Chico Nelo, o craque desviado da fama pelos vícios: "Com 12 anos fumava tabaco e com 14 haxixe"

Carlitos e Chico Nelo
Miguel Pereira
ENTREVISTA, PARTE I - A história de Chico Nelo arrepia, traduzindo a vida madrasta de um homem que podia ter sido estrela. Chico Nelo deixa revelações de uma carreira que fugiu da glória. Visto no FC Porto como diamante, só conseguiu jogar na I divisão por Famalicão, Gil Vicente e União da Madeira.
Pega-se numa cara inesquecível, dono de um futebol que seduzia, de raiz humilde e sofrida, faz-se a viagem cheia de solavancos, soluços de incredulidades e segundos de angústia, na crueza da memória. A conversa com Chico Nelo é uma odisseia pela estrada fora, sem travões nas fatalidades, nem guinadas salvadoras. Arrepios que se esbatem na vitória da vida, do fundo do poço à fonte da esperança. Mesmo de alma triste, respira a criança feliz que não teve a adolescência que precisava, balançando num rumo incerto. Coabita com um corpo adulto, de 57 anos, que não aceitou ficar refém da lei selvagem da vida, de perder a mãe com 16 anos e um filho de apenas um ano. Olhar para Chico Nelo é um livro da vida em estado bruto, do futebol em estado puro. Das desgraças aos vícios, o antigo médio que se fez maior promessa do FC Porto na década de 80, leva anos a recuperar o fôlego e a colar cacos, da viagem ao mundo das drogas, rendendo-se ao álcool como remédio para exorcizar fantasmas.
Chico Nelo, que deixou a sua marca na I divisão, jogando por Famalicão, Gil Vicente e União da Madeira, resiste e hoje é mais saudável que há 10 ou 20 anos, quando pisou o risco e parecia uma bala perdida.
"Andámos juntos na escola primária, demos uns toques no Afuradense, num torneio de futebol de salão. Na formação do FC Porto, era um craque com todas as valências, tecnicamente fabuloso. Faltou-lhe um pouco de juízo, podia ter sido um dos melhores jogadores portugueses", afirma Abílio Novais, que esteve sempre próximo. "Tentei ajudá-lo, procurando trazê-lo para as velhas guardas e auxiliando na sua saúde, com dentista e psicóloga. Melhorou uns tempos, mas foi abaixo com as perdas que teve na vida", conta.
O futebol, que esqueceu Chico Nelo, salvo exceções, como Abílio ou Pedro Inácio, hoje tenta recuperá-lo. De braços estendidos com uma corda firme, Carlitos, antigo craque do Gil Vicente, tem alimentado um comovente renascimento. Um contacto pessoal num evento de velhas guardas, no Porto, o Bombonera Party People, foi um sol que se abriu. Os olhos raiaram, perante o rosto bronzeado e o físico mais escanzelado. Carlitos estava rendido, frente a frente com um herói da subida do Gil Vicente de 89/90. E esse respeito transportou-se para uma homenagem do Gil Vicente a antigos jogadores: Carlitos deslocou-se à Afurada e fez Chico Nelo pisar o Estádio Cidade de Barcelos, ao lado de monstros da camisola gilista como Marconi, Cacioli ou Capucho. Nas redes sociais, um texto repleto de doçura fez transbordar as emoções. O valor da amizade retira qualquer um da escuridão. Nesta conversa, Chico Nelo desabafa os horrores, graceja com os pecados, exulta pela ternura e nostalgia da bola.

"Podia ter sido um senhor do futebol"
Bem mais novo, Carlitos carrega o encanto nas veias por cada injeção que apanhava, emergia em Barcelos o talento vagabundo de Chico Nelo. A paixão de criança transformou-se, hoje, numa história de carinho, graças ao reencontro com o herói da infância. "Foi uma inspiração, sempre foi. Eu era apanha-bolas e ajudante de roupeiro nos seniores. Preparava as chuteiras para ele brilhar! Seguia os treinos à custa do Chico Nelo. Cheguei a faltar à escola, quando chovia torrencialmente, para ir ver um treino ao campo das Andorinhas", recorda Carlitos, figura em Barcelos com assinatura própria. Mas com memória. "Era um privilégio vê-lo, um espelho para mim. Que alegria ter recuperado o contacto. Nem acreditei quando o vi na Bombonera. Adoro o Chico!", partilha, definindo tudo aquilo que o seduzia. "Era irreverente, um jogador selvagem, até a andar tinha estilo. O pé esquerdo era fabuloso, pela forma como pegava na bola! Contagiava todos. Aqui ficou no coração das pessoas. Tinha tudo para ser um fora-de-série, um senhor do futebol", constata o antigo extremo, reconhecendo a luta abnegada do amigo para fintar o destino maldito. "Todos estamos sujeitos. Dou-lhe os parabéns pela força de se levantar, de querer viver e não ter vergonha".

56 jogos e três subidas
Chico Nelo faz 56 jogos na I divisão nas épocas em que defendeu as cores de Famalicão, Gil Vicente e União da Madeira. Termina cedo a carreira, com 30 anos, no Vizela. "Por onde passei fui dos melhores marcadores. No Gil Vicente e Famalicão devo ter marcado à volta de 12 golos em cada. Marcava, mas dava mais a marcar", atira, feliz por ter vivido três subidas.
Noites difíceis na cela
Uma vida de sucessivas angústias, e inevitáveis tombos, traduziu-se em problemas com a lei. "Tive os meus episódios de esquadra, felizmente, consegui sair em dois, três ou quatro dias. Eram assuntos de pancada ou droga. Uma vez foi buscar-me o Abílio e o presidente da Junta. Pagavam para eu sair e não podia cometer mais asneiras, sob pena de ir preso e apanhar quatro anos".

