"O que se passou no Dragão foi extraordinariamente grave e revela uma cultura tribal"

"O que se passou no Dragão foi extraordinariamente grave e revela uma cultura tribal"
Miguel Gouveia Pereira

Declarações de Emanuel Medeiros, CEO da SIGA, esta quinta-feira, numa homenagem a José Manuel Constantino.

Por que razão este prémio foi entregue a José Manuel Constantino? "Porque traduz um sentimento comum partilhado pela comunidade internacional que a SIGA representa, as principais organizações e líderes que se batem pela integridade do desporto, era um reconhecimento justo e muito oportuno. Uma personalidade portuguesa, um líder cimeiro e que tem influenciado positivamente o desporto em Portugal, de quem se espera também um mandato muito positivo e concretizador e uma forma sentida e sincera e absolutamente justa de prestar reconhecimento pelos relevantes serviços prestados em prol da integridade do desporto, da afirmação dos seus valores e ideais e da agenda reformista que a SIGA protagoniza. José Manuel Constantino foi um líder que teve sempre ao lado da SIGA, desde a primeira hora e desde a fase conceptual, nunca teve dúvidas, nunca hesitou e nunca se inibiu de estar na primeira linha de um combate por estas causas que são tão determinantes e tão necessárias a um desporto cujo papel na nossa sociedade é cada vez mais importante. É apenas um reconhecimento justo, sentido e devido e merecido."

Acontecimentos recentes no Estádio do Dragão: "Ainda não tinha comentado o que se tinha passado, não me quero cingir a um jogo em particular. O que se passou foi extraordinariamente grave, revela uma cultura tribal que não é o melhor apanágio do desporto e do futebol, que não está à altura da posição que o futebol português conquistou no plano internacional. E essas condutas não podem ser de modo nenhum branqueadas, nem deixar de ser alvo de censura e repúdio. Não há ninguém no seu perfeito juízo que possa pensar de outra maneira. Não é apenas um jogo, tem havido no futebol em Portugal uma cultura de navalhada verbal, de destruição da credibilidade da reputação do bom nome e do que o futebol tem de positivo e que é necessário nos momentos difíceis em que estamos a atravessar, e esta cultura e este sentimento de impunidade não pode ser permitido. Temos de o dizer com frontalidade, não pode igualmente os problemas deixarem de ser confrontados e as soluções de serem debatidas. Felizmente que as soluções e as reformas estão à vista de todos, mas por circunstâncias diversas não se têm concretizado. Não creio que seja por causa do mau tempo ou de não termos dirigentes à altura. Também não creio que seja porque os adeptos querem que a equipa ganhe, independente de como, mesmo que signifique matar a verdade no desporto. Mas é óbvio que não tem havido vontade de resolver estes problemas. Esse é o desafio que o futebol em Portugal, como um setor que se quer respeitado, capaz de cumprir o seu papel na sociedade e na economia em tempos difíceis e tão adversos, o que se espera é decisão. Quer o futebol em Portugal refletir e merecer a confiança dos investidores e patrocinadores? A confiança dos operadores televisivos? A paixão dos adeptos? Quer ser uma escola e um exemplo para as gerações mais novas? Se sim, desafio os líderes dos clubes, das ligas e das federações a avançarem com as reformas que há muito a SIGA defende e eu pessoalmente defendo há mais de 20 anos."

Que tipo de reformas defende? "Não encontro desculpa para o facto para o facto de não existir uma 'Clearing House' que assegure a verdadeira efetiva e necessária transparência nos fluxos financeiros. Seja ao nível da transferência dos jogadores, seja no capital social das SAD ou direitos comerciais. Isto não é missão impossível, é alcançável. O que é preciso para que isso aconteça? E o que é preciso para que os dirigentes percebam que não é destruindo a credibilidade e reputação do desporto, do futebol em particular, que vão conseguir dignificar a sua imagem e reforçar o valor comercial e atrair fontes de investimento e receitas, que possam ser reinvestidos de novo no desenvolvimento da modalidade. Basta! Estou disponível para dialogar com todos, como sempre estive, sem exuberâncias, de forma sóbria. Mas sem intransigir em valores que têm de ser fundamentais, que estão em banho-maria à décadas e reformas que não oferecem dificuldades nenhuma, mas têm esbatido num conjunto de resistências que são apenas sinal de forma de alguma liderança que é necessário exercer, mas também de vontade. Esse é um problema que não diz respeito apenas a dirigentes, treinadores e jogadores, mas também diz respeito aos governos, a quem dirige o movimento desportivo e a todos os adeptos e todos os investidores, porque no desporto investem as suas expetativas, paixão e recursos financeiros. As expetativas precisam de uma resposta, que é se o futebol está disponível e interessado em imprimir essas reformas para que o sistema de transferências nacional e internacional possa ser um exemplo de integridade e transparência no qual todos se revejam, e esse é um repto que lanço às estruturas continentais e mundiais, ninguém está isento de assumir essa responsabilidade. É esse o apelo que faço e a expetativa, vou estar atento, o tempo está a correr e as coisas estão a pior e o futebol em Portugal ou na Europa ou no Mundo não pode ser determinado em função de primeiras páginas de jornais ou de escândalos de televisão ou rádio. O futebol tem de ser assumido de forma positiva e tem de andar para a frente. É isso que a SIGA defende."