
Treinador do Damaiense SAD, Kristján Gudmundsson, abre o jogo e fala sobre a temporada num clube em fase de mudança
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Num contexto de mudança profunda, dentro e fora de campo, o Damaiense SAD vive uma época de enorme exigência na Liga BPI. Último classificado, o clube enfrenta uma realidade dura. Ao leme do projeto está Kristján Gudmundsson, treinador islandês de 60 anos, que se estreia no futebol feminino português depois de uma carreira construída maioritariamente na Islândia. Detentor de cinco títulos ao longo do percurso e com experiência tanto no masculino como no feminino, Gudmundsson assinou um contrato de duas épocas e aceitou um dos desafios mais complexos da carreira. A O JOGO, fala do presente e do futuro, dos obstáculos enfrentados, das suas ideias e da forma como vive o futebol, num registo que permite conhecer melhor o homem por detrás do treinador.
Kristján, chega a Portugal numa fase muito particular do Damaiense SAD e estreia-se na Liga BPI. O que o convenceu a aceitar este desafio?
-Vi aqui a oportunidade de me testar numa liga do top 10 europeu. A Liga BPI tem crescido de forma muito rápida nos últimos anos. O Damaiense encontrava-se numa situação muito própria, ao mudar o seu campo-base e instalar-se no Algarve, com um grupo de jogadoras reduzido e reunido apenas pouco antes do início da temporada. Para mim, isso representou um enorme desafio, que quis abraçar.
A mudança da Damaia para o Algarve marcou profundamente esta época. Essa transição trouxe mais dificuldades imediatas ou também abriu portas a novas oportunidades para o clube?
-O facto de não termos uma casa onde nos sintamos verdadeiramente em casa tem um impacto evidente. Levar uma equipa para uma região sem tradição no futebol feminino de topo, onde tudo o que fazemos é novo para a população, é um desafio que temos de assumir. Sem dúvida, a equipa e o staff enfrentaram mais e maiores dificuldades do que alguma vez se poderia imaginar, mas isso também cria oportunidades de crescimento.
Assumiu a equipa a poucos dias do arranque do campeonato. Que realidade encontrou quando chegou e que diagnóstico fez do plantel?
-Encontrámo-nos todos pela primeira vez apenas dois dias antes do primeiro jogo do campeonato. Ganhar esse jogo inicial foi inacreditável, quase não acreditávamos no que estava a acontecer em campo. Montar um plantel em apenas uma semana foi um excelente trabalho da Direção, mas percebemos desde o início que o grupo precisava de mais jogadoras.
Ou seja, foi um processo de adaptação feito quase em tempo recorde...
-Sim, este plantel foi montado em apenas uma semana, imediatamente antes do início da época, pelo que tive de me adaptar rapidamente e perceber, jogo a jogo, o que melhor se adequava às jogadoras. Conheci o grupo e o "staff" dois dias antes do primeiro jogo e realizámos apenas dois treinos. Foi surreal, mas ao mesmo tempo entusiasmante.
Com o Damaiense no último lugar da tabela, como analisa o percurso da equipa até este momento da época?
-Tem sido uma montanha-russa difícil. Ainda assim, houve momentos de bom desempenho, com alguns altos e baixos, mas no geral estivemos muito próximos daquilo que imaginávamos antes do início da época. Sentimos que devíamos ter mais pontos, mas essa não é a realidade, por isso continuamos a trabalhar.
Apesar da classificação, sente que a equipa ainda pode surpreender na segunda metade da temporada?
-Há algo especial neste grupo. No entanto, a realidade é que estamos no último lugar, com metade dos jogos disputados, e por isso o principal objetivo é a manutenção. Para isso, precisamos de reforçar o plantel em todas as posições o mais rapidamente possível.
O contrato de dois anos dá-lhe margem para pensar este projeto para lá do imediato. Que Damaiense SAD gostaria de ajudar a construir a médio prazo?
-A ideia de um contrato de dois anos foi exatamente essa, construir uma equipa num ambiente pouco habituado ao futebol feminino profissional. Criar bases sólidas dentro do grupo e evoluir a partir daí na próxima época. Vejo uma boa oportunidade para o Damaiense se afirmar no Algarve como a única equipa profissional e, ao mesmo tempo, criar um caminho para que as raparigas da região possam jogar na Liga BPI pelo clube da sua terra.
Há valores ou princípios dos quais nunca abdica, mesmo quando os resultados não aparecem?
-O futebol, em qualquer país, é um espelho da sociedade. A sociedade em que vivemos aceita muitas vezes que enganar é válido se se ganhar. Isso é algo que eu detesto.
O erro faz parte do crescimento ou há falhas que não consegue aceitar em campo?
-O erro faz absolutamente parte do processo de aprendizagem de qualquer jogadora e de qualquer equipa. O que me irrita são os erros que se repetem, mesmo depois de analisados e corrigidos. Normalmente isso resulta de maus hábitos que não foram corrigidos a tempo, e hábitos são difíceis de mudar, mas lá chegaremos.
Aos 60 anos, o que continua a motivá-lo a aceitar desafios tão exigentes como este?
-Novas provocações e trabalhar com pessoas talentosas. Sempre quis viver uma experiência no estrangeiro e conhecer outra cultura. Enquanto tiver saúde e a experiência necessária para lidar com as exigências implacáveis da profissão de treinador, continuarei motivado.
Trabalhou tanto no futebol masculino como no feminino. Que diferenças e semelhanças encontra na gestão de grupo e nos processos de treino?
-O que me levou inicialmente a treinar equipas femininas foi a enorme vontade de aprender que as jogadoras demonstravam. Estavam constantemente a fazer perguntas e mostravam uma grande dedicação ao treino. As jogadoras seguem as instruções de forma muito rigorosa, por vezes até em excesso. Uma das maiores curvas de aprendizagem para mim, depois de muitos anos a treinar homens, foi perceber que não se utilizam os exercícios da mesma forma no futebol masculino e feminino. Existem diferenças físicas, de velocidade e de perceção do espaço. Diria também que a forma de comunicar com um grupo de mulheres é diferente da utilizada com homens, mesmo quando as mensagens são exatamente as mesmas.
Por fim, se tivesse de resumir esta época até agora numa frase honesta, qual seria?
-"É mesmo isto tudo que nos vão atirar para cima? Está bem... continuem. Nós vamos vencer".