Não fosse o futebol seria bandido
De menino da Afurada a diamante do FC Porto. Como é que o futebol entra na vida do Chico Nelo?
-De pequenino já andavam em cima de mim, um dia passo pelo campo da Constituição e vou treinar com o Francisco Carneiro, técnico dos infantis. Foi bola de neve, fiquei registado e já não se esqueceram de mim. Depois conheço o Costa Soares, o homem das camadas jovens. Adorou a minha habilidade. Treinava nos juniores e já jogava nos seniores. Conheço então o Rodolfo Reis, que acaba por ser o meu treinador no FC Porto, Famalicão, Gil Vicente e Nacional.
Jogar no FC Porto nunca foi um plano real ou foi algo que fugiu do controlo?
- Eu era livre e rebelde, nunca quis experiências, nem ficar sem jogar. Tive oportunidades de ficar no FC Porto, logo aos 18 anos, mas sabia que não ia jogar e decidi sair. Se tivesse paciência, podia ter sido como o Domingos, que esteve dois anos sem jogar. Depois do empréstimo de três anos ao Famalicão, o Carlos Alberto Silva quis-me à experiência, e eu disse que não. O Rodolfo, para onde fosse, levava-me.
Há mágoas dessas decisões tão impulsivas?
-Eu era rebelde! O futebol é que me fez homem. Caso contrário, teria sido um bandido. A minha mãe morreu cedo, tinha eu 16 anos, o meu pai acabou, na mesma altura, por quase sair da minha vida, por alcoolismo. Tinha essa rebeldia vareira, e com a perda da minha mãe ficou tudo muito complicado. Se o FC Porto não me ajuda, não sei quem iria aguentar comigo! Não andava bem, se alguém me respondia torto, eu ia para cima...
A perda familiar inviabilizou um clique?
- Fiquei marcado pelo consumo de droga. Aos 14 anos fumava haxixe, aos 12 já fumava tabaco. Há um dia que o Costa Soares liga à minha mãe a dizer que me apanhou a fumar Kentucky. Levei um raspanete. Mas ela começa a ficar muito doente devido aos diabetes. Fui perdendo amor em casa e deixei de ter educação. A minha mãe morre, o meu pai mete-se no álcool, ninguém me metia regras...
Teve de ser o FC Porto a assumir um pouco essa orientação?
-O Costa Soares acabou por ser o meu pai, tratou de mim, desde que fui acolhido no FC Porto, com 12 anos. Outros diriam que eu não era exemplo para ninguém. Domou a minha rebeldia. Eu era tipo de fintar vários jogadores e passar-me se me traçavam a perna. Ia logo bater no menino. Ele entendia a minha natureza, eu jogava ao domingo manhã e ele levava-me para casa dele, almoçávamos e fazia-me ir ver os seniores às Antas. Era apanha-bolas e conseguia estar com os jogadores. Melhorou-me, fez-me ser amigo das pessoas. Tinha deixado a escola sem completar o 6.º ano.
Como se conciliavam as exigências do FC Porto com a vida que levava na Afurada?
-Quando estava no FC Porto, comecei a trabalhar desde pequenino, a fazer redes de pesca na Afurada. Estava ligado a esse meio, vivia no meio dos pescadores, lidava com o sofrimento de todos, os que iam descalços pescar. Era muito difícil, eu fui, nessa altura, poucas vezes ao alto mar, porque, senão, não dava jogador. Como o meu avô me ensinou a fazer redes, trabalhava nisso. Mas continuo ligado ao mar, hoje na pesca da sardinha. Amo o mar. Se não quisesse ir, fazia redes.
E como eram as condições do Chico tendo essa proximidade com a primeira equipa?
- Nos juvenis, fiz um contrato profissional a ganhar 45 contos. Deixei de trabalhar. Ninguém tinha contrato nessa altura, não havia júnior que ganhasse dinheiro. Apenas eu, o Festas e o Rui Filipe. Andávamos sempre juntos, éramos juvenis a jogar pelos juniores. Mas tenho de falar do capitão, Sérgio Cruz. Gosto muito dele. Apoiou-me muito. Se eu apanhasse um mau capitão, virava-me a ele! O Sérgio era carinhoso e compreendia-me.

Temível chuva e o terrível muro
Chico Nelo pisou o Adelino Ribeiro e lembrou-se dos dias de intempérie e do alto risco que estes representavam. "Era perigoso em dias de chuva. Quando ficava mesmo dilúvio, era hábito os jogadores deslizarem até ao muro. O Zé Maria da Música, do Varzim, teve uma lesão grave assim. Nesses dias, pedia ao Rodolfo para me colocar no meio, pois se jogasse pela esquerda ia ter o risco de escorregar e lá ir direitinho", recua, puxando a fita com precisão. "Bem que dizia ao treinador 'eu jogo melhor fora de casa do que em casa, é um campo duro, mete os mais fortes'. Ele mandava-me para o meio e não ficava completamente chateado. Ficava o Folha encostado, e um dia até se deu mal, na clavícula".

