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AFP
Acusações de racismo pairam sobre o jogador das águias, que arrisca castigo pesado. Processo está em marcha, organismo europeu quer ter decisão antes do jogo da segunda mão, em Madrid, tendo nomeado já um Inspetor de Ética e Disciplina. O Benfica defende o jogador e recorda Eusébio.
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Gianluca Prestianni pode estar em maus lençóis na sequência das acusações de racismo que o envolvem numa polémica com Vinícius Júnior que a UEFA está já a investigar e de forma célere. O organismo que superintende o futebol europeu quer colocar tudo em pratos limpos antes do jogo da segunda mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Real Madrid, na capital espanhola, na próxima semana. A investigação está em marcha e, segundo informou o mesmo órgão, "foi nomeado um Inspetor de Ética e Disciplina da UEFA para investigar alegados comportamentos discriminatórios" na partida da Luz.
A UEFA está já a analisar os relatórios do árbitro e delegados do jogo sobre a confusão ocorrida entre o jogador argentino das águias e o brasileiro dos merengues, sobretudo por Prestianni ter, alegadamente, chamado Vinícius de "mono" (macaco, em espanhol), que motivou a queixa deste ao árbitro e a paragem do jogo durante cerca de dez minutos, com ameaças do autor do golo do Real Madrid de não voltar ao campo para ser reatado o encontro. Imagens e inquirição de testemunhas serão decisivas para o desfecho do caso.
O jovem encarnado tem sempre a presunção de inocência do seu lado, pelo que terá de ser provado que proferiu essas palavras, sendo certo que é real o risco de que possa ser castigado e de forma pesada. Se essas provas existirem e vierem à tona, arrisca uma suspensão mínima de 10 jogos, moldura penal introduzida em 2013 por Gianni Infantino, quando o atual presidente da FIFA era secretário-geral da UEFA, e já aplicado, em 2021, a Kudela, antigo central do Slavia de Praga, por insultos racistas a Kamara, ex-médio do Rangers.
O Benfica colocou-se, na quarta-feira, ao lado do camisola 25. Por um lado, "encara com total espírito de colaboração, transparência, abertura e sentido de esclarecimento as diligências" da UEFA, reafirmando "o seu compromisso histórico e intransigente com a defesa dos valores da igualdade, do respeito e da inclusão, que vão ao encontro dos valores matriciais da sua fundação e que têm em Eusébio o seu símbolo maior". Por outro, reitera o clube que "apoia e acredita plenamente na versão apresentada pelo jogador, (...) cuja conduta ao serviço do clube sempre foi pautada pelo respeito pelos adversários, pelas instituições e pelos princípios que definem a identidade benfiquista", lamentando "a campanha de difamação de que o jogador tem sido vítima".
As reações de Vini e Prestianni
De vários quadrantes surgiram reações aos acontecimentos da Luz. Nuno Silva, dirigente do SOS Racismo, considerou a O JOGO que "o facto de poderem ter sido proferidos insultos com a boca tapada dificulta a perceção imediata, mas não invalida a necessidade de investigação", tendo a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), tutelada pelo governo, instaurado na quarta-feira "um processo de contraordenação" para apuramento de facto no alegado incidente de racismo.
Pouco tempo depois do apito final do jogo na Luz, Vinícius Júnior recorreu às redes sociais para partilhar uma reação aos alegados insultos racistas, afirmando que "racistas são, acima de tudo, cobardes" e acrescentando que estes "têm ao lado proteção de outros que têm a obrigação de punir". Na quarta-feira, o avançado do Real Madrid publicou um vídeo na rede social TikTok em que se mostra a celebrar o golo marcado ao Benfica. E na legenda escreveu "os pretos no devido lugar", fazendo referência à música que acompanha o vídeo, criada em 2024 em homenagem a Vinícius por onze artistas de funk brasileiro e pelo rapper Ice Blue.
Também Prestianni recorreu às redes sociais para transmitir a sua visão dos acontecimentos. "Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vinícius Júnior, que lamentavelmente interpretou mal o que acredita ter escutado. Nunca fui racista e lamento as ameaças que recebi dos jogadores do Real Madrid", escreveu o extremo de 20 anos dos encarnados, tendo o Benfica, pouco depois, publicado um vídeo a mostrar que "dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a dizer que ouviram".
O empresário do camisola 25 juntou-se à sua defesa, destacando o seu "profissionalismo". "Houve uma discussão em que Gianluca defende a sua equipa pela falta de respeito do jogador visitante contra o seu público. Depois vem tudo o que significa uma figura mundial como Vinícius. Há milhões de imagens em que os jogadores cobrem a boca com camisolas ou mesmo com a própria mão. Daí a ser um ato de racismo, acho que pode haver muitas maneiras de tirar vantagem. Acredito e confio no Gianluca porque ele tem o conhecimento e o profissionalismo para se comportar como um jogador de futebol de elite. Sejamos justos e deixemos o espetáculo de lado. Só Prestianni e Vinícius saberão o que foi dito", escreveu Gastón Fernández.

