
Paços de Ferreira
Carlos Carneiro
Formação do Paços de Ferreira tem mais de 450 atletas, entre masculinos e femininos, e é incutindo-lhes o legado pacense, que durante muitos anos esteve na elite, que se faz o dia a dia. Falta de espaço para trabalhar é o principal obstáculo de uma equipa dirigida por José Pinto, 47 anos, o diretor dos escalões de base dos pacenses. O sonho de uma academia continua bem vivo.
Leia também "Lucho González ligou-me para me convencer a ir para o FC Porto"
Se todos tivessem ido - o que nunca acontece nestes trabalhos -, seriam mais de 450 atletas na fotografia. Leu bem, 450, e estamos a falar do futebol de formação, masculino e feminino, do Paços de Ferreira. Mas foram mais de 250 e a alegria dos mais pequeninos, pela faixa dos quatro/cinco/seis anos era contagiante. Noite de frio, muito frio, mas sem a chuva que adiou esta reportagem por duas vezes.
"O nosso grande objetivo é formar jogadores para a equipa de futebol profissional. É com essa meta que trabalhamos, sabendo que este é um clube histórico, um clube de primeira liga e, por isso, a nossa meta é formar jogadores para o patamar mais alto do futebol em Portugal", comenta Marco Paiva, 38 anos, responsável técnico pela formação do Paços. "Neste momento temos o clube na segunda liga", constata. "Nós fomos habituados a isso, e eu já estou aqui desde 2010 e, maioritariamente, o clube esteve na primeira liga. Está agora a passar uma fase mais difícil, é notório. Mas tentamos trabalhar, dentro do que é possível, e colaborar com o futebol profissional, para que, em conjunto, embora o motor seja o futebol final, o clube consiga novamente chegar à primeira liga", expressa, em comunhão de ideias, José Pinto, o diretor para a formação, 47 anos, tendo começado a ligação ao desporto pelo hóquei em patins, jogando na Juventude Pacense. "Acredito que podemos dar um contributo importante para o clube ter cada vez mais e melhores condições e regressar e novamente à primeira liga", assinala.
O sonho de uma academia é viável
Como quase todos os clubes, as dificuldades ou são financeiras ou de falta de espaço para trabalhar. O Paços de Ferreira é um desses casos, sendo a segunda possibilidade a mais permanente, pelo menos, abordada. "Aqui temos três campos para treinar e estamos, fruto de um protocolo com um clube aqui do concelho, que é o Citânia de Sanfins, também a treinar lá diariamente para dar apoio e resposta a toda esta dimensão que temos. Mas, mesmo assim, não é suficiente, precisávamos de mais e melhor, de concentrar o espaço, é aquele sonho que acho que todos temos, que é o de ter uma academia", reflete José Pinto, para quem este é sonho a concretizar. "O clube está num processo de negociação, da possibilidade de entrada de investidores, de uma transformação em SAD, e isso, acontecendo, poderá levar este desejo a realidade, a criação dessa academia, porque iremos ter que passar da capacidade financeira para o fazer", assume, mas deixando uma achega importante: "Não tem que ser uma academia como nós hoje vemos em Braga, ou no Seixal, não é isso que estamos a falar, mas de algo que nos dê mais e melhores condições, concentrando todas as nossas equipas e permitindo que toda a estrutura, desde diretores, treinadores, departamento clínico, atletas, enfim, a toda a gente consiga ter melhores condições para desenvolver aquilo que é fundamental aqui, que é a formação".
A primeira adversidade, porém, também existe. "A questão financeira tem um grande impacto, o facto de o clube não estar na I Divisão faz perder um bocado de força comparativamente com outras equipas que foram crescendo nos últimos anos e estar na primeira liga é sempre diferente, mas nós resistentes e vamos lutando contar essas adversidades", assegura.
Uma estrutura muito bem alinhada
"Neste momento, juntando desde a escolinha de futebol, a estrutura de competição e o futebol feminino, são mais de 400, 450 atletas", confirma Marco Paiva os números acima referidos. "Como se coordena esta gente toda? Acima de tudo, com uma ajuda de um grupo de treinadores fantásticos que temos, que têm dado muito de si ao clube, para o projeto continuar a manter o nível e, se possível, crescer. Com essa dedicação deles temos a estrutura muito bem alinhada naquilo que definimos enquanto modelo de trabalho, de jogo das equipas, de perfil de atletas e o acompanhamento dos mesmos e aquilo que lhes podemos projetar para o futuro", explica.
