
Braga
Miguel Pereira
Zoltan Gera, histórico do Ferencváros e autor de um golo a Portugal no Europeu de 2016, aborda O JOGO os pontos fortes do campeão húngaro e ainda recorda Moutinho e uma infância por caminhos tenebrosos
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Zoltan Gera foi um dos destaques húngaros do início do século, fixando 97 internacionalizações, mais de duas dezenas de golo no quadro magiar, incluindo um remate formidável no Europeu de 2016 no 3-3 contra Portugal, que o marcou como um dos mais velhos a marcar na prova, face aos 37 anos que exibia nesse resultado surpreendente diante do futuro campeão europeu em França. Hoje com 46 anos, esta antiga figura do Ferencvaros está expectante quanto ao jogo do campeão em título diante do Braga, numa eliminatória que abre portas aos quartos.
"Para ser honesto náo conheço muito o Braga, vi partes de jogos europeus. Conheço bem o futebol português e sei que o Braga está no contingente das suas equipas fortes, juntou-se aos tradicionais FC Porto, Benfica e Sporting. Assim sendo, será um normal favorito mas o Ferencvaros está a fazer um ótimo trabalho e pode fazer algum resultado incrível, que não seja assim tão inesperado", invoca, completando. "Não será um jogo fácil para ninguém, antevejo eliminatória equilibrada mas, tal como disse o meu amigo Lipcsei, foi preferível o Braga ao FC Porto", definiu Gera, que foi craque, igualmente, na Premier League, ao serviço do West Bromwich Albion e Fulham.
Já longe do campo de ação mas não deixando de sentir o Ferencváros, onde fez 231 jogos, o criativo entrega-se como analista do gigante húngaro, que luta internamente por novo título. "Tem uma ótima equipa com jogadores atléticos, sobretudo na sua parte defensiva. Dibusz, o guarda-redes representa uma grande parte da equipa, é éxcelente, o capitão e um jogador de seleção. Temos um central bem autorirário, que é o belga Raemaekers e outro rápido como o Cissé. Os israelitas Fani e Kanichowsky são muito importantes no meio-campo, o primeiro mais criativo, um clássico playmaker, é pequeno e faz grandes remates, o segundo mais como box-to-box, com muita energia, capaz de correr imenso, criar e marcar golos", elogia Gera, identificando ainda poderio na frente.
"Os extremos têm estado bem, o Josephj é um jogador rápido e o Yusuf está em boa forma a marcar golos. Ainda há 9 mais estático, o Kovacevic, que tem marcado golos do nada. Há ainda o jovem Gruber, que tem feito boa liga", destaca, valorizando a versão do Ferencváros na Europa. "A equipa muda peças, porque na Húngria os clubes recebem dinheiro da Federação para jogarem na sua liga com jogadores locais. Acabam por ser boas verbas, sendo, natural, que apareça na Europa com um conjunto mais forte. Os adpetos estão muito ligados à equipa, a atmosfera é eletrizante, há um grande trabalhos nas bancadas, o fator casa costuma fazer das suas", garante o antigo atacante, conhecedor da realidade dominante do 'Fradi'.
"Foi muito importante para mim juntar-me ao clube, o maior da Húngria, o que tem mais sucesso e é mais popular. Através do Ferencváros parti para Inglaterra. Fiz grandes épocas, duas passagens e um total de oito anos. Não era o meu clube de pequeno, porque nasci a duas horas de Budapeste. Mas ainda vi a expressão de lendas como Lipcsei, bem conhecido vosso. Foi um privilégio jogar com ele no clube e na seleção", conta.

Zoltan Gera
Dos mais velhos a marcar num Europeu... e a Portugal
Gera consolidou o seu percurso como estrela magiar entre 2004 e 2014, marcando os adeptos do West Bromwich Albion com 191 jogos e do Fulham com 120. "Estou orgulhoso desses dez anos em dois bons clubes. Quando és miúdo sonhas jogar as grandes ligas da Europa, especialmente a Premier League. Joguei com grandes jogadores, tive grande rivais. Como estou a falar para Portugal destaco o Filipe Teixeira, um jogador fantástico com que me cruzei no W.B.A.", vinca.
A história de Gera cruza-se em final de carreira com Portugal, marcando ele o golo inaugural do emocionante 3-3 entre as seleções no Europeu de 2016, quando a equipa de Fernando Santos parecia longe de poder vencer a prova. Gera tinha 37 anos e está entre os mais velhos marcar na competição. "Lembro-me bem desse jogo, que foi muito entretido. Quando és mais velho, perto do teu fim, ficas agradecido por ainda viveres grandes momentos. Ficou na memória esse jogo, foi um dos melhores golos da prova. Não direi que foi uma surpresa, Portugal ter ganho esse Europeu mas, seguramente, não estavam no seu melhor na fase de grupos. Depois fizeram grandes jogos e mereceram", elucida o antigo jogador, despertado pela memória de Moutinho, que segue como exemplo de longevidade.
"Conheço-o muito bem mas não consigo já associã-lo tanto ao jogo de 2016. Desse tenho mais presente o Bernardo Silva. Mas é fantástico que Moutinho ainda jogue, é donho de uma fabulosa carreira. Sei que ainda é uma das figuras do Braga", observa Gera, um nome lendário para os húngaros, que fez do futebol um lugar de salvação, já que a infância dos 11 aos 16 anos foi de alto risco, pertencendo a gangues e entrando numa espiral de perigos.
"É vérdade! Foi um caminho muito complicado, fiz coisas muito estúpidas durante quatro ou cinco anos e ainda era muito novo. Tive de parar o com o futebol, porque não tinha energia nem força face à vida que levava e o que fazia com drogas à mistura. Eram más influÊncias mas tive sorte e mudei a minha vida aos 16 anos. Encontrei Deus e salvou-me, voltei a entregar-me ao futebol, fazendo as coisas normais de um jovem. Dei a volta a um período muito difícil, se continuasse como estava, algo me iria acontecer. Feliz por ter alcançado o que alcancei, foi uma jornada inacreditável e hoje sou feliz com uma maravilhosa esposa e três filhos", conclui.

