Rui Borges e a ligação forte com o avô: "Eu adoro romã, como todos os dias na Academia..."

Rui Borges
Mário Vasa
Um ano depois de assumir o comando técnico do Sporting (foi apresentado a 26 de dezembro de 2024), Rui Borges deu uma entrevista à Sporting TV, divulgada esta quinta-feira
Disse a seguinte frase: "Se não ganhámos esta Taça [da Liga], é porque está guardado algo melhor para nós". Lembrou-se disso quando conquistou o campeonato e a Taça de Portugal? "Lembrei-me, porque foi algo dito com muita sinceridade e sentimento. Sou muito positivo. Tenho uma pessoa muito especial no meu avô, que já não está entre nós e com quem falo todos os dias, e esse foi um sentimento que parecia que ele me estava a dizer. Disse-o com um sorriso porque acreditava muito que íamos ser campeões nacionais, era o nosso objetivo e não ia haver nada, nem ninguém, que me ia fazer duvidar. Foi algo sentido e lembrado claramente quando vencemos."
O ambiente em Alvalade durante um jogo: "É maravilhoso, e ainda hoje tenho o mesmo sentimento. Se estiverem atentos, quando começam os jogos, olho em redor do estádio, porque mexe comigo. Sou muito sentimental e ver o nosso estádio cheio a cantar a nossa música é muito especial. Não há forma de o explicar."
Ouvir o hino da Liga dos Campeões: "São momentos que vão ficar para sempre. Eu nasci para o futebol. O meu pai jogava e eu não tive outro brinquedo que não a bola, porque era o que me deixava feliz. Cresci a ver o meu pai jogar, a querer ser como ele, chegar a profissional, entrar no campeonato português e nas competições europeias, a Seleção... Os sonhos de qualquer miúdo. Não consegui ser um grande jogador, mas é o desporto que amo. Um dos sonhos era poder estar na Liga dos Campeões, não pude como jogador e tive a oportunidade como treinador. É extraordinário alcançar mais um sonho de toda uma vida."
Ser campeão nacional: "Foi um sentimento de orgulho e o meu maior troféu é o orgulho dos meus, e assim vai ser sempre. Levantar o título fez-me acreditar que os meus estavam orgulhosos, felizes, por isso foi um orgulho."
Festejar no Marquês de Pombal: "Indescritível. Acho que já disse isso várias vezes. Toda a gente devia passar pelo menos uma vez nessa festa. É algo único e que nem conseguimos ter a verdadeira noção do que se sente ao longo do caminho até ao Marquês ao ver pela televisão. No Marquês também, o mundo verde à nossa frente, o som em si, as músicas do Sporting... É único mesmo."
Ganhar uma Taça de Portugal no Jamor: "Para mim tem um sentimento muito próprio. Como não fui um grande jogador, cheguei à II Liga, mas como joguei em escalões inferiores, o sonho era jogar contra uma equipa grande, a Taça de Portugal. Esse sentimento foi, se calhar, o que esteve lá mais tempo e a cada época que passava, porque era a única forma de enfrentar os melhores e pisar os grandes palcos. O sonho da Taça sempre foi alimentado, por isso foi muito especial. Era claramente um sonho estar no Jamor e desfrutar da final. Tem muito que ver com o meu passado e de olhar para a Taça como algo único. Único no sentido da palavra, mas espero estar presente mais vezes."
O discurso mais especial no balneário? "Lembro-me de um ou outro. Ainda na Taça de Portugal, lembro-me do jogo com o Gil Vicente, em Barcelos, em que fizemos uma primeira parte horrível, provavelmente a pior que fizemos. Fui um bocadinho mais agressivo no sentido de espevitar a malta e, felizmente, conseguimos ultrapassar o Gil. Foi um dos que mais me marcou. Talvez, também, o do jogo na Luz e outro com o Gil, em casa, para o campeonato, na antepenúltima jornada. Conseguimos o golo da vitória nos descontos e foi um discurso muito intenso da minha parte, e muito sincero, porque acreditava mesmo que aquele era o jogo do título. Não perguntem o porquê, mas sabia que ia ser difícil e disse à equipa que se ganhássemos íamos ser campeões. Tinha esse sentimento e acreditava que íamos à Luz, pelo menos, fazer um resultado possível."
