Sete pecados de Vieira: os casos que envolvem o Benfica e a justiça

Sete pecados de Vieira: os casos que envolvem o Benfica e a justiça
Marco Gonçalves | Sérgio André

Tópicos

Além do presidente, também a Benfica, SAD e a Benfica Estádio e Domingos Soares Oliveira são arguidos. Justiça já tem na mira 31 constituintes, 11 deles relacionados direta ou indiretamente à Luz

São sete, sete os casos que envolvem neste momento o Benfica e a justiça. O processo Saco Azul, que já tinha sido iniciado em setembro de 2018, levando então a buscas na Luz, passou ontem a contar com a SAD encarnada e Luís Filipe Vieira entre os arguidos, tomando assim proporções superiores para as águias, num caso que se junta a outros processos judiciais denominados como vouchers, emails, e-Toupeira, Mala Ciao, Jogos Viciados e Operação Lex. Isto num período de cerca de cinco anos, uma vez que o primeiro caso surgiu em outubro de 2015, na sequência de uma queixa apresentada por Bruno de Carvalho, então presidente do Sporting.

Na terça-feira, a Procuradoria-Geral da República acrescentou mais um capítulo a este longo historial, confirmando a O JOGO existência de quatro novos arguidos no processo: Benfica, SAD, Benfica Estádio, Luís Filipe Vieira e Domingos Soares Oliveira, enquanto representantes destas sociedades.

O presidente do Benfica foi ouvido na última segunda-feira no Campus da Justiça, em Lisboa, na companhia dos seus advogados - a super-equipa formada por Rui Patrício, João Medeiros e Paulo Saragoça da Matta -, no âmbito do caso do "Saco Azul", que anteriormente apontava para suspeitas sobre a utilização de uma empresa de informática para fazer sair do clube dinheiro, sob a justificação de serviços de consultadoria alegadamente irreais, mas que os encarnados esclareceram em comunicado à CMVM tratar-se de uma "alegada prática de um crime de fraude fiscal qualificada, por se entender que aquelas sociedades obtiveram nos anos 2016 e 2017 uma vantagem patrimonial indevida à qual está associada uma possível contingência fiscal calculada pela Autoridade Tributária no valor total aproximado de 600 mil euros".

Domingos Soares Oliveira e Miguel Moreira, administrador executivo e diretor financeiro encarnados, respetivamente, terão sido ontem ouvidos no âmbito deste processo, sendo que o primeiro também acabou por ser constituído arguido. Ao início da tarde, fonte da PGR confirmou a O JOGO a "existência de um inquérito dirigido pelo Ministério Público do DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal] de Lisboa e no qual se investigam factos suscetíveis de integrarem crime de fraude fiscal".

A investigação, em parceria com a Autoridade Tributária (AT) remonta a 2018, quando foram feitas buscas às instalações encarnadas - e ouvidos dois funcionários do Benfica -, por suspeitas da emissão de faturas de serviços fictícios de uma empresa de informática, que o Benfica pagou. Em causa estavam 1,9 milhões de euros que teriam sido pagos pelas sociedades encarnadas, durante seis meses, a troco de serviços que não foram prestados, dinheiro esse que depois seria levantado em numerário e serviria para fazer outro tipo de pagamentos.

No total dos sete casos, e entre os nomes conhecidos, existem nesta fase 31 arguidos, sendo que relacionados com situações ligadas ao Benfica podem ser nesta fase onze: quatro no caso Saco Azul, quatro na Operação Lex (Vieira, o vice-presidente Fernando Tavares, o juiz Rui Rangel e o advogado Jorge Barroso) e três no e-Toupeira (José Augusto Silva, Júlio Loureiro e Paulo Gonçalves, também arguido no caso dos emails, que investiga uma eventual teia de corrupção para beneficiar o Benfica através da arbitragem. Além da suspeita de crime de fraude fiscal no caso Saco Azul, Luís Filipe Vieira é investigado na Operação Lex por crime de recebimento indevido de vantagem.

Já no caso e-Toupeira, Paulo Gonçalves é acusado de 50 crimes: um de corrupção ativa, seis de violação do segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, 11 de acesso indevido e 11 de violação do dever de sigilo. José Augusto Silva é acusado de 75 crimes (um de corrupção passiva, seis de violação do segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo, 28 de acesso ilegítimo e um de peculato) e Júlio Loureiro de 47: um de corrupção passiva, um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido e nove de violação do dever de sigilo.

CASOS:

SACO AZUL
Lançado em 2018, o processo Saco Azul investiga crimes de branqueamento e fraude fiscal. As primeiras buscas foram realizadas à SAD encarnada em setembro de 2018, data na qual foram constituídos seis arguidos, num caso com suspeita de "lavandaria".

EMAILS
A divulgação de emails do Benfica, pelo FC Porto, no Porto Canal, em junho de 2017, levantou suspeitas de alegados crimes de tráfico de influência, corrupção passiva e ativa por parte do emblema encarnado. O Ministério Público constituiu Paulo Gonçalves como arguido no processo, que investiga uma alegada rede de corrupção na arbitragem para beneficiar o Benfica.

VOUCHERS
O processo foi iniciado na sequência de uma queixa apresentada em 2015 por Bruno de Carvalho, então presidente do Sporting, investigando a existência de possível corrupção do Benfica a árbitros.

OPERAÇÃO LEX
Luís Filipe Vieira prepara-se para ser acusado por recebimento indevido de vantagem, sendo suspeito de ter oferecido ao juiz Rui Rangel uma vaga na futura universidade das águias como compensação pela influência do juiz num processo fiscal do seu filho. A investigação, que se estende por vários magistrados, por alegada prática de crimes de corrupção, branqueamento, tráfico de influências e fraude fiscal, tem já 18 arguidos, entre eles Luís Filipe Vieira.

E-TOUPEIRA
A SAD foi ilibada de julgamento, num caso que investiga a violação de justiça, nomeadamente com acesso a investigações e processos relacionados com o Benfica e até clubes rivais. O julgamento, que leva Paulo Gonçalves, José Augusto Silva e Júlio Loureiro ainda não começou, por recurso para o Supremo Tribunal por parte deste último.

JOGOS VICIADOS
A Polícia Judiciária e o Ministério Público investigam um alegado aliciamento de jogadores do Marítimo por um elemento próximo do Benfica antes de um confronto entre as duas equipas, na 33.ª jornada do campeonato de 2015/16. À SIC, dois alegados jogadores dos insulares lançaram as suspeitas, de forma anónima. Além disso, também um desafio com o Rio Ave está na mira da investigação, que tem como suspeitos Paulo Gonçalves e César Boaventura.

MALA CIAO
A Polícia Judiciária do Porto suspeita de um esquema por parte do Benfica que visava a compra de jogadores para perderem os seus desafios com as águias e também para ganharem ao FC Porto. No âmbito da investigação, foram realizadas buscas a quatro sociedades anónimas desportivas, como Aves, V. Setúbal, Marítimo e Paços de Ferreira, num caso em que é investigada a possibilidade de a cedência de atletas serviria como troca de favores.