trabalho pode-se conseguir. Os contactos dele com equipas superiores ajudaram na minha saída para Compostela", revela, descrevendo o caráter amigo de alguém "realmente próximo, que se preocupa com os jogadores, as suas famílias, os seus empregados. É uma pessoa especial que todos estimam. Sabemos que, no futebol profissional, um presidente também tem outras preocupações..."
"Pinto da Costa é um dos lendários"
Vicente Carril é um homem da Costa, um galego reconhecido pela sua perseverança e amplitude de funções abraçadas na vida. Atento ao mundo, acompanhou o reinado de Pinto da Costa em Portugal, que durou 42 anos num clube de dimensão internacional. "Foi um presidente lendário, fez do clube uma potência nacional e internacional. Esse trabalho ficou à vista com os grandes títulos do FC Porto. Seguramente teremos parecenças na dedicação ao clube dos nossos amores. Mas não consigo falar muito mais, porque não conheço o seu caráter e forma de ser", atira o líder do FC Camariñas, recuando à criança, que um dia foi, espetador entusiasta, discorrendo as pinceladas de encanto que o futebol proporcionava.
"No meu tempo de menino não havia futebol federado, mas apenas futebol de rua. Na Costa da Morte não havia nada. Mais tarde, ganho uma admiração por um guarda-redes do Deportivo da Corunha, Acuña, e pelo avançado Pahiño, do Celta. No geral, por Espanha, outros ídolos foram Zarra (Athletic), César Rodríguez (Barcelona) e Sabino Barinaga (Real Madrid), compreendidos entre os anos 40 e 50."