Se deixasse de imediato de ser treinador de futebol, seria a pessoa mais feliz do mundo devido ao que já viveu e conquistou? "Claramente que sim. Sou muito feliz por ter esta oportunidade e agradeço todos os dias pelo que a vida me tem proporcionado nestes 44 anos. Esta vida proporciona-nos muitas coisas, a mim e à minha família, porque tivemos a capacidade de conseguir acrescentar algo à história do Sporting e ser campeão nacional. Faço o que amo e conseguir, a nível nacional, alcançar os troféus maiores deixa-me muito feliz e concretizado. Se deixasse de ser treinador, olhava para os jogos de forma feliz."
Acha que vai ser feliz no final desta época? "Muito! Até porque o grupo transparece e demonstra isso. O objetivo tem estar lá, porque se não falássemos [do tricampeonato] era sinal de que não estávamos tão ligados. Isso mostra a forma como estamos todos ligados num objetivo. Nós queremos muito e isso é claro. Queremos muito ficar na história do Sporting de forma ainda mais vincada."
Gestão do plantel: "Temos conseguido. Sou um treinador que acredita sempre em todos, mas eles também têm de dar resposta e têm-na dado. Todos têm tido oportunidades, têm correspondido muito bem e isso demonstra a força deste grupo, a amizade e a entreajuda que existe. É algo especial e diferente, sinto-o sempre na Academia, com todas as pessoas envolvidas no nosso dia-a-dia. Ninguém se acha melhor e todos sabem e sentem que são importantes, acreditam uns nos outros e revêem qualidades uns nos outros. Essa é a melhor forma de um grupo ser vencedor e por isso é que temos ganho tanto, e queremos continua a ganhar muito."
Muitas lesões: "Olho para os contratempos de forma positiva. É a oportunidade de mudar algo, de dar oportunidades a outros, de acrescentar algo ao grupo, até para o futuro, e de o tornar mais forte. Enquanto líder, compete-me fazer acreditar que todos são importantes e que têm muita qualidade, por isso é que estão no Sporting e são bicampeões."
Equipa responde, apesar das baixas: "É o melhor que pode acontecer: olhar e ver a equipa toda ligada e capaz. Mesmo quando falta alguém, para lá do que são a nível individual, acho que ainda dão mais um bocado para estar ao nível do colega que não está presente e jogam também por ele um pouco. Sente-se isso. É um grupo muito próprio."
Ligação entre equipa técnica e jogadores: "Acho que, se calhar, é o meu maior atributo ou o que me trouxe para o Sporting, até tão rápido. E volto a dizer que ninguém consegue nada sozinho. Claro que o treinador pode ajudar os jogadores a acreditarem, a serem melhores técnica e táticamente, mas o treinador precisa, primeiro, dos jogadores. Ponto. Para mim, isso é claro desde que comecei. Acredito muito em ouvir e não abdico do respeito. Eles sabem e brincam muito comigo, e eu com eles, mas o respeito está lá. Depois, quando a exigência é cem por cento séria, eles sabem que o respeito está lá. Sou muito de falar, ouvir, compreender, porque embora tenha de olhar para eles de forma igual, cada um tem a sua personalidade, um gosta de falar mais individualmente, outro gosta que lhe fale alto, um gosta que lhe dê um abraço, mas outro se calhar não tem tanto essa proximidade. Vamos conhecendo e adaptando para puxá-los ao máximo para o nosso lado, com sinceridade e sendo honesto. Estão ser humanos daquele lado e temos de compreendê-los. Quando comecei como treinador, tive a oportunidade de começar como adjunto e até em competições profissionais e não quis, porque achava que tinha personalidade para ser treinador principal. Cada um tem as suas particularidades."
O que é para si treinar bem? "Tenho de perceber que a atitude diária está lá. O foco, a concentração, a exigência e, depois, o jogo também demonstra isso. Treinar bem, neste patamar, tem muito que ver com a concentração e ouvir o que é pedido para o jogo, porque não treinamos tanto. Quando é possível ter treinos mais dinâmicos e intensos, o grupo é excepcional. Todos querem jogar muito, todos demonstram ambição e vontade de ajudar."
