
Khadim recordou a O JOGO o título do Boavista
José Magalhães
Naquele campeonato histórico, o internacional senegalês não teve oportunidade de jogar. Jaime Pacheco viria a escolhê-lo, mas para integrar a equipa técnica, pelo mundo fora.
Entre Taça UEFA, Taça de Portugal e campeonato, a época 2000/01 do Boavista teve 45 jogos, dos quais 33 para dar a Portugal um vencedor inédito na liga principal, e Khadim Faye, assistiu a todos eles sem tocar na bola. Viu William ceder a titularidade a Ricardo e este a emergir para "uma das melhores épocas" na baliza axadrezada, que o precipitaria para o Sporting e Seleção Nacional. Para o internacional senegalês, então com 30 anos, nem um minuto de competição: ele foi campeão... do azar. Ao contrário de Moreira, o atacante que também ficou a ver jogar aquele campeonato histórico - recusou renovar contrato e foi encostado por Jaime Pacheco até sair, no final da temporada, para o Standard Liège (Bélgica), empurrado por rumores de um compromisso com o FC Porto que nunca se concretizou -, tudo se encaminhava para que o terceiro guarda-redes pudesse estrear-se, nem que fosse de forma simbólica, naquela caminhada histórica. O azar não deixou. "Foi num treino. Fiz uma luxação num ombro, faltava cerca de um mês para acabar o campeonato", conta, ao telefone, uma voz suave e alegre, a partir de Dakar. Os treinos do Boavista eram ferozes, Jaime Pacheco andava lá no meio, impunha raça na disputa da bola. "Foi um pontapé do Sanchez. Ele tinha aquele remate muito forte. Defendi a bola, mas caí mal", recorda o guardião esguio, quase dois metros, hoje de volta ao Senegal, onde trabalha na formação do Génération Foot: "Nunca treinámos como naquela época. O Boavista estava muito forte, fisica e psicologicamente. Era uma equipa nova, com jogadores mesmo muito bons."
"Foi uma época excelente. Ninguém acreditava que o Boavista podia ganhar o campeonato, mas entrou logo forte, com o Beira-Mar. Foi uma experiência muito boa", resume com a mesma candura com que enfrentou o banco e a bancada, o azar de ver a história passar-lhe ao lado. Jaime Pacheco, que sempre elogiou a postura de Khadim e de Moreira nesse ano de jejum competitivo imposto por circunstâncias tão diferentes, viria a provar que as palavras não eram vãs. Escolheu o senegalês para a equipa técnica "Ajudou-me muito, não foi só no Boavista", sublinha Khadim, que o acompanhou na Arábia Saudita e na China. Só não estão agora juntos no Egipto porque quando surgiu o convite do Zamalek o trabalho de Khadim no Génération Foot "já estava muito adiantado". Duas décadas depois, continua a ser o escolhido do treinador.
