"Benfica está em situação de falência moral e institucional. Criei uma equipa e tenho provas"

"Benfica está em situação de falência moral e institucional. Criei uma equipa e tenho provas"
Vítor Rodrigues

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Jorge Mattamouros, o sócio do Benfica que pede em tribunal a destituição de Luís Filipe Vieira, diz que não é um "pau mandado".

Por considerar que Luís Filipe Vieira usou o Benfica na sua esfera pessoal, nomeadamente na relação com o Novo Banco e na falhada OPA do clube à SAD, o sócio das águias Jorge Mattamouros entrou com uma ação em tribunal que visa a destituição automática do presidente encarnado ou a anulação de umas eleições que avalia como fraudulentas.

Por que razão avançou apenas agora com esta ação, até tendo em conta que as eleições foram em outubro?

-Esta ação tem como objetivo principal a perda de mandato de Luís Filipe Vieira. Avancei com a ação agora porque na minha avaliação o Benfica está numa situação de falência moral e institucional em termos do exercício do poder da sua presidência sem comparação na sua história. A degradação tem vindo a agravar-se, o espetáculo na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco, não sendo o facto decisivo, é uma demonstração recente que mostra a todo o país aquilo que os benfiquistas têm sentido. Isto não é uma ação sobre as eleições, é para libertar o Benfica de Luís Filipe Vieira. É contra ele, para proteger o Benfica e não contra os parceiros de negócio. É uma ação cível contra Luís Filipe Vieira na sua qualidade de presidente e não na qualidade pessoal, para o afastar da presidência e proteger o clube.

O Benfica também foi visado nessa ação...

-O Benfica é parte da ação por causa do período eleitoral. Como as eleições são do clube, não tinha forma de pedir a anulação se o clube não fosse parte, mas o objeto, o adversário na ação, é Luís Filipe Vieira assumidamente. E a este respeito acrescento que no dia em que Luís Filipe Vieira sair, se for antes da ação terminar, pelo seu pé ou por via de uma qualquer medida cautelar relativa aos processos criminais que estão a decorrer, terminarei a ação no dia seguinte.

Este era, no seu entender, o timing mais adequado para avançar com a ação?

-Eu achei que faria sentido que esta bomba rebentasse logo a seguir ao final de uma época complicada para o clube. Quando o objetivo é libertar o Benfica de Luís Filipe Vieira, aquilo que eu procuro é quais são os fundamentos jurídicos e busco todas as formas jurídicas lícitas. E há duas formas de o fazer: uma é a perda de mandato automática e outra a anulação das eleições. E nos dois casos com fundamento.

Alega que Luís Filipe Vieira fez uso indevido de fundos do Benfica. Tem em seu poder provas que as sustentem descobertas por si ou resultantes das investigações do Ministério Público?

-É uma combinação. Preocupado a situação, tenho feito o meu trabalho e tentado perceber o que se passa, criei uma equipa e tenho tentado destapar tudo para entender a gravidade e profundidade dos problemas. Há duas alegações principais, uma em que dinheiro saiu das contas do Benfica em numerário por via de contratos fictícios, que foi feita pelo Ministério Público, está escrito numa nota de 2018, na qual está escrito que a única preocupação destes contratos é retirar dinheiro das contas do Benfica. Não há surpresa nenhuma para ninguém.

Alega na ação que houve dinheiro do Benfica a seguir para a Promovalor, empresa do presidente do Benfica...

-O que eu acrescento, e é grave, é que parte desse dinheiro foi entregue a pessoas da Promovalor [empresa de Luís Filipe Vieira]. É essa a minha alegação. Imagine-se que o Benfica vem e até mostra que havia fundamento para isso, então logo veremos. Agora, haver dinheiro do Benfica a ser entregue a pessoas da Promovalor é gravíssimo. Para essa alegação, sim, tenho prova, não o faria se não tivesse, mas não vou desvendar. Se desvendar agora, o Benfica vai fazer 30 por uma linha até ao julgamento. O que posso dizer é que a prova existe.

A sua ligação familiar, por serem cunhados, a João Noronha Lopes, candidato vencido nas últimas eleições, tem alguma ligação a esta sua decisão, como destaca o Benfica no comunicado de quinta-feira em resposta à apresentação desta ação?

-Sou familiar de João Noronha Lopes, fui apoiante dele nas eleições, o Benfica não disse nada de novo naquele comunicado. Sou amigo, cunhado e fui apoiante durante a campanha. Eu comecei a ir a Assembleias Gerais do Benfica com 16 anos, não tinha a menor ideia quem era João Noronha Lopes. Eu não cheguei aos 30 e tal anos ao topo da advocacia mundial, passe a imodéstia, sendo moço de recados de ninguém. O João Noronha Lopes é um grande benfiquista, excelente executivo, pensa pela cabeça dele e tem um cunhado com uma vida autónoma e uma carreira de sucesso internacional, que também é um grande benfiquista.

Falou com ele antes de avançar com esta ação?

-Quem falar comigo percebe, desde logo, que não sou um pau mandado. É claro que falei com ele, dei-lhe notícia de que estava a preparar esta ação numa fase já avançada e foi intencional, para que ele não fosse parte do processo. Informei por cortesia. Ele disse-me que era a posição de cada um. Não estamos articulados, como se percebe pelo comunicado que ele emitiu ontem, mas não estamos desavindos nem zangados. Ele disse-me que não era a via que preconizava e eu aceito. O Benfica precisa de mudança e eu segui o meu caminho.

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