Equilibrar a vida pessoal com o cargo de treinador: "Tento muito ser equilibrado e ter tempo para mim, para respirar e para estar com a minha família, que infelizmente está longe. O meu filho joga e estuda, está longe, tenho a minha mulher perto, mas os meus pais e irmãs estão longe. Tento ser equilibrado no dia-a-dia. O treinador Rui Borges, entre as 7h00 e as 7h15, entra na Academia para treinar às 10h30. Tomo o pequeno-almoço lá e almoço lá. Depois, por norma, fico na Academia até às 16h30 ou 17h00 a falar com a equipa técnica. Também temos momentos divertidos e sou feliz porque tenho uma equipa técnica que me conhece muito bem e trabalha comigo há muito tempo, e estão bem cientes do trabalho de cada um. A competência não é minha, é de toda a equipa técnica. Há dias em que também vou almoçar a casa, mas tento equilibrar esses dois mundos, porque temos vida para lá do futebol e a família, para mim, é muito importante. Sou muito apegado aos meus pais, às minhas irmãs, ao meu filho e à minha mulher. Tento ser equilibrado até para aliviar o stress do dia-a-dia e da exigência de estar no futebol e no Sporting."
Ligação ao avô: "Deixa-me sentimental. Acredito que sim, que está orgulhoso. É uma pessoa muito especial e eu falo todos os dias com os meus avós, mesmo não os tendo presencialmente, infelizmente. O meu avô mostrou-me o que é dar valor às coisas. Não era de grandes posses e talvez por isso eu sou tão autêntico. Acredito que saio muito a ele. Pela sua forma de ser e de estar demonstrou-me o valor de pequenas coisas e não há nada que apague isso. Sou como sou também por isso. Antigamente as pessoas eram frias, mas comigo foi sempre um pouco diferente. Eu adoro romã, como todos os dias na Academia e ele, com um simples saco de romãs, demonstrava-me amor e carinho. Hoje tem esse significado para mim e lembro-me sempre dele. Quando somos mais velhos, cada vez temos mais a noção de que dizemos poucas vezes que amamos os nossos, e eu gostava de ter dito mais vezes ao meu avô que o amava. Nunca o disse muitas vezes, mas acredito que o demonstrei muito. Será sempre a minha pessoa especial. Ele era sapateiro, à antiga, e eu percebia o que era trabalhar a sério. Lembro-me bem do trabalho que ele tinha para fazer aquilo e, se calhar, para ganhar 500 escudos. O meu ser tem muito que ver com o meu avô."
Orgulho em ser de Mirandela: "São pequenas coisas que me lembram de onde vim e de onde sou. A malta pega muito no 'Rui de Mirandela' e eu não faço questão de dizer muito isso, só quando cheguei, mas tenho muito orgulho de onde sou. A coisa boa é estar sempre ciente de onde venho e do que me custou chegar aqui. Custou-me, acreditei e trabalhei muito. Agora, é reconfortante entrar na minha cidade e ver o sentimento geral, independentemente das cores clubísticas, de que todos querem que o Sporting ganhe. Isso deixa-me feliz, porque é o reconhecimento dos meus, da minha terra e que de alguma forma estou a dignificar. Pela negativa, a única coisa que não gosto é quando vão muito para a parte pessoal e tento relativizar. Sempre me ensinaram que a melhor forma de responder é com silêncio e trabalho, e isso tem falado por mim e pela minha equipa técnica."
Novo mote para 2026? "É difícil (risos). São coisas que saem no momento, não é algo pensado. Acredito que sou muito verdadeiro e transparente naquilo que digo e faço, porque é aquilo que me vem ao pensamento. Foram frases sentidas e muito particulares. Que nunca falte a atitude competitiva, porque o jogo está mais dinâmico e exigente, mas também porque é algo que nos identifica. Queremos muito jogar bem, demonstrar que somos bons e o grupo está de parabéns nesse sentido. Que 2026 seja, nesse sentido, mais um ano de muito trabalho, de muita exigência e muita atitude."

