Manuel Machado: "Voltar à I Liga? O mercado está aberto para inexperientes"

Manuel Machado: "Voltar à I Liga? O mercado está aberto para inexperientes"
Filipe Rodrigues Ferreira

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Depois de um desaire na Taça de Portugal, o Berço venceu todos os quatro jogos e é líder no Campeonato de Portugal. Manuel Machado é o homem do leme do jovem clube que já sonha com a II Liga.

Comandado por um dos treinadores com mais currículo do Campeonato de Portugal e do futebol português, o Berço lidera a Série B só com vitórias. Manuel Machado aceitou o convite dos vimaranenses no início desta época por ter ainda a "paixão e a energia necessárias" e depois de uma paragem que diz não ter sido benéfica.

"Porquê abraçar este projeto? Por estar na posse das minhas capacidades físicas e intelectuais, ter a paixão e a energia necessária para poder continuar esta atividade, que foi minha durante 40 anos. Depois da curta passagem pelo Arouca e pelo Moreirense, em 2017, optei por fazer uma pausa e não foi uma boa decisão. Portugal tem um leque de treinadores muito vasto e não estando ativo, a tendência era ficar sem mercado. Houve mercado internacional, de África e do Médio Oriente, mas projetos que apareceram, quer financeira, quer desportivamente, não eram suficientes para me fazerem sair do meu meio. Aceitei ficar dois anos parados e vim para o Berço, que é um clube liderado por duas pessoas que conheço há muitos anos. Já no ano passado me tinham solicitado, mas eu entendi não aceitar. Depois, com a insistência, acabei por aceitar o convite. É um clube bem estruturado e temos vindo a fazer o nosso dia a dia", refere.

Agora, lidera um emblema onde a experiência tem sido "agradável" e que tem dois objetivos para 2020/21. "Este campeonato está em remodelação. Temos um duplo objetivo para esta época. O maior é subir à II Liga, o menor é poder vir a integrar a III Liga, que inicia na próxima temporada. Ficando até quinto na poule, poderemos participar na III Liga. No final da época veremos em que posição acabamos e quais são os objetivos que temos pela frente", atira.

O bom momento da equipa explica-se pela conjugação de experiência e juventude no plantel, acredita o técnico de 64 anos. "Este é um projeto que não tem sócios e, sendo um projeto comercial, aposta, fundamentalmente, nos jogadores jovens. Tivemos cuidado para que houvesse experiência necessária para metermos essa mescla de experiência e juventude. Alguns jogadores com passado na I e II Liga, outros que conhecem muito bem esta divisão e outro grupo de jovens jogadores. No meu entendimento, os jovens precisam de referências que os ajudem a crescer em cada treino. Na conjugação desses fatores, temos um grupo equilibrado de experiência e irreverência. E nesta juventude há cinco ou seis jogadores com potencial de crescimento e que podem, a curto ou médio prazo, jogar profissionalmente", considera Manuel Machado.

No entanto, nem tudo é fácil durante a semana. A equipa, que não tem instalações próprias, joga num relvado, mas treina num sintético. "Não temos instalações próprias, há uma parceria com um clube local e é onde treinamos durante a semana. Os jogos são feitos no Irmãos Gémeos Castro [Complexo Desportivo em Guimarães], com excelentes condições, relvado, mas durante a semana treinamos sempre em sintético. Nunca temos oportunidade de fazer um treino de adaptação à relva."

Por ter sido criado em 2016, o Berço "pode não ser olhado da mesma forma" como outros clubes do campeonato, mas com "o trabalho e as vitórias", o respeito dos adversários está a ser alcançado, adianta.

Questionado sobre se ainda pensa em voltar a treinar na I Liga, o treinador de 64 anos diz que é um objetivo, mas difícil de concretizar.

"Há dois ou três fatores que predominam. Os currículos deixaram de ter valor; Depois, a experiência e a longevidade em vez de contribuírem para a valorização de um treinador, fazem o contrário. O mercado está aberto para inexperientes. São os treinadores com menos experiência que vão tendo as portas abertas; E o futebol, de uma maneira geral, está debaixo da influência de duas ou três grandes famílias que conseguem colocar os que estão debaixo da sua alçada. Não tenho empresário, nunca quis, e o meu currículo fala por mim, mas os resultados positivos valem muito pouco hoje. Tenho com certeza o objetivo de voltar à I Liga, porque continuo a obter os contributos físicos e intelectuais, mas estou numa posição difícil", explica.