
Conquistou a Supertaça dos Emirados Árabes Unidos ao quarto jogo pelo Al Sharjah. Já se pode gabar de títulos em cinco dos 15 países onde trabalhou
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Aos 60 anos, José Morais é um devorador do mundo e um conquistador de títulos, encaixando em diferentes latitudes, sem constrangimentos nem receios. Forte a enquadrar-se, perito em estimular a mente para cada desafio, o técnico português, iniciado na academia do Benfica, que ganhou, mais tarde, outra reputação como colaborador estreito de José Mourinho, tem feito da Ásia uma paixão, entregando resultados por onde passa. Aconteceu, agora, nos Emirados Árabes Unidos, vencendo pelo Al Sharjah a Supertaça diante do Al Ahli, de Paulo Sousa, num emocionante 3-2, conseguindo somar troféus em cinco dos quinze países onde já trabalhou, à margem de Portugal. Com sucesso alcançado em passagens por Arábia Saudita, Irão e Coreia do Sul, ainda no norte de África, na Tunísia, também nos Emirados acaba de deixar a sua marca, estreando-se esta temporada no país. Acabado de chegar ao Al Sharjah, iniciara a época no Al Wahda.
"Foi uma vitória importante e feita em consciência, não tendo havido tempo para mudar muita coisa. Aproveitei para clarificar ideias e alinhar a equipa. Vi jogadores muito disponíveis e competitivos. Com clareza e compromisso, o tempo rende mais", explanou a O JOGO o último logro. "Foi uma curiosa final entre portugueses, mas dentro do campo isso desaparece rápido. Conta a exigência da competição e o respeito pelo jogo e rival. Do outro lado estava um grande treinador, um campeão, que admiro e respeito imenso", observou Morais, que se deixou viralizar em festejos cheios de ritmo, dançando para deleite de quem estava na bancada e para gáudio dos próprios jogadores. "Foi um momento genuíno, até porque as finais acumulam muita tensão e aquela foi uma reação emotiva e uma libertação natural. Foi também uma bonita partilha com os adeptos", assinalou o técnico, satisfeito pela experiência nos Emirados, de 21 jogos e 15 vitórias, contemplando dois clubes. "É uma liga a crescer, onde há ambição, competitividade e qualidade. Vários clubes disputam títulos e os resultados não são previsíveis. Estou positivamente surpreendido", regista Morais, descrevendo o seu arcaboiço além-fronteiras. "Não olho a estes contextos como exóticos, mas sim altamente exigentes. Estar em culturas diferentes obrigou a adaptar-me, a ouvir mais e a liderar melhor. Refletem resultados consistentes. Ganhei ferramentas que uso em qualquer contexto. Cresci muito na capacidade de decidir sobre pressão e em ambientes complexos", sustentou.

Confiança inabalável em Mourinho
José Morais foi um reforço da equipa técnica de Mourinho, quando este perdeu Villas-Boas como observador, iniciando o seu trajeto ao lado do "Special One" no Inter, seguindo-se Real Madrid e Chelsea. O regresso de "Mou" ao Benfica "traz exigência, atenção mediática e cultura competitiva". Acrescenta "ser cedo para balanços, embora a sua presença eleve o contexto, pois é o treinador português mais marcante de sempre. Só tenho palavras de gratidão e admiração."
Visão de um futuro em Portugal
Longe de Portugal há vários anos, arredado de oportunidades desejadas, José Morais não esconde que o seu país representa a sua essência como treinador, funciona como berço de afetos e mais cristalina realização. "As melhores oportunidades surgiram noutros mercados e fui escolhendo projetos exigentes para crescer. O futebol é global e Portugal segue fortemente nos meus horizontes, representa a minha identidade", afirmou Morais, que, depois de longo caminho no reino da águia, subindo escalões até à equipa B, orientou Estoril, Académico Viseu e Santa Clara, sendo esta em 2004/05 a última experiência dentro de portas. Morais viu a carreira levá-lo à Alemanha, Suécia, Jordânia, Arábia Saudita, Tunísia, Iémen, Espanha, Itália, Inglaterra, Turquia, Grécia, Ucrânia, Irão, Coreia do Sul e Emirados.
"Não é só fama, é estrutura"
Conhecedor da região, analisa os progressos do futebol no Médio Oriente. "A Arábia Saudita acelerou o processo por estar implicada num Mundial, mas os Emirados e o Catar têm projetos próprios e sustentáveis. O crescimento não é só fama, é estrutura, formação e organização", avalia, descrevendo a realidade dos Emirados: "Não faltam atrações, do Global Village ao Louvre (na foto), passando pela Fórmula 1, surf em ondas artificiais e grandes concertos. É uma região rica culturalmente e com elevada qualidade de vida. Valoriza-se a segurança, equilíbrio e contacto entre culturas."

