
João Flõr
A dedicação ímpar de 28 anos a jogar no Rabo de Peixe. João Flôr, pescador, que não trava como médio da equipa açoriana. De uma histórica subida a muitas particularidades de uma terra especial
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Terra amaldiçoada em 2001 por um naufrágio que implicou uma calamidade social com a libertação na costa de quilos e quilos de cocaína, fardos espalhados pelo Atlântico, Rabo de Peixe tem sido notícia por uma transformação numa terra mais visitada, com tradições rejuvenescidas e compreendidas, na partilha entre gerações e também para fora do âmbito deste lugar tão humilde de São Miguel, marcado por muita pobreza, carências e uma dependência guerreira do mar.
O futebol também tem dado alegrias na vida sofrida de muita gente. O clube homónimo andou recentemente pelo Campeonato de Portugal, durante quatro temporadas, após ver a sua promoção consumada em 19/20. João Flôr, de 38 anos, é a cara do Rabo de Peixe, pelo futebol, pelos golos que cria e pela alma piscatória que carrega em cada jogo, impondo a tenacidade para conciliar duas vidas, que só têm em comum o apelo à raça. Começou menino no clube, atravessou toda a formação, contando com 28 anos no clube, 20 épocas na primeira equipa. Só interrompeu esta ligação umbilical para jogar duas épocas no Benfica Águia num passado recente. Ter disputado o Campeonato de Portugal é uma honra que ostenta, mas os créditos desta dedicação são vastos.
"Como é o clube da minha terra, nunca pensei em mais nada. Sempre vivi aqui e decidi dedicar-me ao meu clube, ao meu povo. Conciliando com o mar, o que não é nada fácil, pois sabemos que se pede a um jogador muito descanso. Mas move-me a paixão pelo futebol, o gosto de representar o clube das minhas gentes. Nunca pensei em mais nada, nunca pensei em sair, nem outros voos. O meu coração é Rabo de Peixe, ajudar o clube nos bons e maus momentos", atesta, sem rodeios, puxando a fita de glórias que aquecem o coração, após horas de incerteza no mar, desafiados pelos perigos e pelas condições atmosféricas. "Destaco a batalha árdua para subir ao CP e isso foi um marco histórico para um clube amador. Foi algo praticamente alcançado só com jogadores da terra, quase todos pescadores, dois ou três de fora. Era um grupo muito forte", enfatiza Flôr, que também teve o irmão Luís a partilhar balneário vários anos.

Futebol e mar era uma articulação de família, uma necessidade que se fez modo de vida e paixão nunca questionada pelos perigos. "Não é nada fácil, só quem está dentro é que percebe e sabe que a vida de mar não é para muitos. É muito duro e difícil, sem descanso algum, o que colide frequentemente com o futebol, onde o repouso é obrigatório. O jogador depende de uma alimentação saudável, mas vamos para o mar com enlatados e comidas rápidas. É um esforço fora do normal, mas é um desporto que adoro na minha vida e o futebol ajudar a reduzir o stress que temos", explana o médio, desafiado com horários que atropelam qualquer folgada planificação. "É um ritmo diário, treino às dez da noite, acabo e já me equipo para ir para o mar. Regresso às duas da tarde, vou buscar os filhos à escola, preparo o barco para voltar ao mar. No dia seguinte a mesma rotina, e sempre uma força de vontade muito grande", vinca, resumindo a sua permanência em Rabo de Peixe, num clube humilde e um contexto sofredor. "Dizem que somos a terra mais pobre dos Açores. Mas, no fundo, é uma vila de cumplicidade, onde se gosta de ajudar o próximo. Se conseguimos ajudar não somos tão pobres assim. Só quem vem cá conhece a natureza das pessoas, pois Rabo de Peixe é uma força da natureza", expressa o jogador, que recua aos seus primórdios.
"Estive na escola até aos 17 anos, o meu pai teve um acidente doméstico e sofreu uma lesão no pescoço que o impediu de trabalhar. Herdei logo o destino da pesca, tirei o curso para receber a cédula, comecei a fazer viagens e, aos 21 anos, passei a mestre de embarcação. Tive de sair da escola e começar a trabalhar. Entrei no futebol aos seis anos no Pico da Pedra e aos 8 mudava-me para o Rabo de Peixe. Hoje as coisas são como eram quando 21 anos, jogo e ando no mar, nunca fui tentado por nada de fora. Eu adoro estar no mar, só me imagino no mar e num campo de futebol. Enquanto as pernas aguentarem, vou seguir".
Para o fim, João Flôr debruça-se sobre a fama recente da vila piscatória, atrelada a um fenómeno da Netflix. "Há muita coisa que não acredito, mas se há algo de positivo a série foi que Rabo de Peixe passou a ter muito mais turismo. Isso tem ajudado a terra. Essa situação afetou muita gente, destruiu famílias, mas não estive ligado a nada. O futebol retirou desse caminho muita gente", explica.