"Nós continuamos a viver tendo como ambição de trabalho o Paços clube de primeira liga. O não estar criou-nos algumas dificuldades, mais a nível do recrutamento, da capacidade financeira para desenvolver o projeto", admite o responsável técnico da formação pacense, referindo: "Há uns anos, quando estava aqui como treinador [ndr: saiu em 2018/19, era técnico dos sub-17, e regressou em 2022/23], o Paços, a seguir, ao FC Porto, que é um clube grande, tinha uma estrutura mais desenvolvida. Hoje, temos estruturas à volta a crescer e, com isso, alguma dificuldade de acompanhar ao nível de infraestruturas, academias, mas no projeto e no desenvolvimento de atletas continuamos a trabalhar ao mesmo nível desses clubes e procuramos a ideia para os nossos atletas para um Paços de primeira liga".
Uma joia vinda da Guiné-Bissau
"O senhor Vladimir veio para Portugal da Guiné-Bissau com 11 anos, veio viver para Paços de Ferreira, à nossa responsabilidade. Ele era Sub-13 e depois, a partir daí, fez o percurso no clube, Sub-15, Sub-17, Sub-19 e, agora, o Vladimir, para além da sua vida pessoal, é um bom aluno, já está na equipa profissional, onde tem feito vários jogos na equipa principal e até já foi titular", apresenta José Pinto uma das joias do clube, acrescentando: "Como ele já é português, há quatro anos, já foi selecionado para Sub-17, já esteve em dois estágios".
"Tem sido bom, as pessoas acolheram-me bem, sempre me ajudaram, senti-me sempre como se estivesse em casa, por exemplo, o "presi" [José Pinto], o Marco [Paiva], as pessoas da formação sempre me ajudaram, nunca me faltou nada e isso é bom para eu crescer", é a vez de Vladimir Silva, 16 anos, falar. "Vou ser sincero, para mim ainda é um pouco [pausa]... Acho que não posso dizer que já estou na equipa A, para mim parece que é, não estranho, porque sempre tive o sonho de treinar e jogar com eles, mas parece que está a acontecer tudo muito rápido", atira, relativamente à projeção que já vai tendo, garantindo, estar "a aproveitar o máximo e aprender com eles".
Quando chegou, com 11 anos, Vladimir trazia muitas esperanças, mas nem tantas assim. "Imaginava um pouco disto que está a acontecer, sim, mas não tão cedo. Mas a verdade é que as pessoas do clube sempre me alimentaram essa ambição", revela.

Beatriz Ribeiro joga e treina aos 16 anos
Chama-se Beatriz Ribeiro, tem apenas 16 anos, é jogadora, treinadora e, como se não bastasse, revela uma maturidade imprópria para a idade. "Eu transmito-lhes a mesma coisa que me transmitiram a mim, que é a obrigação e o dever de honrar o símbolo que temos ao peito. De resto, é um orgulho representar o Paços de Ferreira e tento dar tudo de mim", espanta a reportagem de O JOGO. "A Beatriz é das atletas mais antigas do futebol feminino, que aqui em Paços tem apenas quatro épocas. Ela foi das primeiras a aparecer naqueles processos de recrutamento. É das atletas e das pessoas mais responsáveis do clube, ao ponto de ter confiado nela para ajudar num dos escalões de iniciação", confere José Pinto, falando em "dedicação, responsabilidade e humildade" para descrever esta menina. "Como o presidente disse, eu treino a equipa Sub-6 dos Castorzinhos, acho que estou a fazer um bom trabalho, e sim, creio que sou muito responsável e dedicada e já estou aqui há quatro anos", bola agora de Beatriz, explicando: "Eu acho que já era responsável, já tinha essa faceta, mas aqui no clube tudo isso se foi aperfeiçoando, ao serem-me incutidos esses valores".
Natural de Paços de Ferreira, como José Pinto, a chegada ao Paços deu-se através de captações. "Nunca tinha praticado desporto, fui convidada pela escola, através da antiga diretora, vim e fiquei. Logo na baliza? Sim, fui logo à baliza porque quis, como se costuma dizer, eu tenho dois pés esquerdos", ri-se. "Nunca tive medo, talvez no início, mas depois deixei de ter e nunca mais tive", termina, referindo-se às bolas que vão à baliza de que é a guardiã.